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Lierre Keith, Patriarcado e Planeta Terra

18-fev-17

“…Essa é a real genialidade do patriarcado: ele não só naturaliza a opressão, como ele sexualiza atos de opressão. Então ele erotiza dominação e subordinação e institucionaliza isso em masculinidade e feminilidade. O patriarcado naturaliza, erotiza e institucionaliza a opressão.

A genialidade do feminismo é que nós descobrimos isso.

Feminilidade é o conjunto de comportamentos que são em essência a submissão ritualizada. A socialização feminina é um processo de reprimir psicologicamente as meninas e, finalmente, “quebrá-las”. A esse processo chamamos aliciamento, e ele cria uma classe de vítimas conformadas. Feminilidade é na realidade apenas a psique traumatizada demonstrando aquiescência.

Isso não é natural e não foi criado por deus. É um arranjo social corrupto e brutal.

Tem se tornado comum em alguns círculos ativistas abraçar noções do pós-modernismo, e isso inclui essa ideia de que o gênero é de alguma forma um binário.

O gênero não é um binário, é uma hierarquia. É global em seu alcance, é sádica em sua prática e é assassina em sua conclusão.

Assim como as raças. Assim como as classes.

O gênero demarca as fronteiras geopolíticas do patriarcado, que é o mesmo que dizer que nos divide ao meio. E essa metade não é horizontal, é vertical. E caso você não tenha percebido, os homens estão sempre no topo.

Gênero não é um cósmico yin yang. É um punho e uma carne que sangra. É uma boca violentamente calada e uma menininha que nunca mais será a mesma. Gênero decide quem será humano e quem será machucado.

E como fica mais fácil se você pode dizer “deus a fez dessa maneira para que esteja abaixo de mim” ou “a natureza a fez dessa maneira, a coisa com o buraco” ou “ela se fez dessa maneira, a vadia que pediu por isso”.

Porque nós sempre merecemos. O estupro, a pobreza, a prostituição. Até pelo assassinato nós pedimos. Todas essas práticas juntas são o que Andrea Dworkin chamou de barricada do terrorismo sexual. E o gênero é o que demarca precisamente os limites. As mulheres vivem dentro da barricada e os homens vivem fora. Aliás, eles construíram essa barricada. Punho por punho, foda por foda.

Nós não temos escolha: se você nasceu fêmea, você nasceu em um campo de batalha.”

(Lierre Keith na palestra Patriarcado e Planeta Terra dada para o Deep Green Resistance)
veja a palestra (ative as legendas em português) em:
https://www.youtube.com/watch?v=966JuuHbF1w parte 1
https://www.youtube.com/watch?v=U2LAsHEIGsI parte 2

Sexo, Gênero e Relações Sociais de Sexo

08-mar-15

“No Brasil, é muito difundida a ideia de uma certa equivalência entre teorias pós-modernas e uma perspectiva antiessencialista, como se a segunda só pudesse ser fruto da primeira posição. É interessante notar que os referenciais antinaturalistas vêm, em grande medida, nessa obra, de autoras de outras perspectivas teóricas. Além disso, percebe-se até mesmo uma certa reticência, por parte de algumas autoras, em relação às teorias chamadas de “pós-modernas” ou “pós-estruturalistas”. Collin faz referência ao “pouco impacto” dessa perspectiva na França (64). Para Danielle Juteau essas teorias ocultariam frequentemente “as relações sociais fundadoras das categorias de sexo” (93). Para Nicole-Claude Mathieu nessas teorias “os aspectos simbólicos, discursivos e paródicos do gênero são privilegiados em detrimento da realidade material histórica das opressões sofridas pelas mulheres” (228).Uma polêmica que perpassa o Dicionário já mencionada na introdução como uma das grandes controvérsias do livro é sobre o uso da categoria “gênero”. O termo é frequentemente descrito como “de origem anglo-saxã” (15), “muito utilizado nos meios anglo-saxões” (93). Para Françoise Collin, o termo “importado dos Estados Unidos e traduzido por ‘gênero’” não seria de “uso habitual” na França (59). Sabe-se que o conceito não teve aceitação imediata na França, mas, apesar das controvérsias, foi progressivamente incorporado. Embora seja de uso menos frequente que “relações sociais de sexo”, o termo aparece em diversos verbetes. Múltiplas são as razões para que o conceito não tivesse uma aceitação imediata na França – e aqui não me limito às argumentações presentes no Dicionário. Para algumas autoras, o uso do termo “gênero” seria não só inapropriado como desnecessário. Um primeiro motivo, dentro dessa argumentação, é que “gênero” seria um estrangeirismo desnecessário, chegando ao ponto de considerá-lo como “tão somente um anglicismo irritante” (Ozouf e Sohn apud Offen, 2006). Delphy nos alerta para o que ela considera ser uma certa “hostilidade irracional contra aquilo que é visto como uma ‘importação do exterior’” (177) existente na França. Embora algumas objeções ao uso do conceito de gênero na França se enquadrem nessa argumentação, há oposições de outra ordem que comentaremos ligeiramente a seguir.Algumas leituras apontam para o caráter intraduzível do termo “gender” para o francês. Há inclusive uma recomendação oficial de 2005 da Comissão Geral de Terminologia e Neologismo (França) para o uso de termos
franceses equivalentes ao termo “gender”, considerando que não há necessidade linguística que justifique a substituição de “sexe” por “genre”.7 Nicole-Claude Mathieu, no verbete “sexo e gênero”, menciona algumas outras objeções ao uso. Para algumas autoras, a distinção entre sexo e gênero, uma vez que compreenderia uma dicotomização entre biológico e cultural, acarretaria uma reificação da biologia, ocultando, assim, seu caráter ideológico e histórico. Para outras, o conceito de gênero eufemizaria as relações de poder e a ideia de antagonismo social correspondente a um sistema de exploração e dominação. Mas percebe-se que em muitos momentos as categorias “gênero” e “relações sociais de sexo” são utilizadas como sinônimos, sem que isso implique necessariamente um posicionamento teórico. Como enfatiza Delphy

não mais que outros termos de Ciências Sociais, os termos ‘patriarcado’, ‘gênero’ ou ‘sistema de gênero’, ‘relações sociais de sexo’ ou ‘relações sociais de gênero’, ou qualquer outro termo suscetível de ser empregado em seu lugar, não têm definição estrita e tampouco uma com a qual todos estejam de acordo (177-8).”

(…)

“Em análise comparativa com outros dicionários congêneres produzidos nos Estados Unidos percebe-se que no Dicionário em questão são poucos os verbetes relacionados à “sexualidade”. Brigitte Lhomond ressalta que alguns debates relacionados à temática que deram lugar a “vívidas polêmicas nos países anglo-saxões” restaram marginais na França – como, por exemplo, prostituição, pornografia, sadomasoquismo dentre outras práticas sexuais (234). O fraco interesse por alguns debates que polarizaram feministas estadunidenses, como pornografia e políticas sexuais em geral, é uma questão ressaltada em outras obras .”

http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-83332011000100017&script=sci_arttext

Tirando os Nossos Olhos dos Caras – Sonia Johnson

05-mar-15

Todas nós – todas as mulheres no patriarcado – somos criadas para sermos escravas, somos criadas para sermos prostitutas. Todas nós, em algum sentido, somos, ou fomos, prostitutas e escravas, e muitas de nós continuaremos a ser para o resto de nossas vidas. E é a essência, a própria natureza da criação, cegar-nos – de nossa condição, assim como das mecânicas de nossa escravização.
Aquelas de nós, no entanto, que crescemos e fomos criadas nos tradicionais ambientes Judaico-Cristãos fundamentalistas, temos um olhar mais atento para a mecânica desse processo de criação do que algumas outras. E embora nós sejamos às vezes matronizadas dentro do movimento – partindo do princípio de que, se conseguimos acreditar nesse absurdo ridículo, perigoso, nunca mais poderemos ser confiadas a ver com clareza – a verdade é que provavelmente podemos ser mais confiadas em ter mantido a visão clara do feminismo, uma vez que a vimos, do que aquelas de vocês que cresceram como Unitárias ou Quakers ou mesmo Metodistas e Presbiterianas, porque, você vê, vimos o patriarcado nu diante de nós o tempo todo, ao redor de nós durante todo o dia, todos os dias.
E o que nós soubemos, o que nós percebemos logo que pudemos vero que estávamos vendo e rejeitá-lo – arrancá-lo de nossas almas e jogar tudo fora – com o que ficamos foi o entendimento da família patriarcal como o modelo para toda opressão: a família patriarcal com o homem no topo como deus e a mulher e as crianças como vermes debaixo dele – e muito frequentemente literalmente debaixo dele.
Nós entendemos, então, que esse paradigma – esse paradigma de poder-sobre, esse paradigma sadomasoquista que é o patriarcado – se estende a tudo, que esse é o modelo para todas as instituições sociais, para todas as estruturas econômicas, para as políticas internacionais. É o branco em cima na posição do macho como deus, pessoas de cor por baixo na posição da mulher como verme. É o rico como macho em cima, pobres como a fêmea embaixo. É seres humanos em cima, todos os outros seres vivos embaixo. É grande em cima, pequeno embaixo – países grandes como macho, países pequenos como fêmea – e assim por diante.
Agora onde aprendemos que isso é “natural” e “normal” é na família. Todas nós tivemos uma dessas, e algumas delas, como eu digo, foram mais descaradamente patriarcais do que outras. Algumas de nós tivemos uma educação realmente completa, e como foi dito na minha introdução, eu tive uma das melhores que já existiu! Sou grata aos anciões Mórmons por uma educação verdadeiramente incomparável na ontologia patriarcal. Eu não posso ser enganada novamente, e nem podem vocês Católicas graduadas ou quaisquer outras de vocês que foram verdadeiras crentes em qualquer religião.
Quando eu digo que todas as mulheres têm sido criadas como escravas e prostitutas, eu estou falando da criação que começou em casa. Todas as outras instituições da sociedade participaram avidamente nela, é claro. Mas não importa como somos criadas – como prostituta ou como esposa, que é a mesma coisa – somos criadas na família patriarcal quase que exclusivamente para servir funções sexuais.
Não importa a forma que a criação leva, ela sempre tem o mesmo objetivo – fazer nos sentirmos inúteis e dependentes. Obviamente, o incesto é uma ferramenta da criação por excelência; um incidente de incesto é realmente tudo o que é necessário para nos ensinar o nosso papel no patriarcado. É uma traição de confiança tão profunda, principalmente de nossa confiança em nós mesmas. Ele é projetado para fazer nos sentirmos impotentes, para quebrar o nosso núcleo interno de confiança, e portanto, para fazer nos sentirmos totalmente dependentes dos homens. Ele funciona para fazer-nos crer apaixonadamente que precisamos de um salvador, que os homens devem nos salvar, que nós temos que passar por eles para ser salvas. Que de alguma forma temos que levá-los a mudar suas mentes sobre nós. Temos que fazê-los concordarem que o comportamento deles é terrível e levá-los a pará-lo. Nossa criação nos ensina o absurdo: que nós temos que fazer os escravocratas libertarem as escravas.
Esse é o objetivo da criação: fazer-nos acreditar que devemos sempre passar por outra pessoa para ser livres. É claro que a razão pela qual somos ensinadas isso é porque a liberdade nunca acontece dessa forma. Tiranos nunca libertam os escravos. É uma verdade histórica que os oprimidos devem sempre se levantar e libertar-se, e em libertar-se, libertar todo mundo. A verdade é que a mudança radical, a mudança na raiz, deve ser feita por nós.
Há muitas razões para estarmos na única posição, historicamente falando, de mudar as coisas. Uma delas é o paradoxo básico da tirania, que os opressores são sempre menos livres que os oprimidos. Outra é que, como mulheres, nós estamos verdadeiramente fora do sistema dos homens. Virginia Woolf disse isso, você sabe. Ela disse em Three Guineas que as mulheres são a Sociedade das Forasteiras, que é onde nós temos o nosso poder.
Nós temos poder – significando a capacidade de agir, de efetuar mudança – fora do sistema, porque é onde verdadeiramente vivemos, politicamente, psiquicamente; esse é, portanto, o único lugar onde somos autênticas, e só podemos ter poder onde somos autênticas. Também temos poder lá porque estar fora e ser escravas significa ser flexíveis; escravos têm que ser quase sobrenaturalmente flexíveis, a fim de sobreviver. E uma das leis mais importantes da cibernética é que o elemento mais flexível em qualquer sistema é o elemento controlador. Privilégios são correntes. Os homens são limitados por seus privilégios, não têm flexibilidade, não podem mudar seu sistema, mesmo se quisessem – e eles não querem. Sendo os mais flexíveis elementos neste sistema, as mulheres estão agora no controle do planeta. Nosso comportamento, e não o dos homens, irá determinar o curso dos acontecimentos humanos.
Mas condicionadas, criadas como nós somos, esta é a concepção mais difícil possível para nós, e a maioria de nós continuamos a acreditar que nós devemos fazer os homens mudarem seus caminhos, que somos dependentes de legisladores para aprovar leis, por exemplo. Poxa vida! Quando foi que aqueles no controle alguma vez desistiram de uma quantidade significativa dele para aqueles que eles controlam? Você consegue pensar em uma única vez na história?
Bem, isso nunca aconteceu e não vai acontecer. Nós deveríamos ter aprendido isso com a Emenda de Direitos Iguais. Se nós não aprendemos então, o que é que vai ser necessário para nos ensinar isso? Não aprendermos isso é parte da nossa criação, nosso profundo condicionamento. Estamos profundamente dependentes, profundamente servis de maneiras que nossa militância de superfície camufla.
Esse é o objetivo principal da criação: fazer-nos acreditar que os homens devem mudar o mundo para nós e que somos impotentes para mudar a realidade a menos que os homens mudem primeiro. Mas a verdade é que eles não vão mudar – não podem mudar – por isso não temos mais que perder nosso tempo tentando levá-los a isso. Nós somos as únicas que têm de mudar, porque nós podemos. E quando mudamos, tudo fora de nós vai ter que mudar para acomodar a nossa nova maneira de ser no mundo – inclusive os homens, mas isso está além do ponto, não vem ao caso.
O princípio subjacente a toda a criação – como você obtém este efeito, como você chega a este objetivo de fazer as mulheres acreditarmos que a nossa salvação depende do comportamento de outra pessoa – é que você leva alguém a fazer tudo em relação à outra pessoa que elas percebem como mais poderosa; você as leva a sempre consultar uma imagem de outra pessoa em suas mentes, para dizer a si mesmas – para dizermos a nós mesmas como mulheres, por exemplo – “Agora, como é que os homens responderão a isso?” cada vez que tomamos uma decisão, ou “Se fizermos isso, o que eles vão fazer?” Sempre ser relacional, consultar os mestres em nossa psique toda vez – isso é servidão.
Quando as mulheres tornamos os nossos estados internos, o nosso bem-estar, dependente do comportamento dos homens, comportamento que não podemos controlar nem mudar, nós desistimos de toda chance de independência e liberdade. Nossa liberdade deve depender exclusivamente de nós; somos as únicas que nós podemos mudar e controlar.
Devemos entender e internalizar o fato de que os homens são totalmente irrelevantes agora, na medida em que a mudança está em causa. Então, podemos tirar os olhos deles e olhar para nós mesmas para fazer uma nova realidade brilhante aqui e agora, no meio do putrescente, em colapso, velho mundo dos pais.
Enquanto estamos focadas nos homens, nós nunca vamos ver que a porta da nossa cela está aberta, que está aberta não para o patriarcado, mas para nosso poder. Enquanto estamos nos concentrando nos homens, fazendo tudo com nossos cafetões em mente, nunca vamos nos libertar. Nossos cafetões são os homens que nos rodeiam. Eles são os legisladores, professores, ministros – nenhuma de vocês ainda tem ministros ou sacerdotes, creio eu? Nossos cafetões são os nossos pais, nossos maridos, nossos filhos. Ser tudo em relação a eles é escravidão.
Eu aprendi isso como uma prostituta-em-treinamento no Mormonismo, em um lar Mórmon, assim como na igreja. E no Partido Democrata. E em grupos liberais e progressistas e de esquerda. E na Organização Nacional para as Mulheres, que é modelada, também, na família patriarcal. Aprendi essas coisas no mesmo lugar que você aprendeu elas. Todas nós temos aprendido elas da maneira mais difícil.
Quando eu escapei do Mormonismo, eu olhei para fora e vi que todas as igrejas eram a igreja Mórmon. Olhei mais longe e vi que o mundo inteiro era a igreja Mórmon. Ao longo dos anos, como eu ficava olhando, eu vi que o Congresso e as legislaturas e os partidos políticos e Mother Jones e a National Public Radio também eram todas a igreja Mórmon – você sabe, “Nada de Novo Considerado”, “As Mesmas Velhas Coisas Consideradas”. Eu vi que eles todos eram o Velho Clube dos Garotos.
Eu decidi que não ia escapar de um bordel só para ficar presa em outro; que havia algo basicamente errado com o pensamento de que qualquer dessas instituições era o Novo Mundo. Então, me pareceu que era hora de eu tirar os olhos dos caras, me livrar da crença supersticiosa de que se eu não monitorar todas as coisas que eles fizerem, se eu não agarrá-los e pedir-lhes e implorar-lhes e pressioná-los e chutar e gritar e bater meu pé e demandar, eles iriam enlouquecer e matar todas nós.
Mas isso é um absurdo, é claro, porque todas as evidências mostram que os homens têm enlouquecido de qualquer maneira. Com os nossos olhos fixos, sem pestanejar, nos rostos deles dia e noite por milhares de anos, eles têm ficado cada vez mais loucos. Com a nossa atenção concentrada neles eles estão nos matando e o mundo que nos rodeia diariamente. A evidência é que com o nosso comportamento reativo, temeroso, dependente, fomos facilitando o patriarcado em todas as suas manifestações ao longo da história. Temos sido criadas para fazer isso, para manter nossos olhos em nossos patriarcas, nossos cafetões, assim não vamos olhar para nós mesmas e ver as alternativas deslumbrantes.
Eu vi que já que isso não havia nos levado a lugar nenhum, era hora de parar de fazer isso. Não temos mil anos para obter o número suficiente de mulheres em nossas legislaturas e nosso Congresso. E mesmo que conseguíssemos, elas seriam todas imitadoras no momento em que chegassem lá, de qualquer maneira.
Não temos tempo. Nós só temos, talvez, dez anos. Isso significa que nós temos que aprender com a história que a resistência e a cooperação com o opressor não funcionam. Todas as maneiras que nós tentamos mudar as coisas não funcionaram. Elas não funcionaram! Estruturas hierárquicas não funcionam. Elas são todas cópias da família patriarcal, um paradigma que tem falhado conosco completamente.
Então eu decidi que é hora de eu recusar essa criação. É tempo para eu desprogramar a mim mesma e parar de me concentrar todo o tempo nos senhores, nos cafetões do mundo, parar de fazer tudo o que eu faço em relação a eles, em referência a eles, em reação a eles; parar de tornar os meus sentimentos de bem-estar dependentes do comportamento deles; parar de pensar sobre eles – eles são tãochatos, tão estupidamente chatos! Podemos prever tudo o que eles vão fazer, cada coisa selvagem, horrível, bruta, grosseira, que eles vão fazer. Sabemos tudo de cor. Nós não precisamos ver isso mais, não é? Você precisa? Eu certamente não. Já vi muito disso, e eu conheço isso de dentro pra fora.
Parece-me que o que eu tenho de fazer é o que o meu condicionamento profundo me diz para não fazer, fazer a coisa que me assusta mais do que tudo, fazer o que me foi ensinado a nunca fazer ou eu morreria – e isso é tirar os olhos dos caras e me levar a sério. Parar de possibilitar o sistema dos homens, o patriarcado. Parar de acreditar que eles vão mudar o mundo, que eu alguma vez terei que tentar levá-los a fazer alguma coisa redentora novamente. Eles não vão, não poderiam nem se quisessem. E me entender com a verdade de que se eu quero o mundo de outra forma, eu devo torná-lo dessa maneira eu mesma.
A mensagem mais importante que a minha velha sábia interior já me deu é que a transformação deste mundo cabe a mim e a você. Que alívio! Ainda bem que cabe às mulheres, pois agora ela vai ser feita!

em “The Sexual Liberals and the Attack on Feminism” (1990).

“Se queremos um mundo futuro em que as mulheres não estão de joelhos implorando para os homens serem um pouco mais gentis, devemos levantar-nos de nossos joelhos agora mesmo. Não existe um momento mágico em que rastejar de repente se torna respeito próprio e independência de espírito.” – Sonia Johnson

retirado de https://antipatriarchy.wordpress.com/

O Pessoal é Político, Carol Hanisch

22-fev-15

Por Carol Hanisch, Women’s Liberation Movement, 1969.
Tradução livre. Texto original em inglês: http://carolhanisch.org/CHwritings/PIP.html

Para este artigo eu procurei focar um aspecto comumente discutido no debate de Esquerda – a saber, “terapia” vs. “terapia e política”. Um outro nome para isto é “pessoal” vs. “político” e há outros nomes, eu suspeito, da forma como o debate foi se desenvolvendo pelo país. Eu ainda não tive a oportunidade de visitar o grupo de Nova Orleans, mas estive participando de grupos em Nova Iorque e em Gainesville por mais de um ano. Ambos os grupos foram chamados de grupos “pessoais” e de “terapia” por mulheres que se consideram “mais políticas”. Assim, devo falar sobre os supostos grupos de terapia por meio da minha própria experiência.

A própria palavra “terapia” é obviamente um mau uso do termo se levado à sua conclusão lógica. Terapia presume que alguém esteja doente e que haja uma cura para isso, por exemplo, uma solução pessoal. Eu fico realmente ofendida que se pense necessário que eu ou qualquer outra mulher precise de terapia, em primeiro lugar. Mulheres são confundidas, e não confusas! Precisamos mudar as condições objetivas, e não nos ajustar a elas. A terapia é um ajuste para sua escolha pessoal ruim.

Não fizemos muitas tentativas de resolver os problemas pessoais imediatos das mulheres no grupo. Nós selecionamos tópicos principalmente por meio de dois métodos: Em um grupo pequeno, é possível para nós nos revezarmos e trazermos perguntas para a reunião (como, “O que você prefere/ria, um bebê menina ou menino, ou nenhuma criança, e por quê?”, “O que acontece com o seu relacionamento se o seu companheiro ganha mais dinheiro do que você? E se ele ganha menos?”). Então passamos pela sala respondendo às questões a partir de nossas experiências pessoais. Dessa forma, todo mundo fala. No final da reunião, tentamos resumir e generalizar o que foi dito e a partir daí fazer as conexões.

Acredito que, neste ponto, e talvez por um longo tempo à frente, estas sessões analíticas são uma forma de ação política. Eu não vou a estas sessões porque eu preciso ou queira falar sobre meus “problemas pessoais”. Na verdade, eu preferiria não fazê-lo. Como mulher ativista, fui pressionada a ser forte, altruísta, voltada para os outros, sacrificadora, e, no geral, bastante no controle de minha própria vida. Admitir os problemas em minha vida é ser julgada fraca. Então eu quero ser uma mulher forte, em termos de Movimento, e não admitir que eu tenha quaisquer problemas reais para os quais eu não possa encontrar uma solução pessoal (exceto aqueles diretamente relacionados ao sistema capitalista). Neste ponto é uma ação política dizer as coisas como elas são, dizer o que eu realmente acredito sobre a minha vida ao invés do que sempre me foi dito para dizer.

Deste modo, o motivo para eu participar dessas reuniões não é para resolver qualquer problema pessoal. Uma das primeiras coisas que descobrimos nesses grupos é que problemas pessoais são problemas políticos. Não há soluções pessoais desta vez. Só há ação coletiva para uma solução coletiva. Eu fui, e continuo indo a essas reuniões porque adquiri uma compreensão política que toda a minha leitura, todas as minhas “discussões políticas”, toda a minha “ação política”, todos os meus quatro anos e pouco no movimento nunca me deram. Eu fui forçada a tirar os óculos cor-de-rosa e encarar a horrível verdade de quão deprimente minha vida é na condição de mulher. Eu estou adquirindo uma compreensão mais profunda de tudo, se comparado com a compreensão esotérica, à compreensão intelectual e sentimentos de noblesse oblige que eu tinha das lutas de “outras pessoas”.

Isto não é negar que essas sessões tenham pelo menos dois aspectos que são terapêuticos. Eu prefiro chamar esse aspecto de “terapia política” em oposição à terapia pessoal. O mais importante é livrar-se da auto-culpa. Você consegue imaginar o que aconteceria se mulheres, negros, trabalhadores (minha definição de trabalhador é a de qualquer um que tem de trabalhar para viver ao invés de aqueles que não precisam. Todas as mulheres são trabalhadoras.) parássemos de nos culpar pelas nossas tristes situações? Parece-me que todo o país precisa desse tipo de terapia. É o que o movimento negro tem feito do seu próprio jeito. Nós devemos fazer do nosso. Estamos apenas começando a deixar de nos culpar. Também sentimos que estamos pensando por nós mesmas pela primeira vez em nossas vidas. Como coloca o cartoon “Lilith”: “Estou mudando. Minha mente está se fortalecendo”. Aqueles que acreditam que Marx, Lênin, Engels, Mao e Ho tiveram a palavra final e “boa” no assunto, e que as mulheres nada têm a acrescentar vão, é claro, achar esses grupos uma perda de tempo.

Os grupos nos quais estive também não entraram em “estilos de vida alternativos” ou o que signifique ser uma mulher “liberada”. Chegamos logo à conclusão de que todas as alternativas são ruins sob as condições presentes. Se vivemos com ou sem um homem, comunitariamente, ou em casais ou sozinhas, se somos casadas ou não, se vivemos com outras mulheres, se optamos pelo amor livre, pelo celibato ou lesbianismo, ou qualquer combinação, somente há coisas boas e más sobre cada situação. Não há uma forma “mais liberada”, só há alternativas ruins.

Isto faz parte de uma das mais importantes teorias que estamos começando a articular. Nós a chamamos de “linha pró-mulher”. O que ela diz, basicamente, é que mulheres são pessoas. As coisas ruins que dizem sobre nós como mulheres são ou mitos (mulheres são tolas), táticas que mulheres usam para lutar individualmente (mulheres são cadelas), ou são na verdade coisas que queremos carregar para a nova sociedade e queremos que os homens compartilhem também (mulheres são sensíveis, emocionais). Mulheres enquanto classe oprimida agem por necessidade (agem de forma estúpida perante os homens), não por escolha. As mulheres desenvolveram técnicas diversas para a sua própria sobrevivência (parecer bonita e rir para pegar ou manter um emprego, ou um homem) que deveriam ser utilizadas quando necessário até o momento em que o poder de unidade possa tomar seu lugar. Mulheres são espertas por não lutarem sozinhas (assim como o são negros e trabalhadores). Não é pior estar em casa do que estar na correria interminável do mundo do trabalho. Ambos são ruins. Nós mulheres, assim como os negros, trabalhadores, devemos parar de nos culpar por nossos fracassos.

Levamos dez meses para chegarmos ao ponto de podermos articular essas questões e relacioná-las com as vidas de cada mulher. É importante do ponto de vista de que tipo de ação vamos fazer. Quando nosso grupo começou, passando pela opinião da maioria, nós teríamos ido às ruas nos manifestar contra o casamento, contra ter filhos, pelo amor livre, contra mulheres usarem maquiagem, contra serem donas-de-casa, pela igualdade sem o reconhecimento de diferenças biológicas, e sabe deus o que mais. Agora nós vemos todas essas coisas como o que chamamos de soluções pessoais. Muitas das ações tomadas pelos grupos de “ação” têm sido ao longo dessas linhas. As mulheres que fizeram aquela coisa anti-mulher no concurso Miss América foram aquelas que gritaram por ação sem teoria. As integrantes de um grupo querem estabelecer uma creche privada sem qualquer análise real do que poderia ser feito para melhorar a situação para as garotinhas, e muito menos qualquer análise de como essa creche aceleraria a revolução.

MISS AMERICA 09 07 196803
Isto não quer dizer, claro, que não devamos tomar ações. Deve haver boas razões pelas quais as mulheres no grupo não querem fazer nada no momento. Um motivo que eu consigo penar é que isso é tão importante para mim que eu quero ter certeza de que estamos fazendo da melhor maneira que conhecemos, e que esta é a ação “certa” da qual eu estou certa. Eu me recuso a sair e “produzir” para o movimento. Nós tivemos muito conflito no nosso grupo de Nova Iorque sobre fazer ou não a ação. Quando o protesto do Miss América foi proposto, não haviam dúvidas, nós queríamos fazê-lo. Eu penso que foi porque nós todas vimos como isso estava relacionado às nossas vidas. Nós sentimos que foi uma boa ação. Havia coisas erradas com a ação, mas a ideia básica estava lá.

Esta tem sido a minha experiência em grupos acusados de serem “terapia” ou “pessoais”. Talvez certos grupos estejam tentando fazer terapia. Talvez a resposta seja não suprimir o método de análise a partir de experiências pessoais em favor da ação imediata, mas descobrir o que pode ser feito para que isto funcione. Algumas de nós começamos a escrever uma vez um manual sobre isso e nunca passamos do sumário. Estamos trabalhando nisso de novo, e esperamos tê-lo publicado em um mês no máximo.

É verdade que todas nós precisamos aprender a melhor forma de tirar conclusões pelas experiências e sentimentos dos quais falamos e como estabelecer todos os tipos de conexões. Algumas de nós não têm feito um bom trabalho em comunicá-las às outras.

Uma coisa mais: Eu acho que devemos ouvir o que as supostas mulheres apolíticas têm a dizer – não para que possamos fazer um trabalho melhor organizando-as, mas porque juntas somos um movimento de massa. Eu acho que nós que trabalhamos tempo integral no movimento temos a tendência de nos tornarmos muito limitadas. O que está acontecendo agora é que quando mulheres de fora do movimento discordam de nós, nós presumimos que é porque elas são apolíticas, não porque pode ter algo de errado com o nosso pensamento. Mulheres têm deixado o movimento em massa. Os motivos óbvios é que estamos cansadas de sermos escravas sexuais e de fazer o trabalho sujo para os homens, cuja hipocrisia é tão evidente em sua postura política de libertação para toda as (outras) pessoas. Mas há muito mais coisa aí do que apenas isso. Eu não consigo articular isso ainda. Eu acho que mulheres “apolíticas” não estão no movimento por razões muito boas, e enquanto nós dissermos “você tem que pensar como nós e viver como nós para se juntar ao círculo encantado”, nós vamos falhar. O que estou tentando dizer é que existem coisas na consciência das mulheres “apolíticas” (eu as considero bastante políticas) que são tão válidas quanto qualquer consciência política que achamos que temos. Nós deveríamos compreender porque muitas mulheres não querem fazer ação. Talvez haja algo de errado com a ação ou com o porquê de estarmos fazendo ação ou talvez a análise de por que a ação é necessária não esteja suficientemente clara em nossas mentes.

Prostituição: Direitos das Mulheres ou Direitos SOBRE as Mulheres?

22-fev-15

Outubro de 2003
por Elaine Audet

Stella, um grupo de Montreal criado em 1995 que advoga para o direito das prostitutas, tem demandado que a prostituição seja completamente descriminalizada e que haja um reconhecimento das ‘trabalhadoras sexuais’. Essa posição não é aceita com unanimidade. De fato, para maior parte das feministas, prostituição é vista como uma conseqüência da exploração sexual de mulheres, sendo necessário que prostituição seja abolida e haja criminalização dos clientes e cafetões.

Neste necessariamente breve artigo, eu vou focar na prostituição de mulheres adultas, tocando apenas incidentemente a prostituição de homens e crianças e o tráfico internacional de mulheres.

Desde os 70,têm havido uma tendência em torno do reconhecimento do conceito de ‘trabalhadoras sexuais’ no Quebec, Europa e Estados Unidos. Vendo prostitutas como ‘trabalhadoras sexuais’ sugere que elas são meramente trabalhadoras providenciando um serviço ‘social’ e deveria ser dado, então, os mesmos direitos que outros trabalhadores explorados que são esmagados pelas forças da globalização, e tornados em objetos marketizáveis.

No Quebec, membros de Stella têm falado alto em favor da liberação da prostituição. Eles rejeitam a idéia de que prostitutas deveriam ser treinadas como vítimas e dizem que maior parte das prostitutas tiveram livremente escolhido esse papel, encontrando em seu trabalho uma fonte de empoderamento. Sem dúvida, prostitutas têm uma grande coragem. Testemunhas dessas mulheres, como aquelas nas memórias de prostituição de Jeanne Cordelier, iluminam isso: ‘Quando a porta do quarto bate, não há escapatória…Sem saída, sem saída de emergência.(1)’ Mas a despeito dessa coragem, e os clamores de Stella, não há espaço para ceticismo, especialmente quando o relatório de um estudo internacional mostra que 92% das prostitutas deixariam a prostituição se pudessesm(2).

Um deslize gradual em torno da desumanização

Em debates sobre prostituição, todas palavras são escolhidas, em particular os conceitos de direitos, escolha livre, trabalhadoras sexuais. Considerando o último citado, por exemplo, a ex-prostituta francesa, Agnes Laury, acredita que vendo essas mulheres como ‘mercadorias vendidas por homens a homens’ (3) estaria mais perto da realidade.

Nós vivemos numa sociedade consumista/de consumo onde a prioridade vai para o individualismo e para o consumo irrestrito de pessoas e coisas, e baseado no consumo um dos outros. Em tal contexto, ver prostitutas como trabalhadoras serve para encobrir a oposição feminista ao marketing de mulheres numa escala global. Isso permite os cafetões afirmarem que mulheres fazem isso por ‘escolha’, e mesmo por ‘gosto’, então escondendo o que todos estudos demonstram: que mulheres prostituem a si mesmas por necessidade.

Cultura Patriarcal reside no princípio de que o dever único, e fonte de poder, de mulheres é satisfazendo homens sexualmente em casamento e por prostituição. A existência de prostituição, e ver isso como ‘trabalho sexual’ esconde a extensão desta como escravidão sexual e reinforça a noção de que mulheres são meros objetos inter-cambiáveis que devem ser acessíveis e preparadas para todos homens a toda hora e todo lugar.

Os interesses em aposta.

Quando nós consideramos quem iria enlucrar da liberação da prostituição, se torna claro que NÃO seriam as prostitutas ou mulheres em geral. Ao invés disso, os beneficiários serão os cafetões, os traficantes, o crime organizado, clientes, e todos estes que vêem a sexualidade como nada além dum ato mecânico, deprivado de reciprocidade ou qualquer responsabilidade. Liberação não apenas beneficiará estes, qualquer que seja seu estatus social, que quiser ser apto a tomar poder sobre uma mulher.

É claro, é impossível falar sobre prostitutas como um todo; suas situações divergem consideravelmente de acordo com se elas são chamadas garotas, acompanhantes, dançarinas nuas, strippers, seja se trabalham nas ruas ou em salões de massagem; seja se são autônomas, ou precisam dar maior parte do dinheiro que ganham a um cafetão.

Garotas são frequentemente recrutadas para prostituição em torno dos 13 anos quando muitas foram feitas vulneráveis por violência, pobreza, desemprego, e drogas nos ambientes em que vivem. A maioria experimentou desnudamento forçado por cafetões e membros de gangues de rua que procuram despersonalizar uma mulher até que ela perca a habilidade de agir por sua própria iniciativa ou mesmo pensar por si mesma.

Muitas meninas tiveram passado tempo em abrigos, casas de reforma ou prisões, mais da metade têm adicção por drogas. Vivendo e experimentando tais circunstâncias, como pode alguém falar sobre a escolha livre de uma menona/mulher de ser prostituta?

Numa escala internacional, os rendimentos em prostituição estão em torno de $72 bilhões por ano, agora mais lucrativos do que tráfico de armas e drogas. Isso traduz-se em milhões de dólares no Canadá, onde um cafetão coleta em média $144,000 por ano de cada uma das prostitutas (4). Em torno de 5,000 a 10,000 pessoas em Montreal fazem sua vida no negócio da prostituição, muitas outras têm interesse na expansão de tal mercado lucrativo. E dadas as conexões, esses potenciais enlucradores da prostituição têm os recursos financeiros e midiáticos para desviar críticas legítimas da prostituição e para exagerar a importância da divisão dentro do movimento feminista por adotar a posição de uma minoria da ‘livre escolha’ que pretende falar por todas as prostitutas. Ao fazer isso, eles mais suportar a liberação para que retenham seu mesmo controle.

O corpo mercantilizado

O presente movimento de liberação da prostituição está enraizado no movimento geral para livre tráfico, troca comercial, e serve esta aproximação neoliberal por fabricar a prostituição como algo ‘bom’ para a economia. Deste modo, na mídia e no Reino Unido, há uma crescente tendência a apresentar a indústria de sexo como uma solução para os problemas econômicos ou, mais que isso, como um caminho ao desenvolvimento.

Considerando isso, é no interesse da Organização Mundial do Trabalho (OMT) baseado no Reino Unido que promoveu um relatório em 1998 que apoiava a legalização da prostituição porque: ‘A possibilidade de um reconhecimento oficial poderia ser extremamente útil para extender a rede de taxação (impostos) para encobrir mais das atividades lucrativas conectadas com isso. (5)’. Esta posição é clara sobre a admissão de que sexo é uma indústria e que isso pode contribuir diretamente e indiretamente, e em suas formas extendidas, para empregar, para rendimento nacional, e crescimento econômico.

Prostituição constitui uma das formas mais violentas de opressão coletiva sobre mulheres e, com pouquíssimas exceções, é sempre sobre controle coercitivo de cafetões (6). Então, como podemos invocar o uso livre do corpo próprio de alguém como um direito humano quando as condições nas quais prostituição é praticada são tais que explicitamente violam o respeito e a dignidade da pessoa reconhecida pela Convenção para a ‘Repressão do tráfico de seres humanos e a exploração de alguém na prostituição’, adotado em 2 de Dezembro de 1949 pelas Nações Unidas.

Muitas prostitutas, quebrando a genérica ‘Lei do Silêncio’ que as envolve, houveram falado sobre sua constante exposição a toda sorte de humilhações, agressão física e sexual, e assalto, assim como a ‘Roleta Russa’ de relações sem camisinha ou outras proteções. E mesmo se nem todos homens são violentos, aqueles que procuram sexo com prostituas necessariamente compram o poder para ser violento com impunidade. ‘Eu estava com medo, consciente de que a situação poderia se tornar incontrolável a qualquer momento’, diz a prostituta do Quebec (7). Mais ainda, ‘As garotas espancadas que não apresentam nenhum queixa está devolvendo a mensagem de que prostituição é um acordo empacotado…que alguém deve aceitar até mesmo o inaceitável (8).’ Para até quando vai o direito dos homens continuar a ser sistematicamente confuso com Direitos Humanos?

Muitos dos que argumentam pela liberação total da prostituição tentam descreditar feministas que são opostas a essa posição dizendo que em última instância são moralizante, seus discursos, portanto, vitimizantes e estigmatizantes das prostitutas. Todavia, neo-abolicionistas não são responsáveis pelas condições de trabalho das prostitutas ou pela hostilidade daqueles que vêem sua vizinhança transformada num mercado aberto de mulheres e drogas. Por que nós não temos sido aptas a extirpar as causas do problema, devemos legitimar suas conseqüências?

Trilhas para ação

Nenhum indivíduo pode ficar indiferente ao problema que, no fim, diz respeito e toca a nós todas. Está claro que qualquer que ele seja, a liberação da prostituição (e de cafetões e clientes) como demandado por Stella, não vai providenciar uma alternativa real para a crescente miséria de prostitutas e deve mesmo fazer as coisas somente piorarem ainda mais.

Similarmente, há o bloco da proposição quebeconiana para um retorno aos bordéis. Essa ‘solução’ tornaria o Estado no principal cafetão, um paralelo de como o Estado tem substituído a Máfia nos cassinos provincianos. O exemplo da Holanda mostra que leglização institucionaliza e legitima a ‘indústria’ do Sexo, deixa cafetões mascarados como chefes de trabalho e ‘homens de negócios’ legais, e racionaliza o marketing de prostitutas localmente e transnacionalmente.

A única esperança para melhoria da maior parte das prostitutas e acabar com o marketing de mulheres reside no exemplo providenciado pela Suécia que, em 1999, passou uma legislação que criminalizou cafetões e clientes, mas não as prostitutas. Essa política levou a uma redução pela metade no número de prostitutas, mesmo se isso não sucedeu-se completamente na erradicação da prostituição submundana. No entanto, o governo suíço continua a perserverar seus esforços por constantemente injetar novos fundos para programas de desintoxicação, reinserção de prostitutas, e educação dos clientes. Do interesse, e encorajador, é que o Lobby Europeu de Mulheres, compreendendo em torno de 3500 grupos, têm encorajado a adoção por outros governos de uma posição similar a da Suécia. (9).

No Quebec, há um consenso de que os governos de todos níveis deveriam parar de agir em torno das prostitutas como se elas fossem criminosas e, ao invés disso, dar a elas acesso a serviços de saúde, sociais, legais e de segurança que estão requerindo. Debates em torno de grupos no assunto da criminalização de clientes, cafetões estão já sendo submetido às leis canadenses, mesmo se estas tiveram até agora sido aplicadas apenas em formas realmente limitadas.

Em estabilizando polícia aqui, Quebec pode achar inspiração na experiência da Suécia e nas aproximações de cidades como Toronto e Vancouver onde há esforços de dar à prostitutas a ajuda e proteção de que precisam, colocar em questão os meios de resistência a cafetões e traficantes (geralmente os mesmos), e a dissuadir e sensibilizar clientes. A abolição da prostituição pode apenas ser uma estratégia objetiva a longo prazo, mas nós precisamos agora questionar todas relações sociais, econômicas e sexuais de dominação e tomar os passos imediatos para lutar contra pobreza e violência contra mulheres.

‘Para sair fora disso’, diz a ex-prostituta Agnes Laury, ‘Um precisa uma vontade inabalável de não voltar atrás no seu caminho, ser ajudada e no mais das vezes, romper totalmente com o habitat anterior’(10). De forma simples, para ‘sair fora disso’ é passar do estado de vítima para o de ‘sobrevivente’, de uma mulher que luta. É o tempo de todos nós quebrar o silêncio em torno da compra de serviços sexuais e perguntar se este não é na verdade o poder discricionário de homens à violência sexual que sublinha a prostituição, e não a escolha das mulheres.Analisando prostituição desta forma não é uma matéria de puritanismo, mas perguntar por questões éticas fundamentais sobre marketing de humanos. Ao invés de invocar uma ‘escolha livre’ de alguém vender o seu corpo [falsa questão] para justificar a prostituição, não poderíamos nós chamar pelo princípio humanitário, de um limite livremente aceito para o uso de humanos como mercadorias, como foi feito em face do escravismo, para abolir o marketing tanto da sexualidade quanto da reprodução?

Notas

1 Françoise Guénette, entrevue avec Gunilla Ekberg, « Le modèle
suédois », Gazette des femmes, mars-avril 2002, Vol. 23, no 6.
2 Jeanne Cordelier, La dérobade, Paris, Hachette, 1976.
3 Agnès Laury, Le cri du corps, Paris, Pauvert, 1981.
4 Conseil du statut de la femme, La prostitution : profession ou
exploitation ? Une réflexion à poursuivre, juin 2002. Gazette des
femmes . Ce document est disponible en version intégrale (pdf) ou en
version synthèse (pdf).
5 Lin Lean Lim, The Sex Sector : The Economic and Social Bases of
Prostitution in Southeast Asia, Genève, Organisation internationale
du travail (OIT), 1998.
Janice Raymond, Legitimating prostitution as sex work : UN Labor
Organization (ILO) calls for recognition of the sex industry, 1998
6 Delphine Saubaber, « Paroles d’anciennes », L’Express, 22.08.02.
7 La parole aux prostituées
8 Ibid.
9 Françoise Guénette, entrevue avec Gunilla Ekberg, « Le modèle
suédois », Gazette des femmes, mars-avril 2002, Vol. 23, no 6.
10 Les survivantes

Teoria Queer e Violência Contra a Mulher

22-fev-15

Por Sheila Jeffreys

Eu quero falar sobre como queer e teoria pós-moderna afetaram a habilidade de feministas e lésbicas de organizar-se contra, ou mesmo reconhecer violência contra mulheres. Na teoria queer e pos moderna, baseada no individualismo liberal, formas importantes de violência são renomeadas ´transgressão´, ´escolha´ ou ´agência´. Eu vou concentrar nas 3 formas de violencia aqui, a prostituição de homem abusando de mulheres, a violência de operações transexuais e a violência da industria da modificação corporal.

Meu ponto de partida é aquele velho mas pouco compreendido slogam feminista: ´Nosso corpo nós mesmas´. Em relação à violência, eu sugiro, isso tem dois importantes significados:

1/ A objetificação de mulheres no qual os corpos são tratados como objetos para outros usarem, à revelia de nossa vontade ou pessoalidade, como em estupro, abuso infantil, prostituição, são danosos para nós mesmas. O que é feito aos nossos corpos afeta a nós. Para sobreviver aos usos abusivos ou violentos de nossos corpos nós temos que aprender a dis-associar* para sobreviver. Em relação a prostituição o entendimento de ’nosso corpo, nós mesmas’ nos capacita reconhecer o mal da dis-associação que mulheres prostituídas tem de fazer uso de forma a sobreviver a violação de seus seres é constituiída pela violência sexual comercial.

2/ O slogam ’Nossos corpos, nós mesmas’ também significa que nossos corpos não são o problema. Esse foi o entendimento que deu base aos grupos nascentes de conscientização que capacitaram tantas mulheres a aceitar o formato de seus corpos e abrir mão de maquiagem e outros disfarces. Os problemas que mulheres e homens podem ter com as formas de seus corpos, configuração genital, são politicamente construídos em uma sociedade de supremacia masculina na qual mulheres, e alguns homens, são sexualmente e fisicamente violados por homens, na qual construções de gênero e de corpo perfeito são usadas para reinforçar controle social e a criação de uma dominação masculina e subordinação feminina. Descontentamento com nossos corpos que surge dessas condições políticas é um problema político, e a mutilação de corpos é uma ação que visa cortar fora os corpos para fazê-los caber dentro de um sistema político abusivo ao invés de procurar mudar o sistema para caber os corpos que de fato as pessoas têm.
Um valor básico feminista é a criação de uma sexualidade da igualdade na qual nós podemos permanecer em nossos corpos e celebrá-los como o são.
Em condições de opressão nenhuma dessas coisas é fácil. Nos anos 80 houve um backlash (reação) contra esses entendimentos fundamentais do feminismo. Feministas que trabalhavam em pornografia, em abuso sexual, em maquiagem, em sapatos de salto alto e outras belezas prejudiciais foram então tachados de: politicamente correto, puritanismo, anti-sexo.

As forças que alimentaram esse backlash:

1/ Liberalismo. O ponto de partida de feministas radicais que restringiram a compreensão de políticas para o mundo público, ganhou status nos 80 e 90. O ponto de vista de feministas liberais estadunidenses como Katie Roiphe e Naomi Wolf, e a jornalista britânica Natasha Walters, tão amada dos editores e da mídia, que mulheres são igualmente empoderadas o bastante para lidar com todos esses inconvenientes de suas vidas privadas, assédio sexual, estupros em namoros, espancamento, fazer todo trabalho de casa, de fato se torna exatamente como o liberalismo que dá suporte a políticas queer e pós-modernas.
Mulheres precisam ser ’power feminists’ [feministas empoderadas] diz Naomi Woolf. Nós estamos livres para usar maquiagem mas é supreendentemente certo de que são ainda mulheres que estão escolhendo essa forma de empoderamento. Aparentemente há um nível de campo lúdico mas homens não estão se aglomerando para retirar suas olheiras, usar batom, sapatos torturantes e saias curtas apertadas.
Práticas de violência são justificadas sob a rubrica do consenso. Sadomasoquismo, prostituição e cirurgia plástica não são compreendidas como práticas de opressão criadas através de relações de poder desiguais em supremacia masculina. Elas são portadas como invenções femininas para o prazer de mulheres ao invés de práticas tradicionais danosas.
A fetichização de consenso e escolha e seu set aplicado a estupro em namoros, é adotado de maneira ardente por pós-modernistas e teoristas queer que promovem sadomasoquismo e prostituição, transexualismo e body modification como o máximo em auto-realização e empoderamento.

2/ Pos-modernismo. Um set de idéias criado marjoritariamente por homens gays e em geral ininteligível. Homens intelectuais franceses vêm sendo adotados com aparente entusiasmo por muitas acadêmicas feministas e teóricos queer nos anos 80 e 90. Essas idéias foram sendo empregadas eu sugiro que seja porque algumas mulheres e homens gays queriam carreiras acadêmicas que são bastante difíceis de sustentar se você manter uma perspectiva feminista radical. Apenas as idéias de homens respeitados por outros homens farão você ir longe na acadêmia. Então feministas e homens gays vestiram as idéias do sadomasoquista Michel Foucault, por exemplo. Ele se tornou mais popular que Marx era nos 60 entre os trendies e progressistas. Em muitos departamentos como os de estudos culturais ele esteve e é compulsório.
O que essas idéias contribuiram para feminismo e o entendimento da violência? A idéia de que não há algo do tipo ’mulher’. Que isso é essencializante, e inaceitável é falar da experiência de mulheres ou opressão das mulheres porque mulheres são todos indivíduos completamente diferentes. Opressão adicional não existe porque poder apenas flui sem direção, apenas constantemente recriando a si mesmo nas interações de pessoas bem intencionadas, na comunicação. Não há algo como ’verdade’, o que convenientemente permite um relativismo moral no qual é bastante fora de moda protestar contra qualquer comportamento ou condição de opressão.
Essa é uma teoria espetacularmente inadequada para analisar violência e assim, graças a isso, não muitas feministas pós-modernas tentam fazê-lo. Elas estão mais interessadas em mídia, representações e fantasia, não em comportamento real ou circunstâncias materiais. Quando elas se aproximam de violência os resultados são bizarros. Sharon Marcus sobre estupro nos diz que estupro ocorre porque mulheres erraram no script. Se mulheres forem capazes de mudar o script então homens não as estuprariam. Isso desloca a culpa pelo estupro de volta às mulheres, algo que feministas tiveram sempre tentado mudar. Shannon Bell nos conta que não há ’significado inerente’ para prostituição. Se fosse o caso de que prostituição não possui significado em termos de relações de poder, então homens estariam se alinhando nas ruas para serem pegos em carros por mulheres que desejariam defender as coisas no seu âmago. É realmente difícil de sobrever assim as relações de poder na prostituição mas pós-modernistas podem fazê-lo.
Feministas pós-modernas nos dizem que o corpo é um texto. Não verdadeiramente real, mas um texto que pode ser rentavelmente reescrito. Então feministas pós-modernas são usadas pra justificar body modification. O ezine de body modification tem artigos justificatórios que citam teóricas ’feministas’ como Elizabeth Grosz e Judith Butler para legitimar as práticas anunciadas nos websites, tanto que página após página de propagandas de diferentes estúdios de piercing e cutting de todo o mundo ocidental com fotos de suas mercadorias. As fotos mostram partes na maior parte de corpos de mulheres lacerados, costas esfoladas abertas, músculos de carneiros com desenhos grandes e sangrentos neles cortados, estômagos simplesmente cortados sem qualquer desenho particular. As webpages muitas vezes portam bandeiras do arco-íris e o slogam ’assumida e orgulhosa’. Essas jovens lésbicas estão apenas reinscrevendo o que nós fomos orientadas.

3/ Teoria Queer. A teoria queer adapta as idéias dos pós-modernistas para os interesses de alguns homens gays. Elas são usadas para re-nomear formas variadas de violência como sadomasoquismo e transexualismo como ’transgressão’. Teoria queer é grande na importância da ’transgresssão’ das fronteiras corporais o que acaba por significar carregando formas de violência em cima disso. O entusiasmo com ’transgenerismo’ muitas vezes dito ser diferente de transexualismo também requer maior reformatação do corpo ofensivo com substâncias químicas se não cirurgia atual. Em teoria queer mulheres prostituídas são transformadas em uma minoria sexual, ou em um ’movimento de afirmação’ junto com outros praticantes ou vítimas de violência como sadomasoquistas, pedófilos, transexuais e vistos como rebeldes criando um novo futuro sexual. De fato, claro, mulheres prostituídas estão tendo que dis-associar para sobreviver, e não sendo liberadas sexualmente. Estão servindo à liberação sexual de seus colonizadores, os homens.
De fato as práticas de violência que são celebradas em teoria queer podem todas ser vistas como resultantes da opressão. Mas teoria queer, sendo baseada em individualismo liberal, não reconhece as políticas como sendo concernentes ao templo do privado. Sexo é privado e além das análises apesar de que as políticas queer demandam que homens gays sejam empoderados para clamar largas áreas do espaço público nas quais pratiquem seu sexo ’privado’. Essas áreas nas quais mulheres são feitas se sentirem desconfortáveis ou nas quais sejam feitas parecer muito perigosas para mulheres se aventurarem, por causa do delicioso senso de medo e apreensão que homens gays criam em campos de caçada por silenciar e rondar estão agora sendo oficialmente designadas como ’ambientes de sexo publico’ por exemplo nas políticas de HIV nas cidades escocesas. Logo homens gays apropriaram-se de largos pedaços de parques, fontes, ruas como sua possessão própria.
Políticas Queer nas formas de grupos como Sex Panic [Pânico Sexual] nos EUA e Outrage [Ultraje ou numa leitura dúbia, Raiva pra Fora] no Reino Unido, milita pelos direitos individuais de homens gays para injuriar outros em sadomasoquismo para seu entretenimento, a usar garotos em prostituição e pornografia, de adquirir espaço público para suas práticas. Um homem foi recentemente condenado por assassinato em Melbourne por enforcar outro homem na prática sadomasoquista de asfixiamento. Esse homem, proeminente em sadomasoquismo gay em Melbourne, um businessmen do sadomasoquismo associado com gerenciar clubes de SM para lucro, roubou os cartões de créditos do homem morto e seu carro e fugiu para o norte em Queensland. O bom é que ele pegou 5 anos de prisão. Minha perspectiva de todas essas práticas de violência sobre eles como sadomasoquismo, transexualismo e mutilação é que os perpretadores estão sempre errados. Não importa o quanto alguém peça para ser abusado é ainda assim errado complacer e é particularmente chocante fazer lucros em cima disso.
O que liberalismo e suas formas mais fashionáveis em pós-modernismo e teoria queer vem fazendo é desaparecer o opressor. Todas práticas de violência são vistas como ’escolhidas’ por agentes desejosos de, e visto também como politicamente progressivo e transgressivo.
Práticas Tradicionais Prejudiciais
Eu quero procurar com mais detalhismo de onde essas práticas de violência surgem e sugerir que elas de fato deveriam ser reconhecidas como práticas tradicionais prejudiciais. Em 1995 os Estados Unidos publicou indicadores de ’Praticas Tradicionais Prejudiciais e seus efeitos na saúde de mulheres e crianças’. As práticas descritas pelos indicadores sociais eram quase todas não-ocidentais. Elas incluíam mutilação genital feminina, casamento infantil, preferência do filho, alimentação forçada. A única prática listada que claramente dá cobertura também às culturas ocidentais é violência contra mulher e nessa prática está incluida prostituição.
Eu penso que é uma maneira bem útil de entender prostituição assim como as outras práticas de violência que eu venho discutindo aqui. Prostituição cabe muito bem dentro do critério de reconhecimento de uma prática tradicional prejudicial como definida pela UN.

1/ Prejudicial para a saúde de mulheres e crianças : Isso é certamente prejudicial para a saúde de mulheres e crianças pelo dano à auto-estima, tendências suicídas e auto-mutilação, doenças sexualmente transmissíveis e HIV, dano aos sistemas reprodutivos, gravidez indesejada, uso de drogas pra aguentar a violação e para prender mulheres e crianças à cafetçies e bordéis.
2/ Emerge da subordinação de mulheres : prostituição claramente surge da subordinação das mulheres. É uma prática na qual as vítimas são mulheres e crianças expostas e os perpretadores são quase totalmente homens através da história e culturas. Essa é uma prática que explora o despoderamento de mulheres e crianças, economicamente, fisicamente e em relação com dominação masculina adulta e a submissão de mulheres e crianças.
3/ Suportada pelo peso da tradição : prostituição é frequentemente descrita pelos apologistas como ’a profissão mais antiga’ o que, longe de ser uma justificação, de fato poderia ser vista como uma particular acusação das sociedades ocidentais presentes que aclamam a si mesmas progressivas e comprometidas com igualdade embora mantenham séculos de velhas formas de escravidão em relação a mulheres e crianças.
4/ Toma uma aura de moralidade : uma vez que é fácil ver em relação à tais práticas de mutilação genital feminina desde envolvimento de mulheres na prostituição tem tradicionalmente levado a punição e isolamento social, é possível ver prostituição ganhando uma aura de moralidade agora com sua legalização em muitos países incluindo Victoria na Austrália onde eu vivo. Quando o relatório ILO (1) do último ano em prostituição chamado ’O Setor Sexual’ chamou pelo reconhecimento da utilidade da prostituição para as economias da Ásia Sudeste então o status de prostituição como uma indústria se não de mulheres prostituídas por si mesmas, está mudando rapidamente. Certamente prostituição se não sempre vista como moral é vista como inevitável na maior parte dos países do mundo e isso mostra a natureza profundamente enraizada de sua aceitação, sua implantação nas culturas de dominância masculina.
5/ Escolhida e infligida sobre mulheres por si mesmas: apesar disso não estar no critério oferecido pela UN de práticas tradicionais prejudiciais Eu penso que é um elemento importante da maioria deles, excluindo reconhecida violência masculina como em estupro de crianças e violência doméstica. Em muitas das práticas nas quais mulheres e crianças do sexo feminino são preparadas para o casamento e escravidão sexual, mutilação genital feminina, alimentação forçada etc. mulheres são as torturadoras de outras jovens mulheres como Mary Daly apontou em sua análise dos sado-rituais que concordam muito bem com o que a UN agora chama de práticas tradicionais prejudiciais. Homens são removidos pra longe da paisagem e sua responsabilidade difícil de ser reconhecida. Em algumas práticas, como na queima de viúvas em Rajasthan, mulheres são vistas como abraçando a morte voluntariamente a morte na pira funerária de seus maridos. As culturas qme que essas práticas são tocadas criam pressões sociais tão forçosas que recusa parece impossível e ’escolha’ é inimaginável. Em culturas ocidentais mulheres são vistas como livremente escolhendo prostituição enquanto os abusadores masculinos são invisíveis. Isso pode quase ser visto como se mulheres fossem para dentro dos quartos e fizessem a prostituição toda por si mesmas. Os homens precisam permanecer invisíveis como se o mal social de seu comportamento de prostituição para com as mulheres que eles tem relacionamentos fosse pra ser escondido. Em Victoria agora nós estamos ouvindo mais e mais histórias de mulheres cujo casamento de 25 anos ou mais foi destruído pelo comportamento de prostituição de seu marido, comportamento que ele vê como justificável num estado no qual prostituição é uma empresa estatalmente licenciada, regulada e taxada que exibe suas mercadorias no centro de exibição do estado. A dor das mulheres na descoberta, repentina, de fotos de jovens moças nuas da mesma idade de suas filhas integradas com os feriados familiares estala e vai pensando na agonia de serem culpadas pelos parentes por não dar aele o bastante, perdendo a lealdade das crianças que tomam partido do pai abusivo. Tudo isso é o mal de uma escala massiva que está institucionalizada pela legalização da prostituição.
6/ Justificada com as ideologias dos homens : Mary Daly também, fala de como os sado-rituais são justificados e celebrados nas ideologias masculinas e nas academias. Isso é onde entra as ideologias que eu venho observando aqui, as ideologias que consentem com ou legitimam práticas de violência, liberalismo, pós-modernismo e teoria queer.
O ocidente tem uma cultura em que práticas de violência e opressão são escondidas, responsabilizadas nas vítimas pelas idéias de ’escolha’ liberal ou celebradas. Eu gostaria de acrescentar lésbicas e gays às constituições opressivas que são as vítimas das práticas prejudiciais tradicionais. O status oprimido de lésbicas ou homens gays, combinadas com a experiência de violência sexual de homens na infância, está construindo eles como constituintes das indústrias de transexualismo e modificação corporal na qual histórias dolorosas são literalmente cortadas dentro dos corpos das vítimas para enlucramento. Transexualismo tem uma longa história. Muitas culturas tem escolhido construir uma dominação masculina cuidadosamente regulamentada e uma subordinação feminina por convocar em uma terceira categoria aquelas crianças masculinas que não cabem nelas ou são desejadas por outros homens para uso em prostituição. Isso não é uma história ilustre mas uma história de opressão, a qual queremos pôr um fim.

Automutilação (cutting), piercing e tatuagem, infelizmente, não são apenas moda. Para muitas vítimas de violência sexual e opressão de lésbicas e gays cutting se tornou uma obcessão, uma forma de carregar pra fora deles com a égide da aceptabilidade a auto-mutilação que eles poderiam de outra forma performar com culpa em seus próprios quartos. Penectomias, a perfuração de gargantas, facas perfuradas estreitamente pelos corpos, tatuagens faciais, tem repercurssões. Elas são potencialmente fatais, afetam prospectivas de emprego, podem levar a perda de poder de fala, infecções por HIV e muitos outros riscos. Cortar-se leva a gente pra um caminho longe do insight original feminista de Nossos Corpos Nós Mesmas, que eles são bons e legais e não merecem violência, constrição, ser escondidos com maquiagem ou véus, lacerados com cirurgia plástica ou operações transexuais. As práticas de violência que eu tenho olhado aqui, prostituição, transexualismo, cutting, sugerem que a brutalidade da opressão da mulheres, crianças, lésbicas e homens gays nas culturas ocidentais nas quais os oprimidos tem que dis-associar ou irrelevar pra sobreviver. Mas esses liberais que querem-nos acreditando que nós vivemos no melhor de todos mundos possíveis, abençoado com uma posição num campo de jogos de iguais oportunidades, devem culpar essas práticas nas vítimas através das idéias de escolha, ou distorcer seus significados ou celebrá-las através das ideologias queer ou pós-modernas. No Canadá hoje, como na Austrália práticas tradicionais prejudiciais de violência estão vivas como nunca e a gente precisa estar habilitada pra identificar elas claramente e em opôr-se, sempre, a quaisquer tentativas de justificá-las ou de construir indústrias rentáveis em cima delas. Estúdios de auto-mutilação, bordéis, deveriam ser como impensáveis assim como a idéia de construir indústrias em cima de mutilação genital feminina (apesar de que,claro, revistas de modificação corporal usarem fotos de garotas e mulheres mutiladas para a satisfação pessoal dos homens).

Notas

(1) Lim, Lin Lean (ed), The Sex Sector : the Economic and Social Bases of Prostitution in Southeast Asia, International Labour Organization, Geneva, 1998.
Janice G. Raymond, Legitimating Prostitution as Sex Work : UN Labour Organization (ILO) Calls for Recognition of the Sex Industry Part One and Two, December 1998.

Referências
Mary Daly, Gyn/Ecolgy – The Metaethics of Radical Feminism Boston, Beacon Press, 1978, 1990.
Sheila Jeffreys, Unpacking queer Politics, Cambridge UK, Polity Press, 2003.
Sheila Jeffreys, The Lesbian Heresy, Melbourne, Spinifex Press, 1993.
Janice G. Raymond, The Transsexual Empire, New York, Teacher’s College Press, 1979, 1994
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Apresentado em Vancouver Rape Relief fundraising dinner, 24 Setembro de 1999.
© Sheila Jeffreys

* Disssociação ou Aprendendo a Disssociar: Muitos sobreviventes de trauma são familiares com dissociação. É uma habilidade primária usada para encobrir sentimentos. Algumas pessoas com repetidas experiências de eventos traumáticos particularmente na infância, aprender a dissociar bem cedo na vida. Dissociação significa escapismo mental e emocional quando fuga física não é possível Por exemplo, dissociação significa não permitir a situação dolorosa adentrar a consciência. Também pode significar bloquear seu impacto emocional por compartimentalizar o trauma. Isso permite aos sobreviventes desatachar-se do evento traumático, ajudando a desviar do seu impacto total. Se você dis-associar, você pode estar perdendo tempo, tempo que você não poderá contar ou tempo no qual você não estará certo de suas ações. Quando um evento é encobrido, ou quando esse evento é muito doloroso para tolerar, é natural e auto-protetivo aprender a dis-associar.[ Life After Trauma: A Workbook for Healing by Dena Rosenbloom, Mary Beth Williams

gênero

21-fev-15

“Gênero não é uma performance. Mulheres não são estupradas, espancadas, abusadas, molestadas e torturadas psicologicamente porque elas “performam” mulheridade. Essas coisas acontecem porque homens (não “aqueles que performam masculinidade”, a propósito, mas simplesmente homens) designam elas como aquelas-a-quem-é-ok-machucar. Para dizer que gênero é performance é essencial culpabilizar a vítima. Afinal, se uma pessoa escolhe seu gênero e existe em um estado generificado apenas através da performance, não é toda a violência de gênero algo que “se pediu”?”

(Jonah Mix)

“ser mulher significa ser membro duma classe, duma casta, ‘portar a estrela de davi’. Não é sensação nem sentimento nem performance nem decisão. É apartheid. É ser parte daquelas pessoas que como dito, foram designadas como estupráveis, e são mantidas nessa classe por meio disso, de estupro e pela força, pelo terror, para que não se sublevem. Identificar-se com uma classe seria o mesmo que dizer que proletariado e pobreza é uma performance e uma identificação e algo a ser celebrado. Não. Feminismo tá aqui porque as classes sexuais devem ser destruídas. Gênero é a divisão criada para determinar quais membros são de uma casta ou outra, a privilegiada e humana, e a desumanizada e violentada, apropriada. Gênero não é identidade. Não existe um “Ser mulher” imanente e transcendental, patriarcado é regime de escravidão, e determina que escravizadas e subordinadas cheguem a crer que nasceram e morrerão no “ser escravo”. Se alguém se identifica com o “Ser mulher” como algo inerente está se identificando com um “Ser escrava”, a feminilidade. E isso foi imposto pelo opressor. A gente se organiza como mulher para derrubar essa opressão. Mulher é nossa consciência de classe política. Agradeço a quem entender isso e não queira roubar nossos meios de luta nem desmantelar nossos espaços de auto-organização pra derrubar esse sistema.”

(…)

O Gênero é um sistema de apartheid. Não existem dois gêneros, mas apenas um: as mulheres. O homem é humano. A mulher é não-humana. O objetivo da luta feminista não é que haja mil gêneros, mas que se destrua o gênero. Não que hajam mais grilhões, mil grilhões, dentre os quais escolher com o qual me ‘identifico mais’, mas nenhuma corrente mais a nos prender. Terminar com esse sistema de apartheid que é o gênero, não reformá-lo, não ‘democratizá-lo’ e distribuí-lo: feminilidade para homens, masculinidades femininas… nenhuma dessas atribuições coercitivas. Nenhuma ilusão mais. O feminismo é a noção radical de que as mulheres são pessoas. A luta feminista é para que as mulheres sejam reconhecidas como pessoas, como são, sem mutilações, sem intervenções, sem maquiagens, saltos, bugigangas. O feminismo luta pela extinção do gênero, e para isso localiza o Patriarcado como o sistema a atacar e que produz a diferenciação politica de pessoas entre homens e mulheres, para determinar a escravidão do segundo grupo assim diferenciado e na verdade criado de fato por meio dessa diferenciação. No entanto utilizamos o fato de estarmos como grupo segregado e explorado para nos rebelar contra esse mesmo regime de opressão e destruí-lo, o que assim levará a extinção dos grupos produzidos por regimes de poder, e daí à extinção do gênero que nada mais são que classes sexuais.
Gênero é violência. Um sistema político de violência. Não identidade. Há que se destruir ele.

Gênero x Patriarcado – Heleieth Saffioti

21-fev-15
texto de Heleieth Saffiotti, que discute ambos conceitos e seus usos políticos.

O argumento final aqui desenvolvido em favor das idéias até agora
defendidas girará em torno da recusa do uso exclusivo do conceito de
gênero. Por que este conceito teve ampla, pro­funda e rápida
penetração não apenas no pensamento acadê­mico, mas também no das(os)
militantes feministas e, ainda, em organismos internacionais?
Efetivamente, o Banco Mun­dial só concede verbas a projetos que
apresentem recorte de gênero. Residiria a resposta tão-somente na
necessidade per­cebida de alterar as relações sociais desiguais entre
homens e mulheres? Mas o conceito de patriarcado já não revelava
este fenômeno, muito antes de o conceito de gênero ser cunhado? Não
estaria a rápida difusão deste conceito vinculada ao fato de ele ser
infinitamente mais palatável que o de patriarcado e, por
conseguinte, poder ser considerado neutro? Estas pergun­tas apontam
para uma resposta: o conceito de gênero, ao con­trário do que
afirmaram muitas(os), é mais ideológico do que o de patriarcado.
Neutro, não existe nada em sociedade.

Como não se é a favor de jogar fora o bebê com a água do banho,
defende-se:

1. a utilidade do conceito dE! gênero, mesmo porque ele é muito mais
amplo do que o de patriarcado, levando-se em con­ta os 250 mil anos,
no mínimo, da humanidade;

2. o uso simultâneo dos conceitos de gênero e de patriar­cado, já que
um é genérico e o outro específico dos últimos seis ou sete
milênios, o primeiro cobrindo toda a história e o segundo
qualificando o primeiro ou, por economia, simples­mente a expressão
patriarcado mitigado ou, ainda, meramen­te patriarcado;

3. a impossibilidade de aceitar, mantendo-se a coerência teórica, a
redutora substituição de um conceito por outro, o que tem ocorrido
nessa torrente bastante ideológica dos últi­mos dois decênios, quase
três.

Nem sequer abstratamente se pode conceber sociedades sem
representação do feminino e do masculino. Descobertas re­centes sobre
a capacidade de aprender dos animais indicam que se pode levantar a
hipótese de que os hominídeos já fos­sem capazes de criar cultura.
Não se precisa, no entanto, ir tão longe, podendo-se examinar,
embora ligeiramente, o processo de diferenciação que está na base da
terceira esfera ontológica: o ser social. A esfera ontológica
inorgânica constitui condição sine qua non do nascimento da vida.
Uma proteína, provavel­mente, deu origem à esfera ontológica
orgânica. Diferencia­ções nesta esfera geraram seres sexuados. O
sexo, desta for­ma, pertenceu, originariamente, apenas à esfera
ontológica orgânica. À medida que a vida orgânica ia se tornando
mais complexa, ia, simultaneamente, surgindo a cultura. Os
hominídeos desceram das árvores, houve mutações e a cultu­ra foi se
desenvolvendo. É pertinente supor-se que, desde o início deste
processo, foram sendo construí das representações do feminino e do
masculino. Constitui-se, assim, o gênero: a diferença sexual, antes
apenas existente na esfera ontológica orgânica, passa a ganhar um
significado, passa a constituir uma importante referência para a
articulação das relações de po­der. A vida da natureza (esferas
ontológicas inorgânica e orgâ­nica), que, no máximo, se reproduz, é
muito distinta do ser social, que cria sempre fenômenos novos.
A ontologia lukacsiana permite ver, com nitidez, que os se­res
humanos, não obstante terem construí do e continuarem a construir
uma esfera ontológica irredutível à natureza, conti­nuam a pertencer
a esta unidade, que inclui as três esferas ontológicas. Mais do que
isto, Lukács distingue dois tipos de posições teleológicas37: as
posições que incidem sobre a natu­reza,visando à satisfação das
necessidades, por exemplo, eco­nômicas; e as posições cujo alvo é a
consciência dos outros, na tentativa de modelar-Ihes a conduta. Está
aqui, sem dúvida, a “consciência dominada” das mulheres (Mathieu) e,
ao mesmo tempo, sua possibilidade de escapar de seu destino de
gênero, via transgressão, que permite a criação de novas matrizes de
gênero, cada uma lutando por destronar a matriz dominante de sua
posição hegemônica. Com efeito, para Lukács, não exis­te igualdade
entre as intenções de um agente social e seu resul­tado, exatamente
porque outros socii atuam obre o primeiro. Enfim, não há
coincidência exata entre a intenção e o resulta­do que produz, em
virtude da pluralidade de intenções/ações presentes no processo
interativo. Situado num terreno muito distinto do de Weber, o Lukács
da Ontologia enfatiza o fato de o resultado das intenções
individuais ultrapassá-Ias, inscre­ vendo-se na instância causal e
não teleológica, o que abre es­paço para as contingências do
cotidiano. O ser social, na inter­pretação que Tertulian (1996) faz
de Lukács, consiste numa interação de complexos heterogêneos,
permanentemente em movimento e devir, apresentando uma mescla de
continuida­de e descontinuidade, de forma a produzir sempre o novo
irreversível. É chegada a hora de alertar o leitor para a natu­reza
das categorias históricas gênero e patriarcado. Gênero constitui uma
categoria ontológica, enquanto o mesmo não ocorre com a categoria
ordem patriarcal de gênero. Ainda que muito rapidamente, pode-se
afirmar, com veemência, que é possível transformar o patriarcado em
muito menos tempo do que o que foi exigido para sua implantação e
consolidação. Lembra-se que este último processo durou 2.500 anos!
Quando a consciência humana se projetou sobre a natureza,
introduzindo a marca do nexo final nas cadeias causais objeti­vas,
teve origem o ato intencional, teleológico, finalista. Desta sorte,
a teleologia é uma categoria histórica e, portanto, irre­dutível à
natureza. Deste ângulo, o gênero inscreve-se no plano da história,
embora não possa jamais ser visto de forma definiti­vamente separada
do sexo, na medida em que também está ins­crito na natureza. Ambos
fazem parte desta totalidade aberta, que engloba natureza e ser
social. Corpo e psique, por conse­guinte, constituem uma unidade.
Como praticamente a totali­dade das teorias feministas não ultrapassa
a gnosiologia, a teo­ria do conhecimento, permanecendo no terreno das
categorias meramente lógicas ou epistemológicas, não dá conta da
riqueza e da diversidade do real. Revelam-se, por isso, incapazes de
jun­tar aquilo que o cartesianismo sistematizou como separado. O
gênero independe do sexo apenas no sentido de que não se apóia
necessariamente no sexo para proceder à formatação do agente social.
Há, no entanto, um vínculo orgânico entre gênero e sexo, ou seja, o
vínculo orgânico que torna as três esferas ontológicas uma só
unidade, ainda que cada uma delas não possa ser reduzi­da à outra.
Obviamente, o gênero não se reduz ao sexo, da mes­ma forma como é
impensável o sexo como fenômeno puramen­te biológico. Não seria o
gênero exatamente aquela dimensão da cultura por meio da qual o sexo
se expressa? Não é precisa­mente por meio do gênero que o sexo
aparece sempre vincula­do ao poder? O estupro não é um ato de poder,
independente­mente da idade e da beleza da mulher, não estando esta
livre de sofrê-Ia mesmo aos 98 anos de idade? Não são todos os abu­
sos sexuais atos de poder?
As evidências históricas, como já se mostrou, caminham no sentido da
existência de um poder compartilhado de: papéis sociais diferentes,
mas não desiguais. Ainda que isto cause en­gulhos nas(os) teóricas
(os) posicionadas(os) contra a diferença sexual, na gênese, ela teve
extrema importância. Esta, aliás, constitui uma das razões pelas
quais se impõe a abordagem ontológica. Ao longo do desenvolvimento
do ser social, as me­diações culturais foram crescendo e se
diferenciando, portanto deixando cada vez mais remota e menos
importante a diferença sexual.
Como, porém, o ser social não poderia existir sem as outras duas
esferas ontológicas, não se pode ignorá-Ias. Mais do que isto, o ser
humano consiste na unidade destas três esferas, donde não se poder
separar natureza de cultura, corpo de men­te, emoção de razão etc. É
por isso que o gênero, embora cons­truido socialmente, caminha junto
com o sexo. Isto não signifi­ca atentar somente para o contrato
heterossexual. O exercício da sexualidade é muito variado; isto,
contudo, não impede que continuem existindo imagens diferenciadas do
feminino e do masculino. O patriarcado refere-se a milênios da
história mais próxima, nos quais se implantou uma hierarquia entre
homens e mulheres, com primazia masculina. Tratar esta realidade em
termos exclusivamente do conceito de gênero distrai a aten­ção do
poder do patriarca, em especial como homem/marido, “neutralizando” a
exploração-dominação masculina. Neste sentido, e contrariamente ao
que afirma a maioria das( os) teórícas(os), o conceito de gênero
carrega uma dose apreciá­vel de ideologia. E qual é esta ideologia?
Exatamente a patriar­cal, forjada especialmente para dar cobertura a
uma estrutura de poder que situa as mulheres muito abaixo dos homens
em todas as áreas da convivência humana. É a esta estrutura de
poder, e não apenas à ideologia que a acoberta, que o conceito de
patriarcado diz respeito. Desta sorte, trata-se de conceito
crescentemente preciso, que prescinde das numerosas confu­sões de que
tem sido alvo.
Chegou-se a uma situação paradoxal: teóricas feministas ata­cando o
conceito de patriarcado e teóricos feministas advo­gando seu uso. A
titulo de ilustração, veja-se o que afirmam Johnson e Kurz. Para
Johnson, o patriarcado é paradoxal. O paradoxo começa na própria
existência do patriarcado, re­sultante de um pacto entre os homens e
a nutrição permanen­te da competição, da agressão e da opressão. A
dinâmica en­tre controle e medo rege o patriarcado. Embora sempre
referi­do às relações entre homens e mulheres, o patriarcado está
mais profundamente vinculado às relações entre os homens. Para Kurz
(2000), nem todas as sociedades são estruturadas em termos
patriarcais. A história registra sociedades iguali­tárias do ângulo
do gênero. Assim, “a desvalorização da mu­lher na modernidade deriva
das próprias relações sociais mo­dernas”. Da perspectiva aqui
assumida, o gênero é constitutivo das relações sociais, como afirma
Scott (1983, 1988), da mes­ma forma que a violência é constitutiva
das relações entre homens e mulheres, na fase histórica da ordem
patriarcal de gênero (SAFFIOTI, 2001), ainda em curso. Na ordem falo­
crática, o gênero, informado pelas desigualdades sociais, pela
hierarquização entre as duas categorias de sexo e até pela lógi­ca da
complementaridade (BADINTER, 1986), traz a violência em seu cerne.

“A popularidade do slogan e sua força para feministas emergem da
complexidade da posição das mulheres nas sociedades liberal-
patriarcais contemporâneas. O priva­do ou pessoal e o público ou
político são sustentados como separados e irrelevantes um em relação
ao outro; a expe­riência cotidiana das mulheres ainda confirma esta
se­paração e, simultaneamente, a nega e afirma a conexão integral
entre as duas esferas. A separação entre o pri­vado e o público é, ao
mesmo tempo, parte de nossas vi­das atuais e uma mistificação
ideológica da realidade liberal-patriarcal. A separação entre a vida
doméstica privada das mulheres e o mundo público dos homens tem sido
constitutiva do liberalismo patriarcal desde sua gênese e, desde
meados do século XIX, a esposa economi­camente dependente tem estado
presente como o ideal de todas as classes sociais da sociedade”
(PATEMAN, 1989, p. 131-2).
Como a teoria é muito importante para que se possa operar
transformações profundas na sociedade, constitui tarefa ur­gente que
as teóricas feministas se indaguem: a quem serve a teoria do gênero
utilizada em substituição à do patriarcado? A urgência desta
resposta pode ser aquilatada pela premência de situar
as mulheres em igualdade de condições com os ho­mens. É evidente que
esta luta não pode (nem deveria) ser levada a cabo exclusivamente
por mulheres. O concurso dos homens é fundamental, uma vez que se
trata de mudar a rela­ção entre homens e mulheres. Todavia, é a
categoria domina­da-explorada que conhece minuciosamente a engrenagem
pa­triarcal, no que ela tem de mais perverso. Tem, pois, obrigação de
liderar o processo de mudança. Recusando-se, no entanto, a enxergar
o patriarcado ou recusando-se a admiti-lo, a maio­ria das teóricas
feministas dá dois passos para trás:

1. não atacando o coração da engrenagem de exploração­dominação,
alimenta-a;

2. permite que pelo menos alguns homens encarnem a van­guarda do
processo de denúncia das iniqüidades perpetradas contra mulheres e
mostrem o essencial para a formulação de uma estratégia de luta mais
adequada.

Ainda que as teóricas feministas também desejem construir uma
sociedade igualitária do ângulo do gênero (será possível restringir
as transformações apenas a este domínio?), o re­sultado da interação
de todos esses agentes sociais será even­tualmente diverso de suas
intenções, lembrando Luckács. Énecessário precaver-se no sentido de
impedir que a resultan­te da ação coletiva fique aquém, ou muito
aquém, do fim pos­to. E a teoria desempenha papel fundamental neste
processo. Não se trata de abolir o uso do conceito de gênero, mas de
eliminar sua utilização exclusiva. Gênero é um conceito por demais
palatável, porque é excessivamente geral, a-históri­co, apolítico e
pretensamente neutro. Exatamente em fun­ção de sua generalidade
excessiva, apresenta grande grau de extensão, mas baixo nível de
compreensão. O patriarcado ou ordem patriarcal de gênero, ao
contrário, como vem ex­plícito em seu nome, só se aplica a uma fase
histórica, não tendo a pretensão da generalidade nem da
neutralidade, e deixando propositadamente explícito o vetor da
dominação­exploração. Perde-se em extensão, porém se ganha em com­
preensão. Entra-se, assim, no reino da História. Trata-se, pois, da
falocracia, do androcentrismo,da primazia mascu­ lina. É, por
conseguinte, um conceito de ordem política. E poderia ser de outra
ordem se o objetivo das( os) feministas consiste em transformar a
sociedade, eliminando as desi­gualdades, as injustiças, as
iniqüidades, e instaurando a igualdade? (SAFFIOTI,
1997a).
A ideologia constitui um relevante elemento de reifi­cação, de
alienação, de coisificação. Também constitui uma poderosa tecnologia
de gênero (LAURETIS, 1987), assim como “cinema, discursos
institucionais, epistemologias e práticas críticas” (p. IX), estas
últimas entendidas como as mais amplas práticas sociais e culturais.
A alienação, em sua acepção de cisão, é alimentada pelas tecnologias
de gênero, aí inclusas as ideologias. É muito útil a concepção de
sujeito, de Lauretis, pois ele é constituído em gênero, em raça/
etnia, em classe so­cial; não se trata de um sujeito unificado, mas
múltiplo; “não tão dividido quanto questionador” (p. 2). Importa
reter na memória que não apenas as ideologias atuam sobre os agentes
sociais subjugados, mas também outras múltiplas tecnologias sociais
de gênero, de raça/ etnia e de classe social. Não obstante a força e
a eficácia política de todas as tecnologias sociais, especialmente
as de gênero, e, em seu seio, das ideologias de gênero, a violência
ainda é necessária para manter o status quo. Isto não significa
adesão ao uso da violência, mas uma dolorosa constatação.

37 Teleológicas são as ações dos agentes sociais, isto é, têm uma
finali­dade, dirigem-se a um alvo. Embora as ações humanas sejam
teleológicas, a-História não o é. O erro de muitos, na interpretação
da obra de Marx, consiste em considerar teleológica a História,
quando Marx situou as ações humanas como tal. Que teleologia não
seja confundida com ontologia e nem esta com antologia, isto é, uma
coletânea de textos.

Fonte: Gênero, patriarcado e Violência —-Heleieth Saffioti

Declarando Independência da Revolução Sexual – Dana Densmore

21-fev-15

Ti Grace Atkinson, escritora feminista dos 70 que questionou a institucionalidade de determinadas práticas sexuais e escreveu folheto e artigo sobre o mito do orgasmo vaginal, à esquerda, com membras do ‘Feminists’ em demonstração frente à Licença de Casamento de Manhattam. ‘Sexo está super estimado’, ela diz. ‘Se um dia tivermos que escolher entre sexo e liberdade, não haveria dúvida, eu tomaria Liberdade’.

Independência da Revolução Sexual

Dana Densmore (Publicado em Radical Feminism, Anne Koedt, Ellen Levine, Anita Rapone, eds. Quadrangle, 1973)

Nós seres humanos não somos criaturas que surgem da terra, com nossa integridade completa e imutável, nosso poder de decisão livre e objetivo. Nós somos não somente influenciados pelo meio, somos condicionados e construídos por ele.

Desejos e até necessidades podem ser criados. Estamos todos acostumados com as técnicas engenhosas da Madison Avenue para gerar insegurança a fim de oferecer seu produto ou serviço como forma de sanar essa insegurança. As técnicas mais eficientes se concentram em nossos medos de não sermos aceitos socialmente, não sermos amados, não sermos sexualmente atraentes.

As sementes da insegurança já existem em uma sociedade cuja ideologia do individualismo isola as pessoas e coloca a culpa no indivíduo por toda inadequação e fracasso. Nós ouvimos constantemente as variações nesse tema. Elas são utilizadas para não admitir que algo poderia estar errado na forma que a nossa sociedade está construída. “Se você não consegue se adequar bem na vida, o problema é seu: talvez ajuda profissional seja necessária.” “Não tente mudar o mundo —é melhor libertar sua mente.”

E nós ouvimos isso como resposta à ameaça da libertação feminina: “Você deveria se sentir intimidada ao ser rebaixada pelos homens.”; “Deixe sua família se ela é tão opressora assim.”; “Se você não gosta de jeito que seu amante te trata, você pode sair da cama.”; “É sua própria culpa se você não consegue um bom trabalho —você se permitiu ser desencorajada, você escolheu os cursos mais fáceis e ‘femininos’ na faculdade.”

A suposição implícita em todos esses discursos é a da ideologia individualista de que se você é incapaz de fazer algo que é teoricamente possível (ou presumidamente possível em teoria) é devido a uma dificuldade pessoal e, consequentemente, sua reclamação não é válida. Isso isola as pessoas e tende a deixá-las inseguras. Frequentemente elas chegam ao ponto de desprezar a si próprias, porque enxergam em si mesmas tantas supostas fraquezas e problemas psicológicos que as impedem de serem felizes, bem-ajustadas e eficientes. Essa é uma característica de nossa sociedade que isola a todos nós, não apenas as mulheres. No entanto, mulheres, sendo as mais oprimidas, são mais forçadas a se culpar por sua impotência e portanto são as que mais se desprezam, as mais isolodas e que sentem mais medo e ansiedade de que ninguém as irá amar.

O próprio isolamento que a ideologia individualista impõe nos faz desejar ainda mais ser amadas e aceitas, e temer ainda mais não ser dignas de amor. Mas nós não conseguimos escapar do medo de não sermos amadas. “Quem que iria me querer?”, nós nos perguntamos; “Eu tenho todas essas nóias.” A solução oferecida a todas essas questões é geralmente a de se abrir até que você acabe se fundindo a outra pessoa de forma altruísta. Em muitos casos isso significa explicitamente sexo. Mas todas as soluções apontam para sexo de uma forma ou outra. Sexo torna-se mágico, ganha uma vida própria tornando qualquer coisa interessante, fazendo com que tudo valha a pena. É por isso que nós passamos horas provando micro-vestidos, nos enchendo de correntinhas, colocando lingeries de renda e aplicando maquiagem.

É nisso que muitas garotas que poderiam estar lutando pela libertação feminina estão empregando suas preciosas energias e buscando como uma parte indispensável de suas vidas. Elas gastam e dissipam seu tempo valioso, talentos e forças em tentativas de ser atraentes para os homens, e para resolver questões com seus amantes de forma que o “amor” seja menos degradante. E com muita frequência tudo que elas colhem é desmoralização, ego ferido, exaustão emocional.

Sob a bandeira de “não negar nossa sexualidade” e apontando para a repressão do passado, quando às mulheres foi negado o direito a qualquer prazer em seus corpos, muitas de nós agora adotamos a sexualidade e suas expressões sem nenhum critério. Como se o excesso no presente pudesse compensar a privação no passado. Como se mesmo a total satisfação sexual pudesse mudar alguma coisa. Exceto… é isso mesmo? —exceto o medo que sentimos sozinhas à noite, de que talvez sejamos mesmo as loucas neuróticas e sexualmente frustradas que nossos caluniadores nos acusam de ser. Será que estamos buscando satisfação sexual tão avidamente porque precisamos provar que nossas políticas não são simplesmente resultado da falta de uma boa trepada?

Daí tem a questão dos orgasmos. Dentre aquelas que nunca foram bem-ajustadas e mulheres o bastante para se induzirem a um orgasmo enquanto são vaginalmente estimuladas por um homem, há algumas que, ao descobrirem que sua vergonha e angústia não são algo raro mas extremamente comum e devido a fatores anatômicos, reagem a essa descoberta com o sentimento de que elas devem compensar exigindo toda a satisfação física que elas têm proporcionado aos homens todo esse tempo esquecendo delas próprias.

O que nós perdemos não foi apenas X oportunidades de prazer físico. O sofrimento que inúmeras mulheres suportaram porque lhes foi dito que se elas não tivessem orgasmos vaginais elas eram frígidas —que eram neuróticas, egoístas, não-femininas, sexualmente inadequadas, incapazes de relaxar e se doar e secretamente ressentiam do poder de seus maridos e os invejavam —esse sofrimento é imenso e desolador.

A liberação da igualdade sexual e o direito ao prazer sexual é a solução para o futuro. Mas há alguma solução para o passado? Seria uma solução sair por aí e colecionar orgasmos a fim de compensar por todos os anos de frustração e auto-depreciação? Eu penso que você não consegue compensar por todo aquele sofrimento, e certamente não através de uma mera sensação física. E quanto às recompensas psicológicas de finalmente obter o que me é devido, eu não consigo sentir nenhum triunfo nisso, especialmente quando eu ainda estou lutando contra velhos hábitos e antigas culpas que permanecem mesmo depois que o intelecto e a vontade tenham seguido em frente.

A pior parte é que mesmo com a perfeita satisfação sexual e prazer mútuo livre de culpa, nós ainda somos oprimidas. Afinal, algumas mulheres conseguiram ter orgasmos vaginais todo esse tempo, e elas ainda eram oprimidas; de fato, era assim que você deveria atingir o orgasmo — rendendo-se completamente à vontade do homem, amando ser uma mulher e tudo que isso implicava. Relações sexuais no mundo atual (e talvez em toda a história) são opressivas. O fato de seu amante lhe dar um orgasmo muda apenas uma pequena parte dessa opressão (mais precisamente aquela que dita que você deve se enxergar como uma criatura a qual somente é permitido o prazer silenciado, sensual, semi-masoquista de ser fodida e nunca o prazer ativo e transcendente do orgasmo).

Se essa fosse a única injustiça, ou mesmo a maior injustiça feita a nós, nós estaríamos muito bem, de fato. Na verdade, nós provavelmente seríamos capazes de suportar sem problemas, certamente sem toda essa angústia e auto-depreciação. É a opressão e degradação generalizadas que sofremos no mundo que faz com que sejamos humilhadas no ato sexual, como a Simone de Beauvoir aponta. Se não fosse pelo sentimento de inadequação e impotência que aprendemos em todos os outros aspectos de nossas vidas, nós chutaríamos nosso amante da cama se ele fosse arrogante, não atencioso ou rude.

Alguns homens lavam a louça toda noite. Isso não torna suas esposas livres. Pelo contrário, isso é apenas mais uma coisa pela qual ela deve ser grata a ele. Ele, no poder e glória de sua masculinidade, dignou-se a fazer algo para ela. Nunca significará mais que isso enquanto as dinâmicas básicas de poder não mudarem. Enquanto os homens constituírem a casta superior e mantiverem o poder político na relação de classe entre homens e mulheres, será um favor que o seu amante estará fazendo a você, não importa o quanto autoritariamente você o exija. E além dessas pequenas atitudes, nada mais precisa ser mudado.

Mas a questão não é apenas o orgasmo. Não nos era nem permitido envolver-nos em intercurso sexual sem perder a dignidade social e o respeito dos homens. Não nos era permitido amar, trepar, gostar de trepar, nem mesmo com nossos maridos. Ordenava-se aos maridos que amassem suas esposas, e às mulheres que obedecessem seus maridos. Era cruel e insuportavelmente hipócrita.

Mas independente do que nos foi negado no passado, não se pode dizer que o acesso ao prazer sexual nos é negado agora. Nosso “direito” a ter prazer com nossos corpos não nos foi somente concedido; é quase uma obrigação. De fato, as coisas foram invertidas ao ponto de que o “fato” (na verdade um artifício para confundir) de que nós não fazemos sexo é cochichado e usado pelos homens para desencorajar “suas” mulheres de se relacionarem conosco. Essa é uma mudança que me faz rir toda a vez que penso no assunto. O que a “Ask Beth” pensaria disso! Como os homens conseguem dizer isso com uma expressão séria? Eles devem realmente se sentir aterrorizados com a idéia de perder o poder para definir o que é apropriado para mulheres direitas. (Visto que esse poder é justamente o que estamos questionando.)

O direito que é um dever. Liberdade sexual que não inclui liberdade para recusar sexo, recusar ser definida a todo momento por sexo. Sexo se torna uma religião, existindo independentemente dos indivíduos que compartilham de sua consumação física particular. A mídia nos bombardeia com isso. Sexo está em todo lugar. Nos é forçado garganta abaixo. Ele é o grande procedimento padrão que nos mantém em nossos lugares. É o que torna interessantes nossas vidas miseráveis. Em todo lugar nós somos objetos sexuais, e nossa própria satisfação simplesmente aumenta nossa atraência. Nós somos sensuais. Nós usamos minissaias e blusas transparentes. Nós somos sexy. Nós somos livres. Nós andamos por aí e vamos pra cama quando bem entendemos. Essa é a auto-imagem que construímos em nós por toda a publicidade e a mídia. Ela é muito eficiente. E muito proveitosa. Ela nos mantém em nosso lugar e nos sentindo “felizes” (a liberdade para consumir, consumir, consumir, até que a gente engula o mundo). Nos faz parecer livres e ativas (ativamente, livremente, nós pedimos sexo aos homens).

E as pessoas parecem acreditar que a liberdade sexual (mesmo quando é apenas a liberdade de oferecer-se ativamente como um objeto concordante) é liberdade. Quando os homens nos dizem, “Mas vocês já não estão livres?”, o que eles querem dizer é, “Nós dissemos que tudo bem vocês nos deixarem fodê-las, que a culpa era neurótica, que castidade é perda de tempo; vocês já estão praticamente dando na rua, o que mais vocês querem ou podem aguentar?”. A suposição não-declarada por trás desse equívoco é que mulheres são seres puramente sexuais, corpos e sensualidade, máquinas de foder. Portanto liberdade para mulheres somente poderia significar liberdade sexual.

Liberdade espiritual, liberdade intelectual, liberdade de invasões de privacidade e insultos de estereótipos degradantes —essas são apropriadas apenas para homens, que se importam com elas e conseguem apreciá-las. A mulher, lembre-se disso, é um ser sexual, afável, emotivo, expressivo, altruísta, próximo à natureza, físico, aprisionado pela assustadora, repugnante, deliciosa, tão efêmera carne. Para tal criatura, atrever-se no território da transcendência é indignante, impensável, polui os reinos puros e elevados do arbítrio e espírito, onde ascendemos acima da carne.

Infelizmente, os oprimidos frequentemente adotam as psicoses da classe dominante, transformadas, por vezes, ao ponto que elas não mais parecem projeções perversas e intelectualmente disonestas mas uma aceitação razoável da realidade (e para os oprimidos, a realidade é de certo modo o que a classe dominante acredita). Então nós reconhecemos que possuimos algum intelecto, e talvez até o utilizemos abertamente com homens tolerantes ou sofisticados. Mas também reconhecemos que, uma vez que somos mulheres, nós somos afáveis, emotivas, expressivas, altruístas, próximas à natureza, por vezes regidas por nossa sensualidade, nossa profunda, inegável sexualidade.

Há recompensas nisso para nós. Ao nos perdermos em entrega sexual nós despertamos naquele homem poderoso, racional, rígido, sem emoções e analítico a necessidade desprezível, total, frenética da carne à qual ele gosta de se pensar superior. E não há dúvidas que para uma mulher o amor sexual contém como forte componente o desejo de tornar-se poderosa ao se unir com o poderoso. Ela vê a si própria como impotente e ineficiente, a ele como poderoso e competente. Ela anseia por aquela sensação de competência e a confiança que ele possui por saber que o “mundo é dele”. Na intimidade e êxtase do sexo ela espera perder a si mesma, fundir-se a ele de forma que tornem-se um só.

Crianças que ouvem repetidamente que são mentirosas ou ladras tornam-se mentirosas ou ladras. Pessoas que ouvem repetidamente que são loucas tornam-se loucas. Se você ouve repetidamente que você é um ser que possui necessidades sexuais profundas, é bem provável que você descubra que possui realmente. Particularmente quando outras formas de expressão são proibidas ou desencorajadas. Particularmente quando é enfatizado que aquelas que não possuem essas necessidades são frígidas, neuróticas, sexualmente desajustadas (o que para uma mulher significa essencialmente desajustada), secas, estéreis, dignas de pena.

Esse estereótipo também acaba se concretizando. Uma mulher que não sente prazer no sexo, por qualquer motivo (seu marido, talvez, lhe é repulsivo por sua atitude como amante ou por conta do desprezo que ele demonstra por ela fora da cama), pode se tornar amarga acreditando que lhe falta a sua satisfação feminina, o grande prazer avassalador que faria com que todos os sofrimentos de ser mulher valessem a pena. É inútil afirmar que não somos programados para desejar sexo, buscá-lo, necessitá-lo. Mesmo quando sabemos que algo é falso nosso condicionamento nos leva a continuar agindo de acordo. Nesse caso, é muito difícil até mesmo de separar o que é verdade do que é falso.

Uma mulher com quarenta e poucos anos me escreveu: “Agora eu percebo tudo sobre isso ser um instinto, mas eu acho que há algo a mais nessa história. Quando eu reflito sobre minhas experiências passadas, raramente consigo localizar uma vez em que fui compelida por uma necessidade interna. Eu não estou dizendo que se eu não trepasse por um longo período (o que nunca aconteceu comigo), eu não teria o instinto, mas estou dizendo que nós precisamos de alguma prova do quanto é necessário porque eu suspeito que até o mínimo é muito, muito inferior ao que é imaginado… Eu sei que me convenci a fazer sexo na maioria das vezes provavelmente buscando aquele ‘orgasmo arrebatador’, que talvez fosse uma mentira de qualquer forma. E se ninguém tivesse me apresentado aquelas palavras com as quais eu me convenci? Eu começo a desconfiar de tudo. Me lembra daquela frase do Notas Do Primeiro Ano: às vezes você prefere jogar ping-pong.”

Sem dúvidas há algumas vontades inatas, ou ao menos propensões. Mas uma propensão pode ser construída culturalmente de forma a se tornar uma obsessão ou culturalmente eliminada, às vezes simplesmente por não ser encorajada. Eu pessoalmente suspeito que alguma forma de desejo sexual pode ser inata. Seres humanos se reproduziam antes de possuírem uma organização social elaborada institucionalizando o intercurso sexual e antes dos anúncios coloridos de uma página inteira em revistas impelindo mulheres a “tornar-se algum corpo”. “Be Some Body”

E se de fato esse desejo não é tão forte assim, poderia ainda ser bom mantê-lo (encorajá-lo) se ele propicia às pessoas prazer físico ou prazeres de intimidade. Mas deve-se considerar que deve ser prazeroso a ambas as partes, sempre: o que significa que nunca deve ser institucionalizado por lei ou cultura. E se é um “instinto” básico sentido tanto por homens quanto mulheres, não há necessidade de institucionalizá-lo para garantir sua sobrevivência.

O que “enxergamos” quando olhamos para dentro pode corresponder muito pouco à realidade. Estamos saturadas por uma história em particular sobre o que há lá dentro. Além do mais, nós fomos saturadas por isso durante todas as nossas vidas, e isso nos condicionou e nos tornou o que somos. Nós sentimos que precisamos de sexo, mas a questão é muito confusa. O que é que precisamos realmente? São orgasmos? Intercurso? Intimidade com outro ser humano? Toques? Companheirismo? Bondade humana? E nós “precisamos” fisicamente ou psicologicamente?

O intercurso, no sentido do ato físico que é o objetivo final de tanta ansiedade, estratégias e desgaste, não é necessariamente o que nós estamos anseando, não mais do que, nos casos mais óbvios, é a publicidade de produtos para consumo que gera um anseio neurótico por aquilo. Fisicamente, há uma certa tensão objetiva e liberação, ao menos para o homem, quando a excitação leva ao orgasmo. Com uma mulher mesmo essa questão física é muito menos definida: a maioria das mulheres não tem orgasmos no intercurso, e muito poucas sempre os têm. Eu acho que todas concordaríamos que não é esse o objetivo ao irmos para a cama com um homem. De qualquer forma, um orgasmo para a mulher não é uma liberação no mesmo sentido que é para o homem, uma vez que somos capazes de atingir um número indefinido de orgasmos, permanecendo excitadas o tempo todo, limitadas somente pela exaustão. A liberação que sentimos, portanto, é psicológica. A tensão psicológica de conseguir esse homem, de possui-lo intimamente de uma determinada maneira, é liberada quando nós o “possuímos” através do orgasmo dele. Nós então sentimos o prazer da proximidade porque ele está mais aberto a nós (desde que ele esteja realmente aberto e não simplesmente vire para o lado e durma, ou se levante da cama para se ocupar com alguma outra coisa, sua atenção facilmente desviada agora).

Sem negar que sexo pode ser prazeroso, eu sugiro que o que realmente procuramos é proximidade, união, talvez algum tipo de abstração de si própria que dissolva o terrível isolamento do individualismo. O argumento do prazer não me impressiona muito. Muitas coisas são prazerosas sem que nós pensemos que não podemos viver sem elas, até mesmo num contexto revolucionário. Eu consigo pensar em certas comidas, certas músicas, certas drogas cujos prazeres físicos proporcionados podem ser equiparados até mesmo a sexo bom.

Além disso, a destruição do sentimento de isolamento através da comunicação, comunidade, bondade humana, e lutas em comum podem todas ser encontradas em outras mulheres à medida que se trabalha em conjunto na luta contra a opressão. Com outras mulheres vocês são mais do que amigas, vocês são irmãs. Seria um erro descartar rapidamente a força espiritual que pode ser obtida da irmandade, ou superestimar o abrigo nos braços de um homem, só porque este é, tradicionalmente, o único refúgio permitido à mulher.

O que eu quero sugerir não é que sexo é por natureza mau e destrutivo, mas que não é uma necessidade física absoluta: a suposição de que é uma necessidade física absoluta é que é ruim, e os padrões gerados por essa suposição é que são destrutivos. A maioria de nós reconhece que relações sexuais frequentemente se mostram ruins e destrutivas numa sociedade onde a desumanização, exploração e opressão das mulheres estão tão profundamente arraigados na cultura. O que nós buscamos é a exceção, o caso raro no qual temos, ou pensamos por um tempo que poderíamos ter, o cara certo e as circunstâncias certas.

Mas até mesmo no amor somos limitadas quando acreditamos que precisamos trepar para expressar amor. Nós somos programadas a pensar que não apenas sexo é o único modo de demonstrar ou provar nosso amor, mas que é o único (ou melhor) modo de expressá-lo. E nessa sociedade perigosa e alienante nós nos sentimos sempre muito ansiosas para demonstrar, provar, e expressar nosso amor, e a esperar que a afeição de nosso amante seja demonstrada, provada e expressada para nós. Para homens isso é duplamente tentador uma vez que sexo para eles é a única ou melhor maneira de provar ou expressar sua virilidade, tanto pela demonstração de potência sexual quanto pela imposição de sua vontade sobre uma mulher.

Considerando que isso é verdade, portanto, nós somos condicionados a essa forma de expressão e nos voltamos a ela sem pensar. Mas nós precisamos desenvolver novos meios não-sexuais de se relacionar com pessoas, com homens e mulheres. A obsessão pela sexualidade genitalizada, e trepar em particular, nos afasta de um mundo de possibilidades enriquecedoras. Nós pensamos que amor é amor sexual, amor sexual genitalizado. Portanto nós não podemos amar mulheres ou homens com os quais não estamos sexualmente envolvidos ou interessados. Afetuosidade também é relacionada com sexo genital e com exceção de crianças, animais e alguns parentes próximos, todo afeto físico deve se limitar ao parceiro sexual masculino. Até mesmo comunicação, contato humano e compreensão presumidamente apenas estão disponíveis na intimidade do contato sexual genital.

Todo desejo de amor, companheirismo, afeto físico, comunicação e bondade humana se traduz portanto como desejo por sexo. Isso é pateticamente restrito, incrivelmente limitante. Especialmente já que se pode questionar justificadamente se é ou não comum obter essa comunicação, essa bondade humana, esse companheirismo e afeto que buscamos. É o que queremos, ok, mas nós precisamos questionar, da mesma forma que questionamos o medicamento que promete bem aquilo que queremos: ele realmente faz isso? E se não, talvez seja na prática uma fraude.

De fato, como mulheres frequentemente observam, sexo pode ser uma forma rápida de estragar um bom relacionamento. Ou porque o homem simplesmente não consegue tratá-la de igual para igual quando ele está tão envolvido, ou porque ele não sabe como tratar a mulher com igualdade em um relacionamento sexual, ou porque ele estava secretamente ou inconscientemente somente atrás da conquista o tempo todo.

Outro problema é que homens têm uma visão diferente sobre amor e sexo que as mulheres e na maioria das vezes elas não sabem disso. Elas presumem que estão fazendo investimentos iguais ou similares. Estudos foram feitos sobre o que homens e mulheres pensam que é o amor, e o que o amor significa para eles. Afeto e companheirismo são os primeiros citados pelas mulheres, seguidos de segurança e outros elementos, e sexo aparece em oitavo lugar. Homens invertem essa ordem ao colocar sexo em primeiro lugar. Companheirismo e afeto são objetivos secundários para os homens. Essa orientação da parte deles, juntamente com as atitudes culturais (e medos) que os homens apresentam em relação às mulheres, fazem com que a relação de amor sexual seja um local inadequado para uma mulher buscar comunicação e entendimento humano.

No entanto, contanto que sejamos capazes de fazer demandas claras em um relacionamento, insistindo que o homem cumpra certos requisitos ou então não ficaremos com ele, muito obrigada, nós poderemos sobreviver sem grandes sofrimentos. Os requisitos podem ser: (1) Ele está sexualmente interessado em mim, e não interessado em sexo com a pessoa que estiver disponível no momento. (2) Ele não é desinteressado em relação a mim além do sexo, ele é sensível, leal, talvez até me ame. (3) Ele me respeita como pessoa, está disposto a conversar comigo, não me intimida, não passa sermão ou menospreza minha opinião e projetos.

É quando não estamos livres ou não nos sentimos livres para fazer essas demandas mínimas num relacionamento que problemas surgem. E não estamos livres quando estamos presas pelo falso condicionamento que decreta que precisamos de sexo. Não estamos livres se acreditamos nos avisos culturais ameaçadores de que ficaremos com “tesão” e frustradas e neuróticas e finalmente iremos secar como ameixas e teremos de abandonar qualquer esperança de sermos boas, criativas e eficientes. Nós não estamos livres se acreditamos que, como animais não-racionais, somos regidas por algo que não é apenas insintivo mas irracionalmente, irremediavelmente inevitável. Se acreditamos em tudo isso, então, devido à raridade de relacionamentos bons, saudáveis e construtivos entre homens e mulheres no mundo atual, nós seremos forçadas a aceitar, até mesmo buscar relacionamentos ruins e destrutivos nos quais somos usadas, nos quais aceitamos humilhação pelo privilégio de “usá-lo”.

Se fosse verdade que precisamos de sexo com homens, isso seria um grande infortúnio, que poderia praticamente condenar nossa luta. Felizmente, não é verdade. Quando buscamos sexo, é por uma escolha consciente e inteligente. Nós desejamos experimentar, através de intimidade, bondade humana, comunicação, fusão “de volta ao útero” e abstração, e sinceridade quase infantil. Nós fazemos sexo porque pensamos ser a coisa certa. Nós podemos estar erradas. Talvez pensemos que é a coisa certa porque acreditamos que nos tornaremos vacas neuróticas caso contrário. Mas não o fazemos porque somos seres sexuais que não podem “negar sua sexualidade”. De acordo com esse argumento, ter sentimentos sexuais, ou uma energia que poderia ser rapidamente convertida em energia sexual e no entanto optar por não manter intercurso sexual e empregar essa energia em outra atividade que parece ter, no momento, mais prioridade, é “negar” nossa sexualidade.

Isso é o que homens têm imposto a nós todo esse tempo. (Eles não aplicam a mesma lógica a eles mesmos.) Porque eles se relacionam conosco de forma sexual, eles concluem que somos seres sexuais. Se nós nos manifestamos de outra forma, então, algo está seriamente fora do lugar uma vez que estamos “negando” que somos primariamente seres sexuais. Mas, de fato, somente se formos seres meramente sexuais, exclusivamente sexuais, que optar por empregar nossa energia em outra atividade indicaria qualquer tipo de negação. (O grande cientista ou artista ou escritor que usa toda a sua energia no seu trabalho não está negando nada —isso seria insultá-lo; ele simplesmente percebe que o dia é curto e por enquanto seu trabalho é mais importante para ele.)

Pessoalmente, eu reconheço que tenho sentimentos sexuais. Sua natureza e origem exatas estão abertas a debate, mas eu não tenho dúvidas de que exista uma realidade física objetiva pelo menos até um certo ponto. No entanto, somente eu irei decidir qual importância esses sentimentos têm em minha vida como ser humano. Nós não vivemos em uma sociedade ideal, e ideias ou estilos de vida “pós-revolucionários” podem muito bem retardar a revolução ou torná-la impossível. O fato de que, em uma boa sociedade, mulheres podem querer produzir crianças, ao menos até o aperfeiçoamento do útero artificial, não significa que eu deva ter filhos agora nas atuais condições. De forma parecida, a crença de que sexo teria um espaço em uma boa sociedade não significa necessariamente que devemos fazê-lo agora. A decisão deve estar baseada nas condições objetivas do presente.

Permita-me dizer algo sobre as condições objetivas do presente. Nós somos pessoas deficientes vivendo num mundo ruim e destrutivo. Nós temos muito mais a fazer além do mero ato de viver. Há muito trabalho que precisa ser feito, e não, de forma alguma, somente o trabalho de libertar pessoas e promover uma revolução. Há o trabalho de nos reconstruirmos, aprender a nos conhecermos e reconhecermos nossos potenciais, aprender a nos respeitar e respeitar outras mulheres e trabalhar em conjunto. Nós devemos superar todos os padrões auto-destrutivos que aprendemos por toda uma existência feminina.

Esse trabalho de recuperar a nós mesmas e promover uma revolução nas mentes de outras mulheres a fim de libertar todas nós é o trabalho mais importante. Se um relacionamento ou encontro sexual em particular é conveniente, apropriado e prazeroso, se não é degradante ou possessivo ou desgastante de alguma forma, você poderá decidir pela escolha de investir parte de seu tempo precioso nisso.

Mas lembre-se do quanto precioso é o seu tempo, sua energia e seu ego, e respeite-se o bastante para insistir que as recompensas correspondam ao investimento.

retirado de feminist-reprise.
tradução I.M.

Audre Lorde, “Os usos da raiva: Mulheres respondendo ao racismo.

21-fev-15

(1981) Audre Lorde, “Os usos da raiva: Mulheres respondendo ao racismo”

 

Em junho de 1981, Audre Lorde fez a apresentação principal na conferência da Associação Nacional de Estudos de Mulheres, em Storrs, Connecticut. A sua apresentação aparece abaixo.

Racismo. A crença na superioridade inerente de uma raça sobre todas as outras e, portanto, o direito de dominação, manifesto e implícito.

 

As mulheres respondem ao racismo. Minha resposta ao racismo é raiva. Eu vivi boa parte da minha vida com essa raiva, ignorando-a, me alimentando dela, aprendendo a usar antes que jogasse minhas visões no lixo. Uma vez fiz isso em silêncio, com medo do peso. Meu medo da raiva não me ensinou nada. O seu medo dessa raiva também não vai te ensinar nada.

Mulheres respondendo ao racismo significa mulheres respondendo a raiva; raiva da exclusão, dos privilégios não questionados, das distorções raciais, do silêncio, do maltrato, esteriotipização, defensividade, má nomeação, traição, e captação.

Minha raiva é uma resposta às atitudes racistas e às ações e presunção que surgem dessas atitudes. Se você lidar com outras mulheres reflete essas atitudes, então minha raiva e seus medos são focos que podem ser usados para crescimento, da mesma forma em que eu usei aprender a lidar com a raiva para o meu crescimento. Mas para controle de danos, não para culpa. Culpa e defensividade são tijolos numa parede contra a qual todas nós batemos; ela não serve a nenhum de nossos futuros.

Como eu não quero que isso se torne uma discussão teórica, eu vou dar alguns exemplos de trocas entre mulheres que ilustram esses pontos. Por falta de tempo, eu vou encurtá-las. Quero que saibam que houve muitas outras.

Por exemplo:

– eu falo sobre raiva direta e particular em uma conferência acadêmica, e uma mulher branca diz, “diga-me como você se sente, mas não fale de forma muito hostil ou eu não consigo te escutar”. Mas é a minha forma de falar que a impede de ouvir, ou a ameaça de uma mensagem que possa fazer com que a vida dela mude?

– o Programa de Estudos de Mulheres de universidade do Sul convida uma mulher Negra para ler seguindo um fórum de uma semana sobre mulheres brancas e Negras. “O que essa semana te deu?” eu pergunto. A mulher branca mais “vocal” diz, “eu acho que me deu muito. Eu sinto que as mulheres Negras me entendem muito melhor agora; elas têm uma ideia mais clara de onde eu venho”. Como se entendêssemos a participação dela no problema do racismo.

– depois de 15 anos de movimento de mulheres que professam se dirigir aos problemas de vida e possíveis futuros de todas as mulheres, eu escuto, campus depois de campus, “como podemos dirigir problemas de racismo? Nenhuma mulher de Cor apareceu”. Ou, do outro lado dessa fala, “não temos ninguém no nosso departamento preparada para ensinar o trabalho delas”. Em outras palavras, racismo é problema das mulheres Negras, e somente nós podemos discutir isso.

– depois de ler o meu trabalho intitulado “poemas para mulheres com raiva”, uma mulher branca me pergunta: “você vai fazer alguma coisa em relação a como vamos lidar diretamente com a nossa raiva? Eu acho isso tão importante.”. Eu pergunto, “como você usa sua raiva?”. E então eu tenho que me distanciar da brancura do olhar dela, antes que ela me convide para participar de sua aniquilação. Eu não existo para sentir a raiva dela por ela.

– mulheres brancas estão começando a examinar as suas relações com mulheres Negras, ainda assim, eu costumo ouvi-las querendo lidar apenas com pequenas crianças de cor pelas ruas da infância, a adorável babá, a colega de classe ocasional da segunda série – aquelas memórias ternas do que um dia foi misterioso e intrigante ou neutro. Você evita as suposições formadas pela risada estridente do Stymi e Alfafa, a mensagem aguda do lenço da sua mãe no banco do parque porque eu tinha acabado de me sentar ali, os retratos desumanizadores e que não podem ser apagados do Amo ‘n Andy e as histórias cheias de humor que seu pai contava na hora de dormir.

– eu estava com a minha filha de dois anos no carrinho de compras pelo supermercado em Eastchester, em 1967, e uma garotinha passando no carrinho ao lado grita excitada, “Olha, Mamãe, uma empregada bebê!”. E sua mãe de silencia, mas não te corrige. Mas eu escuto que sua está cheia de terror e doença.

– uma acadêmica branca recebe o aparecimento de uma de mulheres não-Negras de Cor. “Isso me permite lidar com o racismo sem ter que lidar com a dureza das mulheres Negras”, ela diz para mim.

– num encontro cultural internacional de mulheres, uma poeta americana branca bem conhecida interrompe a leitura do trabalho de uma mulher de Cor para ler o seu próprio poema, e depois desaparece para um “evento importante”.

Se mulheres acadêmicas realmente querem um diálogo sobre racismo, será necessário que se reconheça as necessidades e os contextos de vida de outras mulheres. Quando uma mulher acadêmica diz, “Eu não posso pagar por isso”, ela quer dizer que ela está fazendo uma escolha sobre como gastar o dinheiro disponível dela. Mas quando uma mulher que sobrevive de suporte social diz, “eu não posso pagar por isso”, ela quer dizer que ela está sobrevivendo com uma quantia de dinheiro que mal era suficiente em 1972, e ela frequentemente fica sem dinheiro suficiente para comer. Ainda assim, a Associação Nacional de Estudos de Mulheres, aqui em 1981, promove uma conferência na qual se compromete a responder ao racismo, ainda assim recusa a retirar a taxa de inscrição para mulheres pobres e de Cor que queriam estar presentes e conduzir workshops. Isso fez com que fosse impossível para diversas mulheres de Cor estarem aqui e participarem dessa conferência – por exemplo, Wilmette Brown, da Black Women for Wages for Housework. Isso era para ser mais um caso da academia discutindo a vida dentro dos circuitos fechados da academia?

Para as mulheres brancas que reconhecem essas atitudes como familiares, mas principalmente, para todas as minhas irmãs de Cor que viveram e sobreviveram a milhares desses encontros – para as minhas irmãs de Cor que gostam de mim e tremem sua raiva sob as rédeas, ou para quem as vezes questiona a expressão da nossa raiva como inútil e despreocupada (as acusações mais populares) – eu quero falar sobre raiva, minha raiva, e o que eu aprendi com as minhas viagens pelos domínios dela.

Tudo pode ser usado / exceto o que pode ser jogado fora / (você vai precisar / se lembrar disto quando for acusada de destruição’).

Toda mulher tem um arsenal bem guardado de raiva potencialmente útil contra aquelas opressões, pessoal e institucional, que fez com que aquela raiva existisse. Focadas com precisão elas podem se tornam poderosas fontes de energia servindo o progresso e mudança. E quando eu falo de mudança, eu não quero dizer a simples mudança de posições ou uma diminuição temporária das tensões, ou a habilidade de sorrir e se sentir bem. Eu estou falando da alteração básica e radical dessas presunções que sublinham as nossas vidas.

Eu já vi situações onde mulheres brancas escutam uma chamada de atenção racista, ressentindo o que foi dito, e se enchendo de fúria, e se mantém em silêncio porque elas têm medo. Aquela raiva não expressada fica dentro delas como bombas não detonadas, normalmente para ser jogada a primeira mulher de Cor que falar sobre racismo.

Mas raiva expressa e traduzida em ação a serviço da nossa visão e do nosso futuro é um ato de iluminação[1]da libertação e empoderamento, porque é no processo doloroso desta tradução que identificamos quem são os nossos aliados com quem nós temos sérias diferenças e são nossos inimigos genuínos.

 

Raiva é cheia de informação e energia. Quando eu falo de mulheres de Cor, eu não falo apenas de mulheres Negras. As mulheres de Cor que não são Negras que me acusa de torná-la invisível por assumir que as lutar dela contra o racismo são idênticas às minhas tem algo para me dizer e é melhor que eu aprenda com isso, que nós duas nos desgastamos lutando com as verdades entre nós. Se eu participo, voluntariamente ou não, da opressão da minha irmã e ela me chama a atenção sobre isso, responder à raiva dela com a minha apenas esvazia a substância do nosso intercâmbio  partilha com reação reatividade. Isso gasta energia. E, sim, é muito difícil ficar quieta ainda e escutar a voz de outra mulher delinear uma agonia da qual eu não partilho, ou uma da qual eu contribui.

Neste lugar, nós falamos retiradas dos lembretes mais desagradáveis de nossa posição defensiva enquanto mulheres. Isso não precisa nos cegar ao tamanho e complexidade das forças montando contra nós e tudo aquilo que é mais humano dentro do nosso ambiente. Nós não estamos aqui enquanto mulheres analisando racismo em um vácuo político e social. Nós operamos nos dentes de um sistema onde o racismo e o sexismo são primários, estabelecidos e propriedades necessárias de lucro. Mulheres respondendo ao racismo é um tópico tão perigoso que quando a mídia local tenta desacreditar a conferência, ela escolhe focar no fornecimento de abrigo para lésbicas como um artefato de  mudança de foco – como se o Hartford Courant não ousasse mencionar o tópico escolhido para discussão aqui, racismo, que fez com que fosse aparente que mulheres estão, de fato, tentando examinar e alterar todas as condições repressivas das nossas vidas.

A mídia cotidiana não quer mulheres, principalmente as brancas, respondendo ao racismo. Ela quer que o racismo seja aceito como imutável, dado a situação da nossa existência, como o resfriado noturno comum.

Então estamos trabalhando em um contexto de oposição e ameaça, a causa que certamente não é a raiva que está entre nós, mas sim aquele ódio virulento e gigantesco contra todas as mulheres, pessoas de Cor, lésbicas e homens gays, pessoas pobres – contra todos nós que estamos buscando examinar os detalhes de nossas vidas enquanto resistimos às opressões, seguindo em direção a colisão e ação efetiva.

Qualquer discussão entre mulheres sobre racismo deve incluir o reconhecimento e o uso da nossa raiva. Está discussão deve ser direcionada e criativa porque é crucial. Não podemos permitir que nosso medo de raiva nos deflete ou nos seduza a nada menos que o trabalho dura de escavar honestidade; nós temos que ser bem sérias sobre o ódio deles por nós e sobre o que estamos tentando fazer aqui.

E enquanto nós examinamos a face normalmente dolorosa da raiva umas das outras, por favor, lembre-se que não é a nossa raiva que faz com que tenhamos o cuidado de trancar as nossas portas à noite ou a não vagar pelas ruas de Hartford sozinhas. É o ódio deles que nos espia naquelas ruas, a urgência de nos destruir se nós trabalharmos de verdade por mudanças em vez de satisfazer a retórica acadêmica.

Este ódio e nossa raiva são diferentes. O ódio é a fúria daqueles que não partilham de nossos objetivos, e os quais tem como objetivo a morte a destruição. Raiva é um luta de distorções entre pares, e o seu objetivo é a mudança. Mas nosso tempo tem se encurtado. Nós fomos criadas para ver qualquer diferença além do sexo como motivo para a destruição, e para mulheres Negras e mulheres brancas enfrentarem a raiva umas das outras sem negação, imobilidade, silêncio ou culpa é, em si mesma, uma ideia geradora e herética. Isso implica em pares se conhecendo em cima de uma base em comum para examinar diferença, e em alterar aquelas distorções que a história criou ao redor da diferença. Porque são essas distorções que nos distanciam. E nós precisamos nos perguntar: quem lucra com tudo isso?

Mulheres de Cor na américa cresceram dentro de uma sinfonia de raiva por serem silenciadas, não escolhidas, por saberem que quando sobrevivemos é apesar de um mundo que não valoriza a nossa falta de humanidade, e que odeia a nossa simples existência fora do seu serviço. E eu digo sinfonia no lugar de cacofonia porque nós tivemos que aprender a orquestrar aquelas fúrias para que elas não nos destruíssem. Nós tivemos que aprender a nos mover entre ela e a usá-la como força e poder e ideias dentro das nossas vidas cotidianas. Aquelas de nós que não aprenderam isso, não sobreviveram. E parte da minha raiva é sempre uma queda pelas minhas irmãs que caíram.

Raiva é uma reação apropriada para atitudes racistas, como é a fúria quando as ações que surgem daquelas atitudes não mudam. Para aquelas mulheres aqui que temem mais a raiva de mulheres de Cor do que as atitudes racistas não analisadas, eu pergunto: a raiva das mulheres de Cor é mais ameaçadora do que o ódio às mulheres que impacta todos os aspectos das nossas vidas?

Não é a raiva de outras mulheres que vai nos destruir, mas a recusa a ficar calada, escutar o ritmo, aprender dentro dele, a se mover para além da forma de apresentação do conteúdo, a fazer com que aquela raiva seja uma importante força de empoderamento.

Eu não posso esconder a minha raiva para tratar gentilmente a sua culpa, ou não machucar seus sentimentos, ou não responder à raiva; porque fazê-lo insulta e banaliza todos os nossos esforços. Culpa não é uma resposta à raiva; é uma resposta à ação ou falta de ação de alguém. Se leva à mudança, então pode ser útil, já que não é mais culpa e sim começo de conhecimento. Ainda assim, muito frequentemente, culpa é apenas mais uma resposta para impotência, para defensividade destrutiva de comunição; se torna uma ferramenta para proteger a ignorância e a continuação das coisas como são, a mais nova proteção da falta de mudança.

A maior parte das mulheres não desenvolveu ferramentas para encarar a raiva de maneira construtiva. Grupos de promoção de consciência no passado, majoritariamente branca, lidaram com como expressar a raiva, normalmente em um mundo de homens. E esses grupos eram feitos de mulheres brancas que partilhavam os termos de suas opressões. Havia pouca tentativa de articular diferenças genuínas entre mulheres, como aquelas de raça, cor, idade, classe e identidade sexual. Não havia necessidade aparente naquele tempo de examinar as contradições do “eu”, mulher como opressora. Havia trabalho em expressar raiva, mas muito pouco sobre raiva vinda de uma mulher e direcionada a outra mulher. Nenhuma ferramenta foi desenvolvida para lidar com a raiva de outras mulheres, a não ser  evitar, recuar ou se esconder debaixo de um cobertor de culpa.

Eu não tenho nenhuma utilidade para a culpa, a sua ou minha. Culpa é apenas mais uma forma de evitar ação informada, de comprar tempo da necessidade de fazer escolhas limpas, fugir da tempestade que se aproxima e que pode alimentar a terra ou quebrar árvores. Se eu falo com raiva com você, pelo menos eu falei com você: eu não coloquei uma arma na sua cabeça e atirei no meio da rua; eu não olhei pro corpo ensanguentado da sua irmã e perguntei “o que ela fez para merecer isto?”, essa foi a reação de dois homens brancos a Mary Church terrel contando a história do linchamento da uma mulher Negra grávida que depois teve seu bebê tirado dela. Aquilo foi em 1921, e Alice Paul tinha acabado de recusar endossar o processo de inclusão da 19º Ementa para todas as mulheres – por recusar a inclusão de mulheres de Cor, ainda que nós tenhamos trabalhado para ajudar a criar aquela Ementa.

A raiva entre mulheres não vai nos matar se nós pudermos articulá-la com precisão, se nós escutarmos o conteúdo que é dito com pelo menos a mesma intensidade com que nos defendemos da forma como é dito. Quando nos viramos para a raiva, nos viramos para as novas ideias, dizendo que apenas aceitaremos os modelos já conhecidos, mortal e seguramente familiares. Eu tentei aprender a utilidade da minha raiva para mim, assim como as limitações.

Para as mulheres criadas para temer, muito frequentemente a raiva ameaça aniquilação. Na construção masculina de força bruta, nós fomos ensinadas que nossas vidas dependiam da boa vontade do poder patriarcal. A raiva dos outros deveria ser evitada a todo custo porque não havia nada que pudesse ser aprendido dela, a não ser dor, um julgamento de que tínhamos sido meninas más, não fizemos o que deveríamos ter feito. E aceitarmos nossa falta de poder, aí sim então qualquer raiva pode nos destruir.

Mas a força das mulheres está em reconhecer as diferenças entre nós como criativas, e a se posicionar diante das distorções que agregamos sem culpa, mas que agora são nossas para serem alteradas. As raivas das mulheres podem transformas a diferenças por meio de novas ideias e em poder. Porque a raiva entre pares faz nascer mudança, não destruição, e o desconforto e sensação de perda que normalmente causa não é fatal, mas um sinal de crescimento.

Minha resposta ao racismo é raiva. Aquela raiva que comeu espaços dentro da minha vida apenas quando permaneceu não dita, inútil a qualquer pessoa. Também me serviu em salas de aula de luz ou sem aprendizado, onde o trabalho e história de mulheres Negras eram menos que vapor. A raiva me serviu como um fogo numa zona de gelo de olhos incompreensíveis de mulheres negras que veem na minha experiência e na experiência do meu povo apenas novas razões para medo e culpa. E minha raiva não é desculpa para você não lidar com a sua cegueira, não é motivo para se retirar dos resultados de suas próprias ações.

Quando mulheres de Cor falam sobre a raiva que intercala tantos de nossos contatos com mulheres brancas, frequentemente nos é dito que estamos “criando um clima de desesperança”, “impedindo que mulheres brancas superem a culpa” ou “ficando no caminho de comunicação e ação confiável”. Todas estas citações vêm diretamente de cartas a mim de membros desta organização dentro dos últimos dois anos. Uma mulher escreveu, “porque você é Negra e Lésbica, você parece querer falar com moral e autoridade sobre sofrimento”. Sim, eu sou Negra e Lésbica, e o que você escuta na minha voz é fúria e não sofrimento. Raiva e não autoridade moral. Há uma diferença.

Fugir da raiva de mulheres Negras com a desculpa ou o pretexto de intimidação é premiar ninguém com poder nenhum – é apenas outra forma de preservar a cegueira racial, o poder dos privilégios não mencionados, não violados, intactos. Culpa é apenas mais uma forma de objetificação. É sempre pedido que pessoas oprimidas alonguem um pouco mais, para preencher o espaço entre cegueira e humanidade. É sempre esperado de mulheres Negras que elas usem sua raiva apenas em serviço do resgate ou aprendizado de outras pessoas. Mas aquele tempo acabou. Minha raiva já significou dor para mim, mas também já significou sobrevivência, e portanto eu desisto que eu vá conseguir ter certeza de que alguma coisa seja tão poderosa quanto para substituir o caminho da claridade.

Que mulher aqui está tão enamorada de sua opressão que ela não consegue se controlar para não pisar com o salto na cara de outra mulher? Que termos da opressão das mulheres se tornaram tão preciosos e necessários para ela como um bilhete na pasta de certeza moral, longe dos ventos frios da auto-avaliação?

Eu sou uma mulher lésbica de Cor, cujas crianças comem regularmente porque eu trabalho em uma universidade. Se as barrigas cheias das minhas crianças faz com que eu falhe em reconhecer a minha semelhança com as mulheres de Cor cujas crianças não comem porque ela não encontra emprego, ou com as mulheres que não têm filhos porque o seu útero está apodrecido dos abortos clandestinos e esterilizações; se eu falho em reconhecer a lésbica que escolhe não ter filhos, a mulher que permanece no armário porque a comunidade homofóbica onde ela vive é seu único suporte de vida, a mulher que escolhe o silêncio no lugar de mais uma morte, a mulher que morre de medo que a minha raiva acione a explosão dela; se eu falho em reconhecê-las enquanto outras faces de mim, então eu estou não apenas contribuindo com a opressão delas, mas com a minha própria opressão, e a raiva que permanece entre nós deve então ser usada para esclarecimento e empoderamento mútuo, não para evasão por culpa ou futura separação. Eu não sou livre enquanto outras mulheres são prisioneiras, mesmo quando as amarras delas são diferentes das minhas. E eu não sou livre enquanto outra pessoa de Cor permanece acorrentada. Nem nenhuma de vocês é.

Eu falo aqui como uma mulher de Cor que não quer destruição, mas sobrevivência. Nenhuma mulher é responsável por alterar a psique de seu opressor, mesmo quando aquela psique está encorpada em outra mulher. Eu cuidei dos lábios de raiva dos lobos e eu os usei para iluminação, risada, proteção, fogo em lugares onde não havia luz, comida irmãs ou dinheiro. Nós não somos deusas ou matriarcas ou edifícios de perdão divino; nós não somos dedos caracterizados de julgamento ou flagelação; nós somos mulheres sempre forçadas a recuar do nosso poder de mulher. Nós aprendemos a lidar com a raiva como aprendemos a usar a carne morte dos animais, e machucadas, com marcas, batidas e mudadas, nós sobrevivemos e crescemos e, nas palavras de Angela Wilson, nós estamos mudando. Com ou sem mulheres sem cor. Nós usamos sejam quais forem as forças pelas quais lutamos, incluindo a raiva, para ajudar a definir e criar um mundo onde todas as nossas irmãs possam crescer, onde nossas crianças possam amar, e onde o poder de tocar e encontrar as diferenças de outras mulheres e suas maravilhas vai eventualmente transcender a necessidade de destruição.

Pois não é a raiva de mulheres Negras que está escorrendo sobre este mundo como um líquido doente. Não é a minha raiva que lança foguetes, gasta mais de sessenta mil dólares por segundo em mísseis e outros agentes de guerra e morte, mata crianças nas cidades, estoca gás de nervos e bombas químicas, sodomiza nossas filhas e nossa terra. Não é a raiva de mulheres Negras que corrói em poder cego e desumanizador, curvado sobre a aniquilação de todas nós, se não o encontramos com o que temos, o nosso poder de examinar e redefinir os termos sob os quais vamos viver e trabalhar; nosso poder de prever e de reconstruir, a raiva pela raiva dolorosa, pedra sobre pedra pesada, um futuro de polinização da diferença e a terra para apoiar as nossas escolhas.

Nós acolhemos todas as mulheres que podem nos encontrar, frente a frente, para além da objetificação e para além da culpa.

 

Sources: Audre, Lorde, Sister Outsider: Essays & Speeches by Audre Lorde (Berkeley: Crossing Press, 2007), 124-133.

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[1] O termo usado pela autora foi ‘clarification’, que poderia ser traduzido como ‘clarificação’, porém como o movimento negro feminista brasileiro ensinou que não devemos reproduzir o racismo de palavras como ‘esclarescer’ ou ‘ficar claro’, modificamos para algo que parecia também representar melhor a tradução.