Skip to content

Ódio Antigo e Sua Manifestação Contemporânea: A Tortura de Lésbicas

13-jan-15

Susan Hawthorne, Ph.D.
Universidade de Victoria
hawthorne@netspace.net.au

RESUMO
Essa nota visa um número de diferentes elementos que fazem a experiência de tortura de
lésbicas no mundo contemporâneo. Eu tracei elementos da cultura popular junto com
testemunhos de lésbicas, relativos à tortura em diversos países, e também citando fontes
históricas. Eu examino as justificações e desculpas dadas pela tortura, incluindo a visão
de que estupro é uma parte normal da atividade heterossexual. Eu argumento que a
dominação é exemplificada na punição de lésbicas como profanas na cultura patriarcal,
particularmente quando grupos e nações vão à guerra, eu também viso o modo que tais
argumentos pela legalização da tortura compartilham similaridades com argumentos a
favor da prostituição, pornografia, e BDSM [Bondage, Disciplina, Dominação,
Submissão, Sadismo e Masoquismo] consentido. Eu desafio os defensores destas ações
e argumento que tal defesa é um caso de negligência moral. Eu concluo com a
controvérsia de que as lésbicas se libertarem da tortura e violência pode ser um
indicador da sanidade social de uma sociedade.
Essa nota é dedicada às incontáveis – e não contadas – lésbicas que continuam a ser
torturadas ao redor do mundo. {1}
As lésbicas não são a prioridade política de qualquer organização de formulação de
políticas bem financiadas {2}. Além disso, elas tendem a ser invisíveis tanto nas
políticas governamentais quanto nas agendas de organizações por justiça social. Quando
se trata de campanhas sobre violência contra a mulher, lésbicas são deixadas para trás
tanto quando incluídas apenas em uma nota de rodapé ou de passagem nos termos de
orientação sexual ou relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo ou minorias
sexuais {3}. Nenhuma dessas especifica as lésbicas. Em campanhas ou pesquisas
documentais nestes grupos, lésbicas são mais uma vez referidas em muito menos
detalhes, isso se forem incluídas. Porque lésbicas estão ”desaparecidas,” na terminologia
convencional, e porque ninguém quer fazer as lésbicas centro de qualquer campanha,
lésbicas continuam a ser torturadas ao redor do mundo. A tortura de lésbicas ocorre
dentro de qualquer tipo de regime político, e o então chamado mundo desenvolvido não
está imune. Mas quem se importa? É, como Monique Wittig argumentou, essas
”lésbicas não são mulheres” (Wittig 1992, 20), {4} ou, como o discurso popular sugere,
essas homossexuais não são lésbicas? {5}
1. O PARADOXO DAS LÉSBICAS DENTRO DO PATRIARCADO
… nenhuma sessão de treinamento me preparou para esta dor intensa… minha dor… a
dor que eu não escolhi… toda esta alienação, esse vácuo vazio…, meu corpo, minha
mente, minha dor… isto não está acontecendo… Eu sou uma pequena partícula no
universo… que universo?… o mundo não é mais… eu estou… desintegrando… pedacinho por pedacinho… grito por grito… elétrodo por elétrodo… A dor… toda essa dor aqui e
ali, abaixo em minha vagina… a agonia… onde estou? Onde está meu eu? (RiveraFuentes
e Birke 2001, 655; itálicos e elipses no original {6})
”Jogo de Rap,” Eminem
Quando eu vejo essa pequena (apagada) lésbica se rebaixando
Apague as luzes, vadia, adios, boa noite (sopre)
Agora coloque isso em sua pequena traqueia e deslize,
Pense por um minuto porque o moderno morreu,
Que eu não subo no escritório oval agora mesmo,
E sacudo qualquer coisa que não está amarrada de cabeça para baixo,
Eu sou totalmente pela América, foda-se o governo,
Diga esse fundilhos de leis, diga isso para chupar um pau
Ele está andando outra vez. Longos passos vagarosos. Ele brinca comigo. Oferece
remover o capuz. Diz que eu serei capaz de respirar mais facilmente. Eu quero isso, mas
eu não quero ele perto. Eu não quero concordar com coisa alguma. Ele faz uma pausa na
minha cabeça. Respira. Dá um passo. Pausa. Respira. Dá um passo. E outro até os lentos
passos tomarem um ritmo percuciente próprio. Ele para e outro alguém se move
rapidamente do outro lado da sala em minha direção. A corda que amarra a toca
afrouxa. Eu posso sentir o ar fresco correndo. Com o ar luz. Luz artificial. Eu relaxo.
Abaixo a guarda. Então eu sou chocada com algo forçado à minha boca. Duro. Metal.
Eu sufoco e vômito sai da minha garganta. Eu luto e me debato. Isso para. Eu luto para
respirar através do vômito. Eles me rolam para todos os lados. Não podem ter você
morrendo quando a diversão está apenas começando, vem uma voz aveludada. Ele se
volta e anda lentamente. A porta se fecha e eu estou tentando sentir se sobrou alguém no
quarto. Está quieto. Muito quieto. Eu não posso mover minhas mãos, então balanço
minha cabeça. Sinto o vômito nas minhas bochechas. Sinto asco contra a arma em
minha boca. E a excitação dele pelo meu medo. O prazer dele pelo poder. O poder
simbólico de uma arma rígida. (Hawthorne 2004d, 43)
Um modo de manter o bondage erótico é perguntar a si mesmo a questão ”Por que essa
pessoa está sendo amarrada?”. É porque você quer deixá-la sem reação à tortura?
Deixando seu sexo completamente acessível… como uma viagem de dor, ou como uma
privação sensorial? (Califia 1988, 55)
Consuelo Rivera-Fuentes foi torturada no Chile durante os anos 70. A questão que ela
levanta – Onde está meu eu – é central para as explorações deste artigo. Onde está meu
eu lésbico? Que tipo de eu lésbico está refletido nas palavras de Eminem? {7} Que tipo
de eu lésbico é negado pelo torturador em The First Songmanuscript [O Primeiro
Manuscrito da Canção]? Que tipo de eu lésbico é retratado por Pat (atualmente Patrick)
Califia em seu Manual Seguro de S/M Lésbico? Outras questões são onde está a
centralidade das experiências de lésbicas registrada e reconhecida? Onde está o
reconhecimento de que a violação de lésbicas acontece dia após dia e ninguém fala
disso? Nos últimos trinta anos, estudiosas feministas trouxeram à luz muitos aspectos da
violência contra a mulher. Mas quando eu começo a dar seguimento sobre a tortura de
lésbicas, sou confrontada por uma escassez severa de pesquisas e um excesso de
invisibilidade. {8}O outro lado da moeda é a erotização da tortura como outra qualquer excitação sexual.
Nós – pesquisadores – não notamos que ”lésbicas + tortura” digitado em uma pesquisa na
internet traz uma enorme quantidade de material pornográfico, mais do que material que
lida com a violência e tortura da lésbicas? Está o sadomasoquismo criando aceitação da
tortura política? É a pornografia usada para gerar e intensificar a violência contra
lésbicas?
Além disso, como vamos lidar com o problema da necessidade das pesquisadoras de ler
as entrelinhas dos relatos de tortura para encontrar os dados brutos referentes à tortura
de lésbicas? Quem pode se permitir denunciar sua própria tortura quando o ódio às
lésbicas persiste mesmo nas sociedades relativamente não conservadoras? Por detrás
dessas questões está outra: Por que essas lésbicas são tão raramente mencionadas na
literatura sobre tortura?
Um dos elementos definidores da existência lésbica no patriarcado é sua vulnerabilidade
às demandas de sigilo, silêncio e não existência. Como outros grupos marginalizados e
oprimidos, lésbicas são frequentemente presas em uma ”cultura de silêncio” (Freire
1972, 48). Mas as lésbicas continuam grandemente não reconhecidas quando se trata de
sofrer o trauma do desaparecimento e negação, negação do governo quanto ao uso, por
parte deles, da tortura. {9} No patriarcado a existência lésbica é negada, ou ilegal.
Lésbicas que foram torturadas sofrem múltiplas camadas de silenciamento e negação.
Lésbicas aparecem quando a atmosfera política está aberta, e desaparecem de novo
durante tempos de repressão ou backlash [repercussão].
Como o povo indígena que teve a cultura negada, e que através de longo ativismo
político construiu sustentação social dos mitos e orgulho na comunidade deles, ativistas
lésbicas feministas, desde o fim dos anos 60, vêm se engajando em um processo similar.
Mas eu continuo escutando as pessoas dizerem que não há cultura lésbica. [10] Como a
existência negra no Apartheid, a existência lésbica dentro do território inimigo é uma
afronta à ideologia da hipermasculinidade. Quando a conformidade se torna a norma,
quando o poder masculino é arraigado, e quando o governo sanciona abusos dos direitos
humanos ou usa da tortura, lésbicas estão entre as vítimas.
Para repetir minha questão, por que essas lésbicas são raramente mencionadas na
literatura sobre tortura? Uma pista está na afirmação seguinte de uma lésbica peruana:
Quando eu falo do meu direito a minha própria cultura e linguagem como uma mulher
indígena, todo mundo concorda com minha autodeterminação. Mas quando eu falo de
minha outra identidade, minha identidade lésbica, meu direito a amar, de determinar
minha própria sexualidade, ninguém quer ouvir. (ILIS Newsletter 1994,13)
É essa distância do suporte político dos outros, que se julgam eles mesmos progressivos,
uma característica da existência lésbica. Lésbicas se uniram a outros grupos para apoiar
e lutar por direitos políticos e sociais, mas frequentemente quando lésbicas pedem apoio
à própria causa delas, a falta de resposta indica que ”apenas outras lésbicas têm orgulho
das lésbicas” (Hanscombe 1992).
Kate Millett, em A Política da Crueldade: Um Ensaio sobre a Literatura do
Aprisionamento (1994), escreveu que ”a tortura é um índice de não-liberdade” (307).
Parece que nós temos um longo caminho a percorrer na criação de liberdade para as lésbicas. Talvez seja mesmo o caso da prática da tortura em lésbicas ser a questão limite
da liberdade social. Enquanto alguma lésbica for torturada e não houver protesto contra,
a sociedade está envolvida e sendo cúmplice nessa violência.
O relatório de Crimes de Ódio da Anistia Internacional conclui com a seguinte
afirmação: ”A luta para proteger os direitos humanos da população LGBT deve ser
travada por todos” (Crimes de Ódio 2001, 28). Eu concordo, mas eu acredito que é hora
de um relato focado especificamente nas lésbicas. {11}
II. SILÊNCIO, APÓS SILÊNCIO, APÓS SILÊNCIO [12]
A ênfase no silêncio não tem como ser exagerada. Lésbicas têm sido submetidas ao
silêncio, à negação, sido ignoradas no discurso dominante heterossexual. Lésbicas que
são torturadas enfrentam múltiplas camadas de silêncio. Em primeiro lugar, há o
silêncio acerca da existência lésbica. Em segundo, em muitas jurisdições há o silêncio
legal: Punição não é atribuída formalmente, mas ao invés acontece numa base informal,
infligida as vezes pelo estado e as vezes por membros da família da mulher ou sua
comunidade. Quando isso ocorre é muitas vezes difícil ter essa punição reconhecida
como uma violação dos direitos humanos da lésbica e como uma instância de tortura.
Nessas circunstâncias, o torturador pode continuar com impunidade, por que “ninguém
nunca vai saber, ninguém nunca irá te escutar, ninguém nunca descobrirá” (Millet 1994,
300).
O grito da lésbica torturada na família, nas prisões, nos manicômios permanece não
escutado. Ela pode pedir ajuda a outros na sua dor, mas ela não pode ser ouvida por que
ninguém parece estar escutando. Poucos ousam escutar. Quase ninguém toma posição.
E eu acrescentaria que poucos parecem se importar com a sua tortura, talvez por ela
ousar ser uma lésbica. No entanto, lésbicas tem falado a despeito das pressões para
permanecerem caladas, e é para as palavras dessas lésbicas que me direciono agora.
Tina Machida é uma lésbica do Zimbábue que mora em Harare. Ela escreve:

“Eles me trancaram em um quarto e traziam ele todo dia para me estuprar, para que eu
ficasse grávida e fosse forçada a casar com ele. Eles fizeram isso comigo até eu ficar
grávida.” (Machida 1996,123)
O estupro foi instigado pelos pais dela no meio dos anos 1980, em um esforço para
“curar” ela de sua existência lésbica.
Perto de Uganda, Christine e Norah foram torturadas pela policia militar, junto com três
gays homens ativistas em 1999. A orientação politica da Uganda é de esquerda, mas o
Presidente Yoweri Museveni, assim como Mugabe no Zimbábue, não possui tempo para
direitos dos homossexuais.
O relatório sobre Christine segue assim:

“Quando retiraram a venda, Christina se encontrou em um centro de detenção secreto.
Arrancaram suas roupas, a espancaram e os soldados que a guardavam ameaçaram-na com estupro. Ela então foi levada para outro centro de detenção, onde foi interrogada
acerca do grupo de direitos humanos que amigos haviam organizado e sobre sua
sexualidade.” (Crimes de Ódio 2001, 4)
Ela foi depois estuprada por três homens detidos. Nas palavras dela:

“Perto da meia noite, eles disseram, ‘Nós queremos mostrar algo a você.’ Eles tiraram
minhas roupas e me estupraram. Eu lembro de ser estuprada por dois deles, e então eu
desmaiei.” (Crimes de Ódio 2011, 4)
Existe um duplo perigo para lésbicas que são presas. Elas correm o risco de serem
torturadas não apenas pelos guardas, mas também, como a história de Christine indica,
por outros presos. [13]
Sua amiga Norah foi levada para outro local, um quartel militar. Sobre sua provação, ela
diz:

“Eu também fui espancada, abusada tanto sexualmente como fisicamente. Minhas
roupas foram arrancadas. Comentários desagradáveis foram feitos, de que eu deveria
ser punida por negar aos homens o que lhes pertencem de direito, e sobre quem eu
pensava que era para fazer algo que o presidente considera errado. Eles até sugeriram
que deveriam me mostrar o que eu estava perdendo, se revezando em mim.” (Crimes de
Ódio 2001, 5)
Eu gostaria de enfatizar o fato de que a tortura contra lésbicas continua.[14] Lésbicas
continuam sendo estupradas e assassinadas. No dia 29 de setembro de 2004, Fanny Ann
Eddy foi encontrada morta após ser repetidamente estuprada. Ela esteve trabalhando no
escritório da Associação de Gays e Lésbicas de Serra Leoa (Human Rights Watch, 4
October 2004, Morgan and Wieringa 2005, 20).
A África, no entanto, não é o único lugar onde a tortura de lésbicas tem aconteceu e
continua a acontecer. Na Romênia, Marina Cetiner foi presa em outubro de 1995, por
“tentar seduzir outra mulher.” Ela escreve:
“Criminosos são mais bem vistos do que uma relação entre duas mulheres… Então por
causa dessa coisa homossexual, lésbica.. Eu fui tratada como a escória da escória.”
(Crimes de Ódio 2001, 11)
Durante seu encarceramento, após reclamar sobre o tratamento recebido das autoridades
da prisão, Cetiner foi algemada a um aquecedor e obrigada a ficar 11 horas “em uma
posição como a de Jesus Cristo” sem comida (Crimes de Ódio 2001, 11).
Equiparar a existência lésbica a distúrbios psiquiátricos não é novidade. É uma forma
particular pela qual as famílias lidam com jovens mulheres desobedientes. Alla
Pitcherskaia, uma lésbica da Rússia, foi acusada do crime de “vadiagem” (Crimes de
Ódio 2001, 20). O resultado final para muitas mulheres jovens pode ser
institucionalização forçada por longos períodos [15], e, como no caso de Alla
Pitcherskaia, sua namorada foi também “levada a força para uma instituição
psiquiátrica” (Crimes de Ódio 2001, 20). O crime de Alla Pitcherskaia consistiu em
continuar trabalhando em uma organização de jovens lésbicas.Gigi Thadani (1996), em sua pesquisa a cerca das condições de lésbicas na Índia,
encontrou muitos exemplos de lésbicas cometendo suicídio. Ela cita os casos de Malika
e Lalita, ambas com vinte anos, que tentaram suicídio por afogamento juntas quando
uma delas não passou em um exame, o que significaria separação para elas; também o
caso de Jyotsana e Jayashree, que pularam em frente um trem, pois não conseguiram
suportar a separação causada por seus respectivos casamentos; o de Saijamol e Gita, que
cometeram suicídio em um envenenamento conjunto; de Gita e Kishori, ambas
enfermeiras de 24 anos que se enforcaram em um ventilador de teto em um quarto do
hospital (Thadani 1996, 102-104). Apesar da Seção 377 indiana não nomear
lesbianismo como crime, tem sido usada para assediar lésbicas e colocar pressão nelas
para que entrem em casamentos heterossexuais (Vozes Contra a Seção 377 n.d, 31-32).
Quando a pressão para heterossexualizar lésbicas é extrema, lésbicas sofrem e muitas,
como indicado pelos exemplos acima, são levadas ao suicídio.
Países ocidentais não estão imunes a participação em tortura. Prisioneiras lésbicas em
todo lugar, não importando a razão de seu encarceramento, serão provavelmente
sujeitadas à tortura e abuso. Um exemplo é o de Robin Lucas, que foi presa por fraude
de cartão de credito em 1995 na Califórnia. Como foi reportado,
“Em uma tarde em setembro de 1995, três homens internos abriram a porta de sua
cela, algemara ela e a estupraram. Robin Lucas sofreu ferimentos graves em seu
pescoço, braços, costas e nas áreas da vagina e do ânus.” (Crimes de Ódio 2001, 18)
Considere o tratamento dessa lésbica e então leia o que Pat Califa tem a dizer sobre
excitação sexual:
“Por reviver a noção de que sexo é sujo, impróprio e nojento, você pode excitar
profundamente uma sortuda e exaurida lésbica, transformando-a em uma privada
pública ou cadela no cio.” (Califa 1988, 52)
Esse “convite” me atinge como um insulto a todas as lésbicas que já foram torturadas ou
violadas, e ignora a realidade da vida de tantas lésbicas em tantos países ao redor do
mundo, nos quais ser lésbica é carregar uma sentença de prisão imediata: Argélia,
Burkina Faso, Etiópia, Marrocos, Tunísia, Bahamas, Trinidad e Tobago, Antígua e
Barbuda, Barbados, Omã e Romênia. Perseguição, no entanto, se extende para países
onde teoricamente ser lésbica não é uma infração da lei, mas na realidade permanece
sendo. Esse é o caso na Colômbia, Nicarágua, Sri Lanka e Brasil. Em outros, a pena é a
morte. Esse é o caso no Afeganistão, Bahrein, Irã, Kuwait, Mauritânia, Qatar, Arábia
Saudita, República da Chechênia, Sudão, norte da Nigéria, Taiwan, e Iêmen (Anistia
Internacional, 1997, 77-90). No Irã os métodos de execução são cruéis e doloridos:
“enforcamento, apedrejamento, ser jogada de um penhasco ou prédio alto, ou encarar
um pelotão de fuzilamento” (Reinfelder 1996, 12). Sob regimes fundamentalistas, a
tortura de lésbicas pode ser justificada nas bases de que o homem está fazendo seu
dever sagrado [16]. É também difícil atribuir a palavra “tortura” ao estupro
heterossexual quando esse é visto como normal. De fato, é forma essencial de tortura
usada contra lésbicas.
Estupro, espancamentos, humilhação, gravidez forçada, inflição de dor física e mental,
diagnóstico falso de doença mental, confinamento e detenção forçada e morte são evidentemente abusos que têm implicação imediata e a longo prazo para a lésbicas
afetadas. Ainda mais, a promoção de sadomasoquismo por Califa (1988), Weiss (2005)
e outras, contribui para o aumento da violência e aceitação social dela sob o lema da
“escolha livre.” Carole Moschetti (2006) nomeia esse conluio de “relativismo sexual.”
O relativismo sexual desculpa e invisibiliza a violência sexual contra mulher nas bases
de uma “naturalidade” e no “direito ao sexo dos homens”, ou na noção de que homens
têm inerentemente o direito de acesso sexual às mulheres. No contexto da tortura de
lésbicas, pode ser observada como a extrema violação de lésbicas por causa de sua
resistência à heterossexualidade e ao modelo do direito masculino ao sexo. O
sadomasoquismo por lésbicas complica a questão, mas dominação, uma parte integral
das práticas do direito masculino ao sexo, é o modelo para o sadomasoquismo lésbico.
As implicações de atos de violência para a saúde da matriz sexual a longo prazo são
também significantes. Quando uma sociedade permite ou autoriza a violência contra um
grupo de seus membros, há um impacto na saúde social. Tal violência gera medo e
desconfiança. Promove desconexões sociais. Faz apologia a violência. Pede por bodes
expiatórios e cria o que nós estamos vendo agora no mundo ocidental, um novo tipo de
fascismo: fascismo pós-moderno, escorregadio como uma enguia, multifacetado,
disperso, e quase sempre difícil de localizar com precisão. Num sentindo social, é como
a experiência de dor no corpo. É difícil de falar sobre, mesmo que muitas de nós sintam
a aflição e o desconforto. [17]
Deixe-me explicar uma apresentação feita numa conferência por Margot Weiss
(2005)[18]. Em seu trabalho Weiss discute a participação em um curso de BDSM [19]
(*N.T.: BDSM é um acrónimo para a expressão “Bondage, Disciplina, Dominação,
Submissão, Sadismo e Masoquismo. Fonte: Wikipedia) na Califórnia, no qual duas
pessoas – uma mulher e um homem – apresentaram “cenas” de BDSM, em voltas do
uso de uma “espiã.” A “espiã” – uma mulher – é penetrada com um cabo de martelo. O
uso de camisinha pareceu legitimizar essa ação nos olhos do apresentador. Um aparelho
de choque é usado na “espiã” – nesse ponto eu estava incomodada demais para ouvir o
terceiro elemento na “brincadeira de tortura.” Weiss disse especificamente que BDSM
não é tortura; de fato, ela descreveu como “consensual.” Ela seguiu dizendo que classes
de BDSM são “brincadeiras não-consentidas consentidas” e documentos da Anistia
Internacional são fontes úteis de ideias para criar cenas de interrogação. Depois, na
“brincadeira de tortura”, um dos participantes segura uma faca no pescoço da “espiã” e,
então, uma arma descarregada é a apontada para ela. As roupas são arrancadas do corpo
da “espiã”, que está deitada de bruços com as pernas abertas no chão. A “espiã” então
tenta chutar os “jogadores da tortura.” A “espiã” pode parar o “consentimento nãoconsentido”
usando a palavra “Rumsfeld.” Weiss questiona no fim de sua descrição da
“brincadeira de tortura”, “O que essa performance nos diz acerca dos fotógrafos de Abu
Ghraib?” Abu Gharaib, ela defende, é apenas uma cena, um espetáculo. E
sadomasoquismo serve como uma critica, já que perturba a forma como as pessoas
entendem o mundo. E mais além, que pelas cenas serem “paródias”, elas se tornam uma
re-encenação criativa sobre a falta de poder em relação a guerra. Mas a coisa sobre a
tortura é que você não sabe se estará viva no final do dia. Você não sabe quando irá
terminar. É mais do que apenas “falta de poder” é subjugação, degradação, abandono e
desumanização. Defender tais atos como “performativos” é uma instância de
negligência moral.Essa experiência fez com que eu fizesse perguntas difíceis a mim sobre cumplicidade,
sobre as formas sutis e não tão sutis pelas quais nós agimos de acordo a pressões
sociais. Quando está tudo bem fazer isso e quando não está? Graham, Rawlings e
Rigsby (1994) defendem que a relação social das mulheres com os homens sugere uma
forma social de Síndrome de Estocolmo, isto é, que a instituição da heterossexualidade
e os indivíduos que a mantêm – homens e apologistas do poder masculino – agem como
se mulheres fossem reféns dos homens. A cativa percebe esse comportamento dos
captores como indo de extrema violência a benevolência. A benevolência cria uma
crença de que há segurança em meio à violência e ao abuso. É esse aspecto que
considero interessante a luz das defesas de BDSM e sexualidade performativa no
feminismo pós-moderno. [20] A defesa de BDSM – inclusive em um cenário apenas
com mulheres – não é nada melhor que a defesa feita por pornógrafos, os clientes de
prostitutas e de quem faz apologia a torturadores.
Em relação ao “performativo” e à paródia, acho que esse deslize de responsabilidade, o
movimento de tirar o foco da vitima da tortura e colocar na audiência da tortura – sejam
participantes de um curso de BDSM ou aqueles que olham fotos de Abu Ghraib –
profundamente perturbador. A aceitação acadêmica – até mesmo a aparente aceitação
“feminista” – da tortura como um jogo é profundamente ofensiva. É apropriativa das
pessoas vivendo sob regimes totalitários que não têm o “luxo” de dizer “Não,” ou dizer
“Rumsfeld” como uma parodia. Esse movimento pós-moderno para uma análise
centrada na audiência e na performance terá terríveis consequências para todas as
vitimas de tortura, e adicionará uma deturpação significativa à tortura de lésbicas, que já
são abandonas como invisíveis e um grupo marginalizado que não precisa de
campanhas de direitos humanos.
Cumplicidade é o produto do medo. É como o fascismo aprofunda suas raízes. Isso me
faz lembrar de outros debates entre feministas. Temos de um lado teóricas/os
“feministas” pós-modernas defendendo o poder curativo o valor performativo da
tortura, enquanto do outro lado temos teóricos jurídicos – incluindo mulheres –
defendendo a legalização da tortura por que assim será mais segura. Isso se parece
muito com as alianças feitas acerca da prostituição (Sullivan 2004, 2006). Ambas são
instâncias libertárias e perigosas para o feminismo. Annie McCombs aponta que
“quando um homem é torturado até a morte em qualquer lugar, as pessoas veem isso
como perseguição politica; quando a mesma coisa acontece com uma mulher, as
mesmas pessoas enxergam sexo” (1985, 86). Quando representações de lésbicas são
vendidas como pornografia, um mesmo deslize ocorre.
D. A. Clarke defende que o uso de “pornô menina/menina” (2004, 198) como um
empreendimento comercial lucrativo é baseado no fato de que a atos privados serem
transformados em fantasias públicas – de outra forma inacessíveis aos homens – é
sexualmente excitante por que no processo lésbicas foram humilhadas. Como lésbicas,
elas são humilhadas quando o intimo é feito público; ou se são mulheres heterossexuais
posando como lésbicas, os atos sexuais são percebidos como humilhantes. Além disso,
ela defende que lésbicas, juntamente com os homens árabes nas imagens de tortura de
Abu Ghraib, representam a imagem ameaçadora do “Insolente Outro” (2004, 1998). O
eroticizado “quadro sugestivamente homossexual” é humilhantes para os prisioneiros de
Abu Ghraib. Eles são os corpos feminizados do inimigo. A pornografia que utiliza as
supostas imagens lésbicas, representam uma lésbica feminilizada, uma lésbica que foi
movida de volta para a categoria mulher, como descrita por Monique Wittig [21]. Através da pornografia, a lésbica volta para o controle patriarcal do quadro de mulheres
e homens naturalizados.
III. PORNOGRAFIA E TORTURA
Em uma sociedades onde grupos particulares são ”objetos de ódio”, o ódio é estendido a
imagens que rebaixam as pessoas desse grupo. É o que a pornografia faz para as
mulheres e lésbicas; A pornografia é violência sexualizada ou uma expressão de poder
para a gratificação dos violadores. A pornografia depende da erotização das diferenças
de poder, diferenças sistemáticas entre mulheres e homens ou entre classes de pessoas
(Kappeler 1986), ou que são ”contidas” pelas pessoas em uma relação baseada na
dominação e submissão. Como De Clarke observa, há uma ligação entre as imagens de
tortura em Abu Ghraib e a pornografia. Ela escreve:
O que ninguém quer admitir – na América, de qualquer maneira – é que essas imagens
não são apenas pornografia. Elas são pornografia, a essência crua da pornografia:
tirando fotos como troféus de pessoas sendo despidas, sexualmente humilhadas,
estupradas – então você pode se vangloriar disso depois. (Clarke 2004, 205)
Eu argumento que o Manual Lésbico de S/M Seguro (1988) é um manual de autoaniquilação,
na exterminação da cultura lésbica, ao exibir a pornografia como liberdade,
semelhantes aos regimes de política repressiva que falavam de libertação quando
queriam dizer morte. Para reforçar isso, me deixem citar outro extrato de Califa:
[Humilhação]. . . é o rebaixamento deliberado da passiva a uma erotizada, e ainda
estigmatizada, identidade. Isso pode incluir torná-la em: (1) um objeto ou máquina, (2)
um animal, (3) uma criança ou bebê, (4) um membro do sexo oposto, (5) um objeto
sexual ou genitália, (6) um servente ou escravo. A humilhação pode também envolver
trata-la como um membro de um grupo racial ou étnico, orientação sexual ou classe
socioeconômica que o superior simula {22} ressentir, opor-se, etc. (Califia 1988, 52)
Sadomasoquismo é uma forma de consumismo da experiência. De um modo similar ao
que a cultura ocidental apropriou-se das culturas de indígenas e povos não-ocidentais,
os praticantes de S/M estão se apropriando da experiência de povos oprimidos que
foram torturados por governos ditatoriais ou que foram escravos em regimes racistas ou
às lésbicas que foram torturadas por fundamentalistas e regimes militarizados. Como
Brennan (2003) indicou, a única coisa que todos os fundamentalistas concordam é a
importância da repressão da sexualidade das mulheres e da punição a qualquer quebra
do código heterossexual. {23} Os praticantes de S/M tornaram uma experiência
incontrolável de tortura em um jogo que pode ser parado (mas pessoas passando por
tortura real não têm a opção de dizer não). {24} A ”experiência de quase morte” de S/M
pode ser vista como apenas outro jogo consumista. O consumismo de bens materiais
alcançou seus limites, mas os praticantes de S/M não atentaram em simular a morte na
busca de mais uma emoção. S/M é um jogo de luxúria. É expropriação da
experiência. Afinal, é cheio de desprezo pelos outros.
Em uma sociedade onde a tortura pode ser descrita como ”performativa” ou como
”comunicação direta com prisioneiros iraquianos” {25} e BSDM pode ser apresentado
como uma série de categorias aos interessados em ”se curarem” {26} ou simplesmente
interessados na experiência de poder, estas são questões centrais da saúde social. Dado que são as marginalizadas, lésbicas inclusas, que são mais propensas a serem torturadas,
a questão da saúde social é um indicador importante do nível de justiça social em uma
sociedade.
Quando atos de tortura e atos de ‘’consentimento não consensual’’, como BDSM é
descrito por Weiss (2005), são colocados contra a realidade da tortura de lésbicas, que
afirmação é feita sobre a cultura contemporânea? Pornografia é um modo de ganhar
dinheiro com tortura, e é apropriação. Isso é apropriação das lésbicas que foram
torturadas porque eram lésbicas; de lésbicas que foram empurradas de edifícios no
Iraque, caindo para a morte, porque elas eram lésbicas; de lésbicas que foram
espancadas e estupradas porque eram lésbicas; de lésbicas que são açoitadas, têm as
mãos amputadas, que são forçadas a casamentos que não querem porque são lésbicas; e
de lésbicas na maioria dos países que são silenciadas porque são lésbicas. (Hawthorne
2004a; Hawthorne 2004b). {27}
Além disso, se Weiss (2005) pode argumentar (e a audiência dela pode se sentir
confortável aplaudindo seus argumentos) que atos idênticos à tortura – humilhação,
penetração violência com objetos, corte de roupas, bondage – são aceitáveis em uma
cena BDSM, e são considerados filosoficamente aceitáveis, onde o incerto desliza a um
começo e fim? Estas são questões complexas de moralidade. Eles se preocupam com
assuntos ao redor do consentimento, poder e falta de poder, justiça, e uma descrença na
justiça como central. O efeito da aceitação de atos de tortura é uma desmoralização da
cultura. Uma pessoa desmoralizada é uma que não pode se defender, que foi chutada
muitas vezes. O efeito não resulta da natureza de qualquer chute, mas do efeito
acumulado de múltiplos chutes, ‘’mil pequenos cortes’’ que levam a pessoa muito
desanimada a tomar uma posição. A desmoralização de uma vítima de tortura é
acumulativa e resultado de muitas humilhações, experiências dolorosas, isolação e atos
desumanos. Tal como na sociedade em que vivemos. Mesmo aquelas de nós que não
estão conscientes diariamente dos milhares de cortes são afetadas mesmo assim.
Aquelas que ignoram e recusam a dignidade lésbica são eventualmente afetadas
também. Entre feministas é argumentado que atos de racismo atormentam o tecido
social, criando a violência racial (seja contra diásporas e nativos da África, Ásia e do
Oriente Médio, ou contra povos indígenas do mundo colonizado). Por essa perspectiva,
a violência sexualizada contra mulheres – incluindo lésbicas – também dilacera o tecido
social.
A cada dia eles tiram os pontos de uma parte nova de mim. Há uma batida implacável.
As lembranças da arma. Meu cérebro estala a cada momento que penso nisso. A marca
da violência deles está aumentando. Uma voz aveludada me visita aleatoriamente.
Quando eu ouço os passos dele, o medo vem como vômito. Hoje me colocaram esticada
no chão. O rosto para baixo. Urinaram enchendo minhas narinas. Ele passeou
diminuindo em forma de espiral. Rindo do peso da espiral. Eu vou mostrar a você para
que é a espiral, ele disse. E pisou na minha mão esquerda. Livre-se da mão esquerda,
ele disse. Eu conheço você como jogos e linguagem. Irmã sinistra. Ele pisou na minha
mão direita. Rosie, abaixo os dedos, sua puta. Ele pisou e torceu seu pé pesadamente
nos meus dedos. Sem mais fingersmithing [pisar de dedos?] para você. Ele pisou e
torceu. Passeou e pisou e torceu de novo. Os ossos quebraram. Os dedos chatos e
inúteis, como ele queria. Ele sempre me deixava com dor. Ele sempre me deixava e eu
estava sacudindo em soluços. O horror pelo que ele fez. Meus dedos esmagados como galhos quebrados. Minhas mãos como tocos apodrecidos. No Irã, eu me lembro, eles
amputaram as mãos das lésbicas. (Hawthorne 2004d, 48)
IV. FUGINDO DA TORTURA: LÉSBICAS REFUGIADAS [28].
Na 8ª Conferência Internacional Interdisciplinar das Mulheres do Mundo em Kampala,
2002, eu estava falando sobre questões lésbicas em uma sessão no final da conferência.
Uma mulher se aproximou de mim e disse que existiam muitos problemas para as
lésbicas em Uganda e que conseguir reconhecimento como refugiadas era
particularmente difícil para elas. Esse parece ser o caso tantas vezes, que alguns autores
sugerem que há não evidência documentada de lésbicas (McGhee 2003; Magardie
2003).
Isso apesar do bem documentado caso das duas lésbicas já mencionadas – Christine e
Norah – que foram torturadas em 1999. Elas estavam com tanto medo pela sua
segurança, que fugiram para um país vizinho. Lá também a existência lésbica era
criminalizada e então elas não puderam pedir asilo. Elas “foram forçadas a passar vários
meses escondidas enquanto tentavam arrumar uma forma de conseguir proteção como
refugiadas” (Crimes de Ódio 2001, 5). Coisas desse tipo são o que diferem refugiadas
lésbicas de outros grupos perseguidos por razões políticas, religiosas ou étnicas.
“Tratamento” e “cura” retiram o elemento político.
Parece, então, que a evidência existe, mas não é vista. [29]
Alla Pitcherskaia da Rússia, que foi para os EUA depois de receber ameaças a sua
liberdade, devido a sua suposta “vadiagem” e seu ativismo, apresentou um pedido de
asilo. Inicialmente ele foi rejeitado por que “eles alegaram que o motivo de
institucionalização forçada era o desejo de “tratar” ou “curar” e não punir, logo não era
“perseguição” (Crimes de Ódio 2001, 19)
Monika Reinfelder nota que em 1990 o governo alemão deu asilo a uma lésbica iraniana
“que seria levada à pena de morte se fosse obrigada a voltar para o Irã” (1996, 18).
Há um problema na invisibilidade de lésbicas como refugiadas. Os casos não são
numerosos, mas eles existem e precisam ser feitos visíveis. Como Reinfelder comenta,
“O ódio a lésbicas na maioria dos países tem prevenido muitas lésbicas perseguidas de
pedirem o status de refugiadas por motivos se sua orientação sexual” (1996, 18). Muitas
lésbicas, então, pedem asilo por motivos de perseguição política. Mas isso pode resultar
numa impossibilidade de provar seus status de refugiadas, já que os piores abusos
ocorreram a elas por serem lésbicas. Se essas circunstâncias não podem ser reveladas, o
caso é enfraquecido. [30]
A ONU tem um objetivo declarado de proteger aquelas/es prejudicadas/os pela
discriminação, mas a realidade é de que quando orientação sexual vai a voto, alianças
prejudiciais são feitas entre Arábia Saudita, Irã, EUA e o Vaticano, apenas para
observar alguns países que já votaram juntos na ONU. A ONU tem uma série de
disposições que cobrem a discriminação na base de orientação sexual. Elas incluem o
Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos Direitos (PIDCP), a Organização
Internacional da Discriminação no Trabalho (emprego e ocupação) Convenção de 1958 (“111 da OIT”), e o Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais
(PIDESC). A proteção, no entanto, não é garantida se o governo de um país não tiver
assinado os acordos, e muitos não assinaram. Não há disposições que especificamente
cubram a discriminação contra lésbicas, que geralmente sofrem pelo menos uma dupla
penalização, de sexualidade e de gênero, além da de classe, casta, etnia, discriminações
culturais, religiosas ou raciais.
Claire, uma lésbica refugiada de uma família poderosa na Uganda, agora vivendo no
Reino Unido, teme diariamente pela segurança de sua namorada que a ajudou a escapar
e depois a seguiu para o exilio. Claire não sabe o paradeiro de sua namorada e teme que
ela esteja morta ou que tenha sido empurrada para prostituição para pagar suas dividas
(Townley 2005).
Na época em que esse artigo estava para ser publicado, eu tinha acabado de ver em
Melbourne um novo filme, Unveiled (Fremde Haut), feito por Angelina Maccarone. É
um filme sobre uma lésbica iraniana procurando asilo na Alemanha. A personagem
principal, Fariba Tabrizi (interpretada por Jasmine Tabatabai), havia tido um
relacionamento no Irã com uma mulher casada que foi descoberta e deixada pelo
marido. Quando ela é entrevistada pelo policial alemão no aeroporto, ela não pode falar
sobre o que aconteceu com ela e apresentar suas verdadeiras razões para procurar asilo,
em parte pela presença de um tradutor iraniano. O filme mostra as dificuldades
extraordinárias encontradas por lésbicas e o que elas precisam fazer para sobreviver.
V. TORTURA, ESCRAVIDÃO, MULHERES, E A VERDADE.
Um “curioso dispositivo [foi]… moldado como uma pêra, feito de madeira, mas com
partes de metal e madeira pontiagudas fixadas nele. A legenda dizia que o torturador
colocou ele dentro da vagina de uma mulher e gradualmente enfiou dentro do corpo
dela até que quebrou” (du Bois 1991, 3).
Um artefato da história europeia, esse objeto é um lembrete do quão longo é o ódio
contra as mulheres e como as práticas acerca desse ódio, especialmente o ódio a
lésbicas, [31] têm persistido.
Na antiga Atenas e na Florença renascentista – dois períodos marcantes da história
ocidental de aparente florescimento da “liberdade” – tortura foi usada como meio de
conseguir evidência (du Bois 1991; Lapierre 2001). Tortura era colocada como a melhor
forma de extrair a verdade de testemunhas. Eu menciono esses exemplos, pois é
importante reconhecer como a violência contra a mulher e a tortura de mulheres estão
estruturadas na história da cultura ocidental, até mesmo – ou talvez especialmente – nos
seus supostos altos momentos de civilização. Na Inglaterra e França dos séculos
dezesseis e dezessete – outro aparente momento alto de civilização – mandados de
tortura foram emitidos. [32] Isso nos lembra que tortura não é algo que alguém lá fora,
diferente de “nós”, faz contra lésbicas. É um lembrete de que tortura aconteceu – e
continua a acontecer agora – ao redor do mundo em supostamente civilizados países. É
um lembrete de que aparentemente civilizados países são os treinadores dos torturadores
de países mergulhados em conflito, guerra e desassossego civil. É um lembrete que
mulheres – e logo, lésbicas – que pisam fora dos modos comportamentais patriarcais e
heterossexuais serão punidas. Lésbicas são a epitome do “outro” na tradição filosófica
ocidental, e o corpo lésbico é evidentemente um mundo de “alteridade”. Como tenho discutido em outros lugares (Hawthorne 2003), a não-existência e o apagamento de
lésbicas no discurso heterossexual é central para estrutura normativa de nossa
sociedade. Lésbicas compartilham com a tortura a negação de sua existência.
Não é atribuída muita importância à negação, mas qualquer pessoa que já tenho sido
ostracizada ou que tenha a experiência ser membra de um grupo desprezado, irá
testemunhar sobre a dor que acompanha tal negação de existência, ou negação de
experiência. A tortura aniquila a vítima. A prisioneira não pode determinar quando a
tortura vai parar, mesmo fornecendo respostas honestas e verdadeiras às perguntas feitas
a ela.
VI. O CORPO FORA DO CONTROLE.
“O corpo lembra de novo e de novo… e de novo… O corpo lembra e a dor se torna
parte dos nossos sonhos e dos nossos pesadelos, por que nós não temos uma válvula
para liberar eles de nenhuma outra forma. O corpo deseja ser um corpo de novo, ter
uma mente… o corpo deseja uma alma” (Rivera-Fuentes e Birke 2001, 657; itálico e
pontos do original).
Entre as dificuldades experienciadas por qualquer pessoa sujeitada à tortura, está a de
como transmitir a experiência de dor dentro do corpo. Elaine Scarry, em O Corpo com
Dor: O Fazer e Desfazer do Mundo (1985), defende que a dor em si mesma “é
linguagem destruindo” (1985, 19). Para uma lésbica isso é duplamente difícil, pois o
discurso heteronormativo da sociedade não está aberto para os enunciados de lésbicas. É
difícil o suficiente conseguir que as pessoas empatizem com e entendam uma pessoa de
outra cultura, outro regime político, um país desconhecido. Adicione a esse prospecto a
existência lésbica e a cultura lésbica, e a dificuldade da tarefa é ainda maior. Aqui eu
estou intencionalmente falando como se o/a leitor/a fosse heterossexual. Para a leitora
lésbica a experiência é provavelmente muito diferente.
Dentro do discurso heterossexual, a lésbica é a epitome do corpo desimpedido. O corpo
lésbico é o corpo fora do controle em um sentido heteropatriarcal; isto é, não é
governado pelas regras heteropatriarcais. Para o torturador, o corpo da prisioneira
também se torna um corpo fora do controle, e essa falta de controle é mostrada a cada
vez que dor é infligida.
“… toda onda após onda de eletricidade, nenhum controle… Eu estou perdendo
controle de mim mesma… Eu não posso parar a merda, o mijo, as lágrimas, os
babacas, os gritos.” (Rivera-Fuentes e Birke 2001, 665; itálico e pontos no original)
Elaine Scarry escreve sobre a falta de controle da prisioneira, e a forma pela qual
responsabilidade sobre isso é jogada de volta na prisioneira, para que a confissão “seja
entendida por outros, é um ato de auto traição.” (1985, 47)
Há um elemento aqui de se perguntar por que é que orientação sexual foi considerada
externa ao âmbito de Direitos Humanos da ONU, e por que lésbicas refugiadas precisam
lutar tanto para serem reconhecidas, ouvidas, e aceitas como refugiadas “genuínas”. É
sobre a auto traição do corpo. Se a existência lésbica é uma escolha, então segue o
argumento, então a lésbica pode facilmente escolher não ser lésbica. [33] O problema é
que o corpo dela a trai. O discurso dela como lésbica é tomando como uma auto traição. A situação é lida dessa forma, ao invés de ser lida como um problema do patriarcado e
da opressão. É uma instância do que Mary Daly nomeia “reversão”, na qual a vitima é
percebida como sendo a errada, e não o perpetrador.
O torturador, ao longo desse processo, dispensa toda a culpa, toda a responsabilidade
pela dor infligida na pessoa torturada. Sua consciência está limpa. É tudo culpa dela. Se
ela ao menos fizesse o que é melhor para ela, ela não teria que sofrer. De fato, ele a
ajudará estuprando ela, mostrando para ela o que um homem de verdade pode fazer para
ela, como o que ela precisa é “uma boa foda, de um homem de verdade” (RiveraFuentes
e Birke 2001, 656). Essa postura psicológica, sugiro, é a fonte da proliferação
da fantasia sexual masculina sobre a tortura de lésbicas.
Resumindo meu argumento: A prisioneira da tortura é considerada fora de controle; a
lésbica é considerada fora de controle. A lésbica torturada está, então, duplamente fora
de controle ( e numa sociedade na qual lésbicas são definidas como doentes mentais,
triplamente fora de controle). Já que ela está tão evidentemente fora de controle,
qualquer coisa que aconteça a ela é sua culpa, pois se ela escolhesse se comportar
diferentemente, ela não seria torturada. O torturador/ homem que fantasia/ pornografo é,
logo, capaz de abandonar qualquer senso de responsabilidade pelas suas ações e pelas
suas crenças acerca de lésbicas. Está no interesse dela que ele a torture, a estupre,
mostre a ela como é bom. Ou, como Elaine Scarry escreve, “Toda arma têm dois fins.
Ao converter a dor de outra pessoa em um poder seu, o torturador experiencia todo o
ocorrido exclusivamente do lado não-vulnerável da arma” (1985, 59).
VII. SE LÉSBICAS NÃO SÃO MULHERES, AS LÉSBICAS PODEM
REIVINDICAR OS DIREITOS HUMANOS?
Monique Wittig, em seu extraordinário ensaio ”Não se Nasce Mulher,” {34} escreve:
A lésbica é o único conceito que eu conheço que está além das categorias de sexo
(mulher e homem), porque o assunto designado (lésbica) não é uma mulher, nem
economicamente, politicamente ou ideologicamente. Pelo qual se faz uma mulher em
uma específica relação social para um homem, uma relação que nós previamente
chamamos servidão, uma relação que implica compromisso pessoal e físico, assim
como compromisso econômico (”residência forçada,” trabalho doméstico, deveres
conjugais, produção de crianças ilimitada, etc.), uma relação que as lésbicas escapam ao
recusar se tornarem ou continuarem heterossexuais. (Wittig 1992, 20)
Esse desafio confrontando o ”naturalismo” patriarcal é uma pista para a razão por trás
das lésbicas terem sido fortemente punidas no patriarcado. A própria existência de
lésbicas é um desafio aos direitos de propriedade dos homens como um grupo. Isso
desafia a suposição de que há algo natural sobre as categorias de mulheres e homens, e
isso sugere que há uma alternativa para essas categorias naturalizadas. Isso desafia o
domínio proprietorial da categoria das mulheres, de um modo que recorda o desafio
representado pelo Direito à Terra Nativa dos povos indígenas. Para as pessoas indígenas
a terra não é propriedade, ela é mantida por atividades responsáveis, muitas delas são
consideradas sagradas. A manutenção coletiva da terra não tira os povos indígenas dos
direitos humanos. De modo similar, lésbicas que querem viver vidas livres da servidão
heterossexual, livres da violência e da gentileza alternada pelo grupo dominante, não
abandonam seus direitos humanos, não desistem de um direito de serem respeitadas. De fato, essas lésbicas que usam isso como um modelo para suas vidas podem fornecer um
modelo de liberdade para todas as pessoas. Com isso eu quero dizer, a capacidade de se
mover livremente, amar quem quiser, rir e andar de modo que denote alegria.
Como FannyAnn Eddy, lésbica ativista assassinada em Sierra Leone, disse menos de
um ano antes de sua morte:
Silêncio cria vulnerabilidade. Vocês, membros da Comissão dos Direitos Humanos,
podem quebrar o silêncio. Vocês podem reconhecer que nós existimos, em toda a África
e em cada continente, e que as violações dos direitos humanos baseadas na orientação
sexual ou identidade de gênero são cometidas todos os dias. Vocês podem nos ajudar a
combater essas violações e alcançar nossos direitos e liberdades completas, em todas as
sociedades, incluindo minha amada Sierra Leone. (Eddy 2004).
VIII. COMO ESTA PESQUISA PODE AFETAR A POLÍTICA SOCIAL?
Porque as lésbicas têm necessidades distintas e porque a vida lésbica diária delas –
embora elas dividam alguns elementos com o grupo ”mulheres” e ”LGBT” – confrontam
problemas diferentes, é essencial que a política e pesquisa não resultem em mais
invisibilização de lésbicas. Lésbicas serão ”vistas” apenas se:
 pesquisas focadas nas lésbicas sejam realizadas;
 pesquisas nomeiem lésbicas mais do que tentem escondê-las atrás de termos
como ”identificadas-com-o-mesmo-sexo” ou ”minorias sexuais”;
 pesquisadores respeitem os nomes que as lésbicas escolheram usar no próprio
local de contexto delas;
 pesquisadores entrevistem lésbicas e peçam que elas identifiquem tratamento
que esteja conectado a sexualidade lésbica delas;
 pesquisadores e decisores políticos reconheçam que lésbicas são violadas por
pelo menos duas razões: como membras da classe mulheres (ou não-homens) e
como membras da classe não heterossexual;
 pesquisadores e decisores políticos reconheçam que lésbicas são violadas por
uma terceira razão: como membras da classe não-homem, não-mulher e nãoheterossexual,
e que são as lésbicas;
 pesquisadores e decisores políticos reconheçam que as lésbicas vêm de todos os
grupos étnicos, culturais, religiosos e sociais, e, pelas necessidades de segurança
pessoal, elas algumas vezes se escondem em grupos de homens, mulheres e
heterossexuais;
 lésbicas, que nunca foram o foco de qualquer campanha bem-financiada, são
tratadas do mesmo modo que qualquer grupo marginalizado e perseguido cuja
segurança pessoal e coletiva está em risco.X. CONCLUSÃO
Vivemos tempos perigosos. Eu acredito em um novo fascismo, fascismo pós moderno,
que está crescendo. Isso toma a forma de defesa da liberdade onde o poderoso que odeia
o discurso é protegido: corporações, exércitos, homens, ricos, e a elite. Isso defende
pornógrafos e cafetões, companhias farmacêuticas e equipes de reconstrução, soldados e
torturadores. Agora nós sabemos como essas políticas públicas funcionam. É através da
falsa benevolência (Graham et al. 1994); isso vem envolto na escolha; vem com a
palavra liberdade estampada. Nós precisamos inventar estratégias para expor esses
sistemas de injustiça pelo que eles são. Nós também precisamos inventar modos de
combater a desmoralização e aumentar a ”cola” [?] social. Comunidades indígenas na
Austrália (d´e Ishtar 2005) descobriram que o crescimento do poder social da mulher
fortaleceu o tecido social e reduziu a violência. Nos últimos trinta anos, como uma
feminista radical, eu estive ativa nas comunidades de mulheres que estão criando um
feminismo vibrante e culturas lésbicas e em grupos que trabalham para reduzir a
injustiça social. Contudo, em 2005 eu vi feministas e lésbicas apoiando a prática da
tortura porque isso era chamado BDSM, porque isso era categorizado como ”jogo” e
como ”consentimento não-consensual”. Isso em um país envolvido em abusos de poder
generalizados, incluindo tortura contra eles mesmos e outros povos. Se as feministas e
lésbicas se articulam pela ”violência consensual”, podemos esperar para ver o
crescimento da violência contra a mulher e indiferença pela tortura de lésbicas.
Se a violência contra as lésbicas é um assunto indiferente, e lésbicas continuam fora do
escopo da reforma da justiça social, então os direitos civis e políticos de todos
continuam em risco. As reformas políticas mais difíceis a fazer são, a longo prazo, as
mais importantes, porque elas nos dão uma pista sobre os limites de nosso estado de
preparação para viver uma existência ética. Se nós não estamos aptas a nos
preocuparmos com as vidas e bem estar das que são mais diferentes, então nós somos
incapazes de defender a justiça para todas – até no nível básico, que envolve liberdade
de associação, liberdade para amar.

Capítulo 1 de Unpacking Queer Politics – Sheila Jeffreys

13-jan-15

Capítulo 1 – LIBERAÇÃO GAY E FEMINISMO LÉSBICO

Sheila Jeffreys, Unpacking Queer Politics

tradução: Jéssica Akemi

 

Hoje em dia muitas lésbicas jovens e homens gays definem-se como ‘queer’ sem pensar duas vezes. Mas esse é um termo que se tornou uma descrição moderna para descrever lésbicas e gays apenas na última década, mas muitas lésbicas continuam achando o termo repugnante. Política e teoria queer emergiram em um ponto particular na história do desenvolvimento do movimento gay e lésbico. Proponentes podem ver bem a política queer como o apogeu desse desenvolvimento. Muitas críticas lésbicas feministas veem a política queer como formando um blacklash contra os interesses das mulheres e lésbicas. Para entender a política queer atual, nós precisamos ver como as ideias e práticas desenvolvidas a partir disso, ou a reação a isso, se passou antes. Nesse capítulo 1 olharemos a liberação gay e o feminismo lésbico como um contexto para entender a política queer. As ideias e estratégias da liberação gay saíram da mesma prova que deu nascimento a outros ‘novos’ movimentos sociais do fim dos anos 60 e começo dos anos 70. Esses novos movimentos eram feminismo, liberação jovem, liberação negra, Paris de 1968 e o movimento estudantil. Ideias socialistas e feministas infundiram a liberação gay desde o início. O nascimento da liberação gay é geralmente datado de Junho de 1969, então chamada rebelião de Stonewall na aldeia de Greenwich, quando lésbicas, homens gays e drag queens pela primeira vez revidaram em ferozes batalhas de rua contra a rotina de perseguição de batidas policiais em clubes gays. De fato, é preciso que isso seja entendido como ascendente de um ânimo intensificado gradualmente de frustração e resistência que veio crescendo dentro e fora das primeiras organizações lésbicas e gays dos anos 60. Essas primeiras organizações deram a base que permitiu a liberação gay a desenvolver-se tão rapidamente (D’Emilio 1998, 1ª publicação 1983). Stonewall foi um catalisador e adequado para simbolizar o ânimo dos tempos, mas isso não poderia ter inflamado um movimento político se o terreno não tivesse sido bem preparado. O que tem sido chamado organizações ‘homophile’ (palavra alternativa para homossexuais) foram estabelecidas nos anos 50 e 60 e antecederam a liberação gay. Essas organizações foram caracterizadas pelos historiadores como ‘assimilacionistas’ visando integração para homossexuais e finalizando penalidades legais. O que foi diferente sobre a liberação gay é que a assimilação foi repudiada em favor do ‘sair do armário’, ‘orgulho gay’ e demandando mudanças sociais dramáticas que foi considerado para a liberdade das mulheres, lésbicas e gays. Ativistas gays liberais, abastecidos pala confiança ganhada pelo espírito da época, na qual muitos grupos sociais estavam protestando, teorizando, exigindo mudança radical, afirmando sua homossexualidade e realizando protestos dramáticos e engraçados em lugares públicos. A liberação gay foi originalmente concebida como Frente de Liberação Gay. A palavra ‘Frente’ sugere as fundações socialistas da liberação gay. A FLG (GLF – Gay Liberation Front) foi modelada nas lutas de liberação conduzidas por pessoas colonizadas em todo o mundo contra o imperialismo, como no Vietnã. Lisa Power, em sua história do FLG em Londres, comenta que ‘o FLG atraiu Londres, entre outros, pessoas com experiência na resistência na guerra do Vietnã, direitos negros, liberação de mulheres, imprensa underground, os White Panters (um grupo de suporte ao Black Panters), o grupo marxista internacional, o baile comunista, uma ampla variedade de outros grupos de esquerda incluindo Maoístas, cultura de drogas, transexuais e garotos de programa (Power 1995: 16).A análise socialista foi aplicada à situação de lésbicas e homens gays. Havia uma crítica na esquerda nesse tempo que era vista como a ‘distorção geral de toda sexualidade nessa sociedade’ para o propósito de controle social e ‘para vender a superabundância de bens de consumo o sistema econômico quebrou’ (FLG 1971, citado em Power 1995: 53). Teoristas gays liberais comprometidos com uma crítica drástica das forças capitalistas, exemplificada pela indústria sexual gay e proprietários de clubes gays que criaram a exploração do homem gay. Eles argumentam ‘A FLG espera fornecer uma necessidade desesperada de fuga para pessoas que estão cansadas do mundo gay alienado e explorado, sexo dissimulado em lugares públicos, e excursões perigosas para o Hampstead Heath. Nós queremos providenciar um cenário melhor para as pessoas gays’ (p. 53). Ativistas gays liberais rejeitaram o modelo médico de homossexualidade removido na lista americana de diagnósticos de doenças mentais, a DSM 3. Eles proclamaram que ‘gay é bom’. Eles acreditavam que opressão homossexual foi o resultado da dominação masculina, e a liberação de mulheres e a liberação gay estavam inevitavelmente conectadas, tal como uma não poderia ser concebida sem a outra. A opressão homossexual e a opressão da mulher eram ambas vistas como resultado da dominação masculina que era chamada ‘papeis de sexo’. Ativistas políticos da esquerda desse período eram profundos sócio-construcionistas em suas abordagens. Assim, tanto gays liberais quanto feministas viam papeis de sexo, que provavelmente são chamados agora ‘papeis de gênero’, como sendo politicamente construído para assegurar a dominação masculina. Mulheres eram afastadas do papel do sexo feminino da esfera privada, nutrindo e se preocupando com o embelezamento do corpo para ser um objeto sexual apropriado. Lésbicas eram perseguidas porque desafiavam o papel do sexo feminino de passividade sexual e servidão ao homem. Homens gays eram perseguidos porque eles desafiaram o papel do sexo masculino, o qual requer no comportamento masculino, a heterossexualidade e relações sexuais com mulheres. No contexto da corrente política queer que celebrava aqueles que jogavam fora esses papeis na forma de butch/femme, transgênero e sadomasoquismo como a transgressiva vanguarda da revolução, é útil entender totalmente o quanto a liberação gay foi fortemente influenciada pelo feminismo que os rejeitaram. A opressão do homem gay era vista como um reflexo da opressão da mulher, então ‘papeis de sexo’ eram um problema para os homens gays também. Um gay americano liberal expressou isso assim: O sexismo também é refletido nos papeis que os homossexuais copiaram da sociedade heterossexual. Os rótulos podem divergir, mas é a mesma situação desigual, desde que os papeis são definidos rigidamente, desde que uma pessoa exerce poder sobre a outra. Para os heterossexuais é macho-fêmea, mestre/senhora. Para os gays é butch/femme, agressivo/passivo. E o extremo, em ambos os casos, é sadista-masoquista. O ser humano torna-se objeto, tratado como propriedade, como se uma pessoa pudesse pertencer à outra. (Diaman 1992: 263) Um ativista gay liberal britânico escreveu: ‘Nós viemos sendo forçados a jogar com os papeis baseados na sociedade heterossexual, butch e femme, ‘’casamentos’’ nucleares, permanece entre os relacionamentos a mesma opressão que a sociedade de fora tem com suas mulheres’ (Walter 1980: 59). Outro escrito: ‘Jogar em papeis em uma sociedade que demanda definições de gênero, papeis sexuais, masculino versus feminino – o que nós podemos fazer, nós que a sociedade recusa e condena como metade-homem? Muitas vezes nós reagimos dramatizando’ (p. 87). Nos anos da liberação gay, nenhum argumento dizia que assumir um papel era uma ‘autêntica’ e singular experiência lésbica e gay, como aconteceu nos anos 80 e 90 (Davis e Kennedy 1991). Não havia vergonha em aceitar que gays estavam envolvidos em imitar heterossexuais quando embarcavam em um papel. Gays eram entendidos como construídos pelos papeis da sociedade heterossexual também. Carl Wittman da Comunidade Americana de Liberação Gay diz: Nós somos crianças da sociedade heterossexual. Nós continuamos pensando heterossexual; isso é parte de nossa opressão. Um dos piores conceitos da heterossexualidade é desigualdade… macho/fêmea, em cima/embaixo, cônjuge/não cônjuge, heterossexual/homossexual, patrão/funcionário, branco/preto e rico/pobre… Por muito tempo nós imitamos esses papeis para nos protegermos – um mecanismo de sobrevivência. Agora estamos nos tornando livres o suficiente para verter os papeis que nós escolhemos das instituições que nos impressionaram. (Wittman 1992 333) Um grupo de mulheres que formaram parte da liberação gay nos Estados Unidos, o Baile Gay Revolucionário das Mulheres de Caucus, rejeitaram firmemente a ideia de assumir papeis de sexo para lésbicas, pois isso não traria vantagens para elas. Embora nenhuma de nós tenha sido educada na conduta de relações de papeis igualitários, lésbicas podem chegar perto dessa conquista mais que os outros porque nenhum dos papeis de sexo educa todos para receber ajuda para fazer seu relacionamento funcionar. Assumir papeis levam elas a lugar nenhum, porque ‘’butch’’ não traz nada da recompensa masculina sexual, social ou econômica enquanto a ‘’fêmea’’ não possui um homem para trazer ao lar o salário do homem ou para proteger ela do ataque de outros homens. (Baile Gay Revolucionário das Mulheres de Caucus 1992: 180). Tais sentimentos, daqueles que viram a si mesmos no tempo como a vanguarda da política gay ficaram em forte contraste com a atitude das lésbicas assumindo papeis que desenvolveram depois em algumas áreas da comunidade lésbica. No fim dos anos 80 e 90 escritoras lésbicas como Joan Nestle (1987) construíram consideráveis reputações celebrando e romantizando o assumir de papeis como a mais autentica forma de lesbianismo. Enquanto que na liberação gay a resposta para os papeis era derrubá-las, nas ultimas décadas os papeis foram pegos, polidos e repregados pelo propósito da excitação sexual (Munt 1998; Halberstam 1998a; Newman 1995). Outra corrente comum entre a liberação gay e a liberação de mulheres nesse tempo foi o desafio do casamento e a família nuclear. O casamento era considerado como sendo um contrato de exploração e dominação masculina, o qual necessitava precisamente de ‘papeis de sexo’ os quais tendiam a ser muito opressivos. Tão fundamental era a oposição ao casamento que foi enfatizada por Jill Tweedie, um influente colunista Guardian de opinião, em um trecho positivo sobre a liberação gay: ‘Lib Gay não pleiteia o direito de homossexuais se casarem. Lib Gay questiona o casamento’ (citado em Power 1995: 64). Dois aspectos da teorização da liberação gay distinguiam ela drasticamente da política queer. Um é o entendimento que a opressão do homem gay vem da opressão da mulher. O outro é que muitas formas do comportamento do homem gay, que hoje são louvados pela política queer, são resultado da opressão aos gays, e que não podia ter um fim sem ter fim a opressão à mulher. Formas de comportamento que historicamente foi parte do comportamento do homem que fazia sexo com homens como sexo casual e efeminação, foram vistas por ativistas FLG como resultado opressão ao invés de uma forma inevitável e autêntica do comportamento gay. O entusiasmo político original durou apenas alguns anos no Reino Unido e nos Estados Unidos. No Reino Unido alguns homens retornaram a práticas que eles criticaram quando a liberação gay estava em seu apogeu, tal como sexo casual (Shiers 1980). Agora a comunidade gay existe como um mercado, o novo negócio gay se envolveu com a exploração do homem gay do mesmo modo que os heterossexuais e o negócio da máfia fez em tempos passados: o capitalismo gay nasceu. A masculinidade gay tornou-se moderna, enquanto a política de liberação gay afastou-se da masculinidade como o comportamento da dominação masculina (Humphries 1985). A política ativista dos direitos gays igualitários começou a se desenvolver, alguns gays liberais viram como desradicalização e enfraquecimento do movimento por mudança social radical. Por que, então, o desafio radical da liberação gay não foi mantido?  Por que a liberação gay falhou? John D’Emilio, no novo prefácio da reedição da coleção americana de escritos FLG, Fora dos Closets, argumentou que a liberação gay foi suplantada por um ativismo por direitos gays mais mainstream no fim dos anos 70. Esse novo movimento por direitos gays se viu entre outros movimentos de liberação trabalhando por mudança social fundamental. A agenda era mais estreita e comprada pela política liberal de direitos iguais. Conforme os anos 70 avançavam, o movimento gay e lésbico começou a viajar por muitos caminhos diferentes. Um deles pode ser rotulado um movimento por direitos gays. Composto na maioria por homens gays, brancos e da classe média, além de algumas lésbicas e pessoas de cor também, essa reforma política orientada focou apenas nas questões gays e abandonaram largamente a análise ampla da opressão que animou a liberação gay. Esses ativistas, muitos dos quais eram muito militantes nas práticas usadas, solicitando entrada no sistema em termos de igualdade. (D’Emilio 1992: p. xxv). Particularmente, D’Emilio argumenta, que os ativistas por direitos iguais perderam o entendimento da liberação gay que a opressão dos gays é resultado do sexismo, portanto os homens gays precisavam lutar contra o sexismo ao lado das mulheres. ‘Diferente do homem gay em Fora dos Closets, que viu o sexismo como a raiz da opressão do homem gay, agora o sexismo é percebido como sendo sobre ‘’eles’’ (p. xxvi). Ativistas pelos direitos gays, explica D’Emilio, também perderam o entendimento da liberação gay que a homossexualidade, como a heterossexualidade, era socialmente construída. Identidades gays e lésbicas, ele diz, chegam para serem vistas outra vez, como no período pré-Stonewall, como ‘identidades fixas, determinadas cedo na vida (se não no nascimento), mas natural, boa, e saudável ao invés de anormal, má ou doentia’ (p. xxvi). Mas D’Emilio é crítico da amplitude da crítica social engajada dos gays liberais. Ele vê o radicalismo da agenda deles como sendo uma das razões pela falha. Ele tomou os argumentos feitos por libertários sexuais nos anos 80 e 90 que gays liberais, como feministas radicais que eram similarmente atacadas, eram, em suas palavras, ‘eram moralistas e condescendentes’. Em seus ataques aos ‘papeis, sexo anônimo, objetificação e cultura de bar, terminaram construindo uma política sexual prescritiva… Eles oscilaram na borda de começar uma nova esquadra viciosa’ (p. xxvii). É interessante ver o quão perto essas acusações estavam daquele arremesso em feministas radicais no então chamado debates feministas de sexualidade dos anos 80 (Vance 1984). Nesses ‘debates’ feministas radicais críticas da pornografia e da prostituição foram também atacadas por serem de direita e moralistas. Enquanto nas comunidades e políticas gays masculinas não havia debates violentos, e o entendimento da liberação gay simplesmente murchou, entre lésbicas e feministas a batalha para vencer a crítica feminista radical era furiosa (veja a discussão desses ‘debates’ em Jeffreys 1990a). D’Emilio diz que o problema dos gays liberais era que eles tinham uma ‘ingenuidade sobre as dinâmicas do desejo sexual, uma mudança foi assumida mais fácil do que era’ (D’Emilio 1992: p. xxviii). Ele permanece crítico do liberalismo sexual que substituiu a crítica da liberação gay: ‘Porém, reagindo contra isso, frequentemente era visto como se nós houvéssemos desistido de qualquer possibilidade de pensar criticamente sobre a sexualidade. Nossa política sexual frequentemente se reduz a uma campanha contra proibições’ (p. xxviii). Mas ele parece muito cansado e muito desiludido para tentar manter a crítica da construção da sexualidade que era tão vital nos anos anteriores. ‘Em uma cultura aonde a sexualidade veio para definir a verdade sobre o ser e onde o desejo sexual parece confinante com o que nós somos talvez isso seja muito divisível, muito volátil, para sujeitar algo tão pessoal à pesquisa política’ (p. xxviii). Essa resignação se torna menos fácil para ativistas feministas, desde que a mulher que sofre diretamente com o exercício da sexualidade masculina construída em torno da objetificação e da agressão, na forma de estupro, assassinato, perseguição sexual, pornografia e prostituição. A resignação de D’Emilio é uma luxúria que nós que continuamos procurando um fim para a violência masculina não podemos permitir. Karla Jay e Allan Young, na nova introdução da coleção Fora dos Closets, explicam que abandonaram seus sonhos de revolução por serem simplesmente impraticáveis, porque eles não possuíam apelo popular suficiente. Como nossa contrapartida heterossexual na Nova Esquerda nós enfatuamos pelo slogan ‘’Revolução em nossa vida’’. Mas nós esquecemos o fato que tais objetivos vastos tiveram um significado pequeno para as grandes massas da população americana – ainda mais americanos gays e lésbicas – sobrecarregados como estavam com trabalhos, lares, crianças e outras responsabilidades. Quanto a insistência em vincular o pessoal e o político, isso pode ser muito recompensador, e serve como terapia barata para muitos mas é uma aplicação extrema fazer a vida mais difícil. (Jay e Young 1992: p. xxxvii)Eles perguntam ‘Então, qual a liberação gay ‘’real’’? essa é a assimilação das pessoas gays em cada ponto da fábrica de existência da vida americana? Ou esse é o movimento revolucionário total que motivou os escritores de Fora dos Closets?’ (p. xliv). Um desenvolvimento que provavelmente apressou o abandono das impressões feministas por muitos gays ativistas na retirada de lésbicas em grande escala da liberação gay, em ordem para concentrar suas energias no feminismo lésbico. Lésbicas veem sendo sempre uma minoria na liberação gay, e no Reino Unido uma minoria ainda menor. A retirada delas nos Estados Unidos, Reino Unido e Austrália foi ocasionada pelo desenvolvimento da força do feminismo, que levou as lésbicas a concentrarem em seus interesses como mulheres, e serem sensitivas ao sexismo dos colegas homens. Uma questão que foi uma fonte de sério cisma entre homens e mulheres na liberação gay foi a prática sexual. Denise Thompson descreve o desencantamento das lésbicas na Austrália deste modo: ‘O modelo de ‘’liberdade sexual’’ esposada pela liberação gay foi e permanece sendo intransigentemente masculina – fodendo por foder, estimulação erótica confinada aos genitais e algumas zonas erógenas selecionadas, sexo anônimo nas batidas (baladas públicas), bares, clubes e casas de banho’ (Thompson 1985: 70). Gregg Blatchford da Liberação Gay de Sidney reflete na misoginia casual o que nós chamamos ‘subcultura homossexual’ deste modo: Mulheres são frequentemente remetidas aos seus órgãos sexuais; ‘ish’ é um termo comum para uma mulher e ‘cunty’ é usado como um adjetivo referindo a algo que possui as qualidades de uma mulher. O termo depreciativo ‘bruxa cansada’ é usado para descrever uma mulher que aprecia a companhia de homens gays. Além dessas expressões gays masculinas particulares, a maioria se refere às mulheres similarmente ao jeito que o homem heterossexual pode ser visto respondendo a uma mulher: ‘vaca’, ‘mulher velha’, ‘covarde’, ‘azeda’, ‘ordinária’, ‘purificadora’. (Citado em Thompson 1985: 56) Homens na liberação gay tiveram que fazer um esforço para superar esse elemento na cultura gay, e nem sempre foi bem sucedido. A maioria das lésbicas envolvidas na Liberação Gay no Reino Unido saíram em massa. Como Nettie Pollard, uma das que ficaram, descreveu: ‘Quatro ou cinco de nós ficaram e o resto, trinta ou mais, saíram’ (Power 1995: 241). Lisa Power ofereceu muitas explicações. Para sua história oral da FLG de Londres ela entrevistou homens e mulheres que se envolveram na liberação gay no começo dos anos 70. Um homem, Tim Clark, explicou que os homens eram unidos por toda a atividade sexual que teve lugar entre eles. ‘E em geral eles eram excluídos do sexo em massa que os homens estavam fazendo, que agiu como uma ligação’ (p. 240). Uma entrevistada lésbica apoiou a ideia que homens e mulheres são divididos pelas determinações dos homens para ver a prática sexual deles como a maior coisa da liberação: ‘O que causou problemas entre homens e mulheres foi que muitos homens queriam conversar sobre cottaging [sexo em banheiros públicos] nos encontros’ (Carla Toney, citado em Power 1995: 242). Outro assunto que enfureceu as lésbicas foi a adoção do drag de alguns homens na liberação gay. O entendimento que papeis de sexo estavam na raiz da opressão de mulheres e gays foi algumas vezes expressada por homens gays de formas que ativistas lésbicas acharam preocupantes. No Reino Unido, por exemplo, alguns homens gays liberais escolheram vestir túnicas no underground, na rua, e na vida cotidiana. Eles escolheram empenhar práticas femininas, incluindo união, encontros duradouros. As lésbicas presentes estavam longe de usar túnicas, e algumas achavam essa imitação dos estereótipos das mulheres ofensiva. Como explica Power: ‘Drag… Cada vez mais aumentavam a raiva de muitas mulheres FLG que não viam isso como homens quebrando suas próprias inibições e machismo, mas como uma ridicularização das mulheres tradicionais’ (p. 242). Um homem ex-FLG deu a Power uma descrição gráfica do que essa ridicularização implicava. De um FLG descrevendo uma drag queen: ‘possui esse vestido branco com duas divisões e nós não temos calças e estamos mostrando isso tudo… As mulheres têm calças’ (Harry Beck, citado em Power 1995: 242). Mary McIntosh, a socióloga lésbica, que também se envolveu na FLG, explicou: ‘Eu me lembro de uma Esfera onde alguns homens estão se vestindo como uma drag radicalmente zombeteira e outros estão fazendo um strip-tease. Nada disso tinha sido pensado’ (Mary McIntosh, citado em Power 1995: 243). A mulher FLG estava sob pressão para aceitar pré- operativos transexuais macho-para-fêmea como mulheres e permitir eles dentro do grupo de mulheres’, porque ‘pode haver dez transexuais e umas vinte mulheres’, e ‘Algumas das mulheres sentiam que essas pessoas possuíam atitudes muito masculinas e eram muito protegidas por mulheres e tentavam roubar a opressão das mulheres enquanto não às davam sua picada poderosa’ (Power 1995: 244). Mas os homens drags consideravam que a masculinidade era o papel de sexo que necessitava mudança, e com essas imitações das roupas das mulheres tradicionais eles estavam ajudando a destruir a masculinidade. Eles fizeram o que hoje seria chamado ‘gênero como performance’ (Butler 1990) de um modo muito direto e politicamente motivado. O que foi ausente na liberação gay foi qualquer ‘performance’ de masculinidade por homens ou mulheres como uma coisa boa. Masculinidade foi entendida geralmente como problemática. Isso mudou no fim dos anos 70 e no começo dos anos 80 quando a masculinidade gay, na forma de sadomasoquismo e outras manifestações, como o grupo Village People, se tornou moderna outra vez. A lésbica americana Del Martin, quando se despedindo da liberação gay em favor da liberação de mulheres, descreveu a si mesma como ‘grávida com raiva’ como ela amargamente denunciou uma ‘irmandade’ que se preocupava com bares, acampamentos, pornografia, drag e assumir papeis que resultavam em homossexuais se tornando ‘estoque de risadas’ do público’ (citado em Heller 1997: 7). Dois stalwarts da FLG do Reino Unido escreveram um panfleto em apoio ao manifesto das mulheres e endereçando à liberação gay masculina. Ele acusou a liberação gay de ter degenerado em um simples ativismo gay no qual ‘homens gays procurando completo compartilhamento dos privilégios masculinos’ lutando por uma igualdade social com homens heterossexuais enquanto a supremacia masculina permanece no lugar. Eles pareciam ter um entendimento muito bom das preocupações das mulheres. Aos olhos deles, um homem gay é simplesmente quem gosta de fazer sexo com homens e onde eles estavam com a cabeça era muito visível de uma olhada na literatura deles, cheia de pênis bojudos, motocicletas e músculos, exatamente os símbolos da supremacia masculina e da opressão da mulher, apoiando o sistema de papeis de gênero que é a base da própria opressão deles. (David Fernbach e Aubrey Walters, citado em Power 1995: 24).Considerando o culto da masculinidade tão disseminado dentro da cultura gay através de clubes de couro e sadomasoquismo pelos próximos trinta anos, o argumento deles parecia presciente.  Feminismo Lésbico O Movimento de Liberação das Mulheres teve início no Reino Unido e nos Estados Unidos no fim dos anos 60 que estava cheio de lésbicas (veja Abbott and Love 1972). Mas essas lésbicas não eram imediatamente capazes de colocar suas preocupações na agenda do movimento. Betty Friedan, referência famosa para a política lésbica na Organização Nacional da Mulher nos Estados Unidos como a ‘lavender herring’ (Abbott and Love 1972). O feminismo lésbico surgiu como o resultado de dois desenvolvimentos: lésbicas dentro do WLM começaram a criar uma nova e distinta política de feminismo lésbico, e lésbicas na FLG abandonaram e se uniram a suas irmãs. Desde os anos 50 no Reino Unido e Estados Unidos haviam organizações lésbicas que eram determinadamente separadas de organizações de homens, que identificavam seus próprios objetivos separadamente da dominação dos interesses masculinos e criticaram o sexismo de grupos de homens gays (veja D’Emilio 1998). Uma dessas primeiras organizadoras, como Phyllis Martin e Del Lyon do Filhas de Bilitis nos Estados Unidos se tornaram ativistas influentes e teoristas no novo movimento. O feminismo lésbico começou no entendimento que interesses de lésbicas e de homens gays são em diversos aspectos muito diferentes, porque lésbicas são membros da classe política das mulheres. Então, a liberação de mulheres requer a destruição do poder dos homens sob as mulheres. Não é possível descrever aqui a política e prática do feminismo lésbico em cada detalhe. Eu não poderia fazer justiça a todos os grupos, ativistas e ideias. É importante, entretanto, descrever os princípios que inspiraram o feminismo lésbico no começo, e o que distinguiu isso das formas de política subsequentes que as lésbicas adotaram, particularmente na política queer. Os princípios do feminismo lésbico, os quais distinguem ele muito claramente da política queer de hoje, são o amor entre mulheres; organização separatista, comunidade e ideias; a ideia do lesbianismo é sobre escolha e resistência; a ideia que o pessoal é político; a rejeição da hierarquia na forma de assumir papeis e sadomasoquismo; uma crítica da sexualidade da supremacia masculina que erotiza a desigualdade.  Amor entre mulheres A base do feminismo lésbico, como o feminismo radical desse período, era o amor entre mulheres. Lésbicas feministas entendiam o amor entre mulheres como fundamental para o feminismo. Como Charlotte Bunch expressou em 1972: ‘Nós dizemos que uma lésbica é uma mulher cujo senso do ser e energias, incluindo energias sexuais, centram em torno de mulheres – ela é identificada como mulher. A mulher identificada mulher entrega-se a outra mulher por apoio político, emocional, psíquico e econômico. Mulheres são importantes para ela. Ela é importante para ela mesma (Bunch 2000: 332). Como filósofas feministas pontuaram, a supremacia filosófica e cultural masculina é hostil ao amor entre mulheres e amizade entre mulheres. Janice Raymond explica, ‘Em uma sociedade que odeia mulheres virou tabu na medida em que há mulheres que odeiam a si mesmas’ (Raymond 1986: 6). A criação do amor entre mulheres foi uma tarefa necessária para a própria sobrevivência do feminismo. Se as mulheres não amarem a si mesmas e a outras mulheres, então elas não terão base na qual se identificar e rejeitar atrocidades contra mulheres. Para um movimento feminista a solidariedade do oprimido foi uma base necessária para a organização. Mas o amor entre mulheres foi sempre visto como constituinte de nada mais que uma versão de mulheres da camaradagem. Raymond inventou o termo ‘Gyn/afeição’ para descrever o amor entre mulheres que é a fundação do feminismo. Gyn/afeição ‘conota a paixão que mulheres têm por mulheres, ou seja, a experiência de profunda atração pelo profundo e vital Ser e o movimento para outra mulher vital’ (p. 7). A política feminista precisava ser ‘baseada na amizade… Assim, o significado básico de Gyn/afeição é que o afeto de mulheres move, agita e desperta a outra para o poder completo’ (p. 9). Para muitas feministas a conclusão óbvia do amor entre mulheres era o lesbianismo (Radicalésbicas 1999). Raymond explica que embora seu conceito de Gyn/afeição seja não se limite ao lesbianismo, ela não entende porque alguma mulher que ama mulheres pararia o lesbianismo. Se a Gyn/afeição abraça a totalidade da existência de uma mulher por seu Ser e por outras mulheres, se a Gyn/afeição significa colocar um Ser vital e outras mulheres primeiro, e se a Gyn/afeição é um movimento para outras mulheres, então muitas mulheres podem esperar que mulheres que são Gyn/afetuosa ou Gyn/afetiva sejam lésbicas… Eu não entendo porque Gyn/afeição não se traduz em amor Lésbico para muitas mulheres. (Raymond 1986: 14). A ligação de mulheres que são amantes de mulheres ou Gyn/afeição é muito diferente da ligação masculina. A ligação masculina tem sido a cola da dominação masculina. Isso tem sido baseado no reconhecimento da diferença que os homens veem entre eles e as mulheres, e essa é uma forma de comportamento, masculinidade, que cria e mantem o poder masculino. Mary Daly caracterizou a ligação entre a mulher que ama mulheres como ‘ligação (viver amando) biofílica’, para distinguir isso de outras formas de ligações na ‘sadosociedade’ de dominação masculina. Ela enfatiza a diferença: ‘ligação, como é aplicada às Bruxas/Harpias/Furiosas/Velhas é completamente Outra da ‘’ligação masculina’’ assim como as Bruxas são as Outras em relação ao patriarcado. A camaradagem/ligação masculina depende da energia drenada das mulheres’ (Daly 1979: 319). Marilyn Frye, a lésbica filósofa americana, em seu ensaio sobre as diferenças entre políticas de homens gays e de lésbicas vê a homossexualidade masculina como o apogeu da ligação masculina que forma o cimento da supremacia masculina. A ligação de lésbicas feministas, entretanto, é herética: ‘Se amar homens é a lei da cultura falocrática, como eu penso que é, e se, por isso, o erotismo masculino homossexual é compulsório, então homens gays deveriam ser numerados entre os fieis ou os cidadãos fieis e cumpridores das leis, e feministas lésbicas são pecadoras e criminosas ou, se percebidas politicamente, revoltadas e traidoras’ (Frye 1983: 135-6). A mulher que ama mulheres não sobrevive bem na política queer de dominação masculina. Em um movimento misto os recursos, influência e um completo número de homens dá a eles o poder para criar normais culturais. Como resultado, algumas lésbicas se tornam tão desencantadas com seu lesbianismo, e até com sua feminilidade, que havia presentemente centenas, se não milhares, de lésbicas no Reino Unido e nos Estados Unidos que haviam ‘transitado’ – adotado a identidade não apenas de homens, mas de homens gays com a ajuda da testosterona e operações mutiladoras (Devor 1999).

Renunciando à Igualdade Sexual – Capítulo 2 de “Our Blood”, Andrea Dworkin

13-jan-15

Renunciando a “Igualdade” Sexual
Andrea Dworkin

 

Igualdade:

1. a condição de ser igual; equivalência em quantidade, grau, valor,
categoria, habilidade, etc. 2. uniformidade de papel tanto em relação a inclinações quanto aparência

Liberdade:
1. a condição de estar em liberdade e não em confinamento ou sob restrição física…
2. libertação de controle externo, interferência, regulação e etc.
3. poder de determinar suas próprias ações… 4. Philos. o poder de fazer suas próprias escolhas e decisões sem a coerção de algo ou alguém; autonomia, auto­determinação…
5. liberdade civil como oposição a submissão a um governo
déspota ou arbitrário. 6. independência política ou nacional…
8. liberdade pessoal como oposição ao cativeiro ou escravidão.

­Sinônimo.

LIBERTAÇÃO, INDEPENDÊNCIA, LIBERDADE se refere a inexistência de restrições indevidas e a oportunidade de exercer direitos, poderes, desejos e vontades… INDEPENDÊNCIA não implica somente na falta de restrições, mas também na habilidade de se manter sem ser sustentado por outra pessoa.

­Antônimo. 1­3. repressão. 5,6,8. opressão.

Justiça:
1. a qualidade de ser justo, honrado ou moralmente correto…
2. retidão ou licitude…
3. o principio moral determinante da conduta justa.
4. concordância com seus princípios, assim como manifestados em sua conduta; conduta, tratamento ou comportamento justos.

The Random House Dictionary of the English Language

 

Em 1970 Kate Millet publicou Sexual Politics. Nesse livro ela provou para muitas de nós ­que passamos nossas vidas negando isso ­ que as relações sexuais, a literatura que retrata essas relações, o sistema econômico que mantem a necessidade dessas relações, e os sistemas religiosos que buscam controlar essas relações são parte da esfera política. Ela nos mostrou que tudo que acontece com uma mulher durante a sua vida, tudo que a toca ou molda, é político.
Mulheres feministas, isto é, mulheres que compreenderam e viram que ela explicava muito sobre suas existências reais e suas experiências reais, tentaram entender, lutar contra e transformar o sistema político chamado de patriarcado, que explora nosso trabalho, pré­determina o domínio de nossos corpos e nos diminui como indivíduos desde o dia em que nascemos. Essa luta não tem dimensão, é abstrata: ela nos tocou em todas as partes da nossa vida. Mas em nenhuma parte ela é mais vívida ou dolorosa do que na parte de nossa humanidade que chamamos de “amor” e “sexo”. No caminho da nossa luta para nos
libertarmos da opressão sistemática um sério argumento se desenvolveu entre nós, e eu quero trazer esse argumento para esse espaço.Algumas de nós se comprometeram em todas as áreas possíveis, até nas que chamamos de “sexo” e “amor” com o objetivo da igualdade, isto é, pela condição de ser igual; corresponder em quantidade, grau, valor, categoria, habilidade e uniformidade de papel tanto em relação a
inclinações quanto aparência. Outras, e eu fico desse lado, não vêem igualdade como um objetivo final adequado, suficiente, bom ou honrado. Nós acreditamos que ser igual onde não há justiça universal e nem liberdade é ser o mesmo que o opressor. É simplesmente ter
alcançado a “uniformidade de papel tanto em relação a inclinações quanto aparência”.
Em nenhum lugar isso fica mais claro que a área da sexualidade. O modelo sexual masculino é baseado na polarização da humanidade em homem/mulher, mestre/escravo, agressor/vítima, ativo/passivo. Esse modelo tem agora milhares de anos de idade. A identidade dos homens, seu poder civil e econômico, as formas de governo que eles desenvolveram e as guerras que financiaram estão irrevogavelmente atadas umas as outras.

Todas as formas de submissão, quer seja homens sobre mulheres, brancos sobre negros, chefe sobre trabalhadores, ricos sobre pobres, estão irrevogavelmente atadas a identidade sexual dos homens e são derivadas do modelo sexual masculino. Uma vez que compreendemos isso, se torna claro que de fato o homem possui o ato sexual, a linguagem
que descreve o sexo, as mulheres que eles objetificam. Os homens escreveram o enredo de cada fantasia sexual que você já teve ou cada ato sexual do qual você já participou.
Não existe liberdade ou justiça em trocar o papel feminino pelo masculino. Isso é, sem dúvida nenhuma, igualdade. Não existe liberdade ou justiça em usar a linguagem masculina, a linguagem do seu opressor, para descrever a sexualidade. Não existe liberdade ou justiça, nem mesmo senso comum, em desenvolver uma sensibilidade sexual masculina ­uma sensibilidade sexual que é agressiva, competitiva, objetificadora, orientada em quantidade.
Acreditar que liberdade ou justiça para mulheres, ou para qualquer mulher como indivíduo, pode ser encontrada na imitação da sexualidade masculina é iludir a si mesma e contribuir pra opressão das nossas irmãs.

Muitas de nós gostam de pensar que nos últimos quatro anos, ou dez anos, nós revertemos, ou pelo menos impedimos, esses hábitos e costumes que vem de milhares de anos atrás os hábitos e costumes da dominação masculina. Não há fato ou imagem que confirme isso.
Você pode se sentir melhor, ou não, mas as estatísticas mostram que as mulheres estão mais pobres que nunca, que estão sendo mais estupradas e mais assassinadas. Eu quero sugerir para vocês que o comprometimento com a igualdade sexual com homens, ou seja, a uniformidade de papel tanto em relação a inclinações quanto parência, é o comprometimento para se tornar o rico em vez do pobre, o estuprador em vez da estuprada, o assassino em vez da assassinada. Eu quero pedir para vocês um comprometimento diferente­ um comprometimento com a abolição da pobreza, do estupro e do assassinato; isso é, um comprometimento com o fim do sistema de opressão chamado patriarcado; para acabar com o modelo sexual masculino. O verdadeiro cerne da visão feminista, seu núcleo revolucionário se assim preferir, tem a ver com a abolição de todos os papeis de gênero­ isso é, uma transformação absoluta da sexualidade humana e das instituições derivadas dela. Nessa tarefa, nenhuma parte do modelo sexual masculino pode ser aplicada. Igualdade dentro do quadro do modelo sexual masculino, não importando quanto esse modelo tenha sido reformado ou modificado, pode somente perpetuar o próprio modelo e a injustiça e a sujeição que são suas consequências intrínsecas.
Eu sugiro a vocês que a transformação do modelo sexual masculino, sob o qual todas nós trabalhamos e “amamos”, começa onde há uma congruência, não uma separação, uma congruência de sentimento e interesse erótico; começa no que sabemos sobre a sexualidade feminina ser diferente da masculina ­ toque e sensibilidade clitoriana, orgasmos múltiplos, sensibilidade erótica por todo o corpo ( que não precisa ­ e não deveria ­ ser localizada ou contida nos genitais ), na ternura, no respeito próprio e absolutamente mútuo. Eu suspeito que para os homens essa transformação começa no lugar que eles mais temem ­ isto é, no seu pênis flácido. Eu acho que os homens vão ter que desistir das sua preciosas ereções e começar a fazer amor como as mulheres fazem juntas.[1] O que estou dizendo é que os homens vão ter que renunciar suas personalidades falocêntricas, seus poderes e privilégios recebidos no dia em que nasceram em consequência da sua anatomia, que eles vão ter que extirpar tudo em si que agora eles valorizam distintivamente como algo masculino. Nenhuma reforma ou equivalência de orgasmos vai realizar isso.
Eu tenho lido extrações do diario de Sophie Tolstoy, que eu achei num belo livro chamado Revelations: Diaries of Women, editado por Mary Jane Moffat e Charlotte Painter. Sophie Tolstoy escreveu:

E a principal coisa é não amar. Veja o que eu fiz por amá-­lo tão profundamente! Isso é tão doloroso e humilhante; mas ele acha que é simplesmente bobeira. “Você diz uma coisa e sempre faz outra” mas qual é a vantagem de argumentar de maneira superior quando tudo que eu tenho em mim é humilhação e temperamento ruim; e essas duas coisas tem sido a causa de todos os meus desfortúnios, já que meu temperamento sempre interferiu no meu amor. Eu não quero nada além do seu amor e da sua compaixão, e ele não vai me dar isso; e todo meu orgulho está pisoteado na lama. Eu não sou nada além de uma miserável minhoca esmagada, que ninguém ama, que ninguém quer, uma criatura inútil com enjôos matinais, uma barriga grande, dois dentes podres, um temperamento ruim, um desgastado senso de dignidade e um amor que ninguém quer e que quase me deixa louca.

Alguém realmente acha que as coisas mudaram tanto assim desde que Sophie Tolstoy fez esse registro em seu diário no dia 25 de Outubro de 1886? E o que você diria pra ela se ela viesse até você hoje? Você teria dado a ela um vibrador e a ensinado como usá-­lo? Você teria ensinado a ela as técnicas de felação que teriam melhor satisfeito o Sr. Tolstoy? Você teria sugerido que sua salvação está em se tornar uma “atleta sexual”? Ensinado a paquerar? Encorajado a ter tantos amantes quanto Leo teve? Você diria a ela para começar a pensar em si mesma como uma “pessoa” e não como uma mulher?
Ou talvez você tivesse encontrado a coragem, o esclarecimento, a convicção para ser verdadeiramente sua irmã ­ para ajuda­la a se libertar da escuridão da sombra de Leo; para se juntar a ela na mudança da organização e contexto desse mundo, que continuava construido em 1974 para servi­lo, para forçar ela a servir a ele?

Eu digo a vocês que Sophie Tolstoy está aqui hoje, no corpo e na vida das suas irmãs. Não falhem com ela.
***

[1] Não sei se todas lésbicas se sentiriam confortáveis com essa frase.

Lesbianismo Político e Separatismo  

13-jan-15

A base do feminismo lesbiano, e também do feminismo radical, é o amor entre as mulheres. Esse é um conceito essencial dentro do feminismo. Seguindo esse conceito, pode-se afirmar que a lésbica é a mulher cuja consciência de si própria e energias (inclusive energias sexuais) são direcionadas às mulheres. Ela se identifica com mulheres, e as procura em busca de apoio emocional, físico, econômico e político. Ela se importa com mulheres, e ela se importa com ela própria. O amor e a amizade entre mulheres são vistos e tratados com hostilidade pela sociedade e cultura supremacista masculina. A amizade feminina foi transformada em um tabu, ao ponto de que há mulheres que repudiam suas semelhantes. Por esse motivo, a sobrevivência do feminismo depende da solidarização entre as mulheres. Se não nos amarmos umas às outras e a nós mesmas, não possuiremos uma base com a qual identificar e rejeitar atrocidades praticadas contra mulheres. Porém, o amor entre as mulheres é mais do que uma versão feminina de camaradagem.
A criação de laços que é o amor entre as mulheres ou ginoafeto como denominado por Janice Raymond, é muito diferente da união entre homens. Esta última tem sido o que mantém a dominação masculina, e está baseada no reconhecimento da diferença que os homens vêem entre eles próprios e as mulheres, e que se fundamenta num conjunto de comportamentos — a masculinidade — que cria e mantém o poder masculino. Mary Daly definiu a união entre mulheres que amam mulheres como sendo biofílica (amor à vida), a fim de distingui-la de outras formas de criação de laços na “sado-sociedade” supremacista masculina. Ela aponta que a camaradagem/união masculina subsiste da energia sugada das mulheres.
A lésbica do feminismo lésbico é diferente da homossexual feminina ou desviante sexual feminina ou a lésbica de movimentos assimilacionistas, e também muito diferente do homem gay da libertação gay. Embora a libertação gay tenha reconhecido que a orientação sexual é construída socialmente, em nenhum momento fazia a sugestão de que a homossexualidade poderia surgir de uma escolha voluntária, a ser feita como uma forma de resistência ao sistema político opressivo. A feminista lésbica encara seu lesbianismo como algo que pode ser escolhido, e como resistência política posta à prática. Os homens da libertação gay costumam dizer “eu tenho orgulho”, enquanto que feministas lésbicas dizem “eu escolho”. Isso não implica que a feminista lésbica tenha escolhido seu lesbianismo de forma consciente. Ela pode ter sido lésbica antes de se identificar como feminista. Mas, independente da forma que uma mulher vivencia o seu lesbianismo, ela se rebelou contra a exigência de tornar-se a mulher dependente do homem, a mulher heterossexual. Essa rebelião impõe um grande risco ao patriarcado.
A ênfase na necessidade de algum grau de separação da política, das instituições e da cultura dos homens é uma das características que distingue o feminismo lésbico de outras modalidades de política lésbica. Tal separação é necessária porque o feminismo lésbico, bem como o feminismo radical, se baseia na noção de que as mulheres vivem, como descrito por Mary Daly, num permanente “estado de atrocidade”. O estado de atrocidade é a condição na qual as mulheres têm sobrevivido às violências e torturas ao longo da história da civilização. Essas violências incluem, por exemplo, a violência doméstica que destrói as vidas das mulheres, abusos, estupros, incesto, a indústria do sexo e o tráfico internacional de mulheres. Essa condição na qual as mulheres vivem é criada e defendida por um sistema de idéias representado pelas religiões do mundo, pela psicanálise, pela pornografia, sexologia, ciência, medicina e pelas ciências sociais. Todos esses sistemas de idéias estão fundados no que Monique Wittig denomina o “pensamento hétero”, ou seja, construídos pela heterossexualidade e sua dinâmica de dominação e submissão. Aos olhos de feministas lésbicas radicais, esse pensamento hétero é universalmente difundido nos sistemas de idéias da supremacia masculina.
A criação de espaços para abrigar uma nova visão do mundo é um dos motivos essenciais para o separatismo lésbico. Lésbicas se organizam para formar seus próprios grupos, espaços, expressões artísticas, etc. Frequentemente, estes espaços são abertos para mulheres em geral, não apenas para lésbicas.
O separatismo lésbico pode assumir duas formas diferentes. Algumas lésbicas buscam criar uma cultura, espaço e comunidade lésbica na qual elas podem viver tão distantes do mundo dominado pelos homens quanto possível. Essa forma de separatismo pode apresentar riscos para a sua ética feminista. Ela pode culminar em uma dissociação do mundo, ao ponto de que o contexto no qual certas práticas e idéias surgiram na supremacia masculina é esquecido, e tudo que uma lésbica faz ou pensa recebe apoio. Portanto, as práticas sadomasoquistas criadas por lésbicas ou papéis sexuais butch/femme, por exemplo, podem parecer práticas lésbicas legítimas, ao invés de serem originárias da dominação masculina. Tais práticas podem aparecer em um espaço de mulheres politicamente dissociado do mundo masculino; no entanto, elas inserem essas mulheres de forma muito eficiente no mundo da sexualidade esquerdista e masculina gay, caracterizado pela erotização da dominação e submissão, da desigualdade.
A segunda forma de separatismo é aquela em que as mulheres continuam vivendo no mundo que os homens criaram ao mesmo tempo em que trabalham por modificá-lo a partir de um espaço construído pela amizade e cultura femininas. Nessa forma de separatismo, ou “separatismo tático”, feministas lésbicas podem desenvolver idéias e práticas mantendo em vista a realidade das vidas da maioria das mulheres. Dessa forma, o sadomasoquismo, por exemplo, deve ser avaliado quanto a suas origens na cultura supremacista masculina, suas implicações na vida das mulheres e se é adequado para a sobrevivência coletiva das mesmas. A base do feminismo lésbico sempre foi uma cultura e instituições feministas lésbicas separatistas.
O feminismo lésbico adotou do feminismo radical o conceito de que “o pessoal é político”, o qual aponta que a hierarquia deve ser eliminada da esfera privada se desejamos que a vida pública mude. Dessa forma, feministas lésbicas rejeitam papéis sexuais e qualquer manifestação de desigualdade em relacionamentos lésbicos. Compreendemos que lésbicas que adotam papéis sexuais estão reproduzindo os padrões nocivos da heterossexualidade que constituem obstáculos para a libertação lésbica. A concepção do futuro pelo feminismo lésbico não consiste em um mundo público de oportunidades oficialmente iguais construído sobre um mundo privado no qual a desigualdade pode ser erotizada e utilizada para a excitação sexual. As esferas pública e privada devem ser parte de um todo comum, moldado para representar uma nova ética.
O feminismo lésbico desenvolveu a noção de que o pessoal é político em uma análise crítica não apenas de alguns aspectos da heterossexualidade, mas da heterossexualidade em si. Nessa análise, a heterossexualidade é vista como uma instituição política e não o resultado da biologia ou da preferência individual. A heterossexualidade deve ser analisada como um sistema político que possui tanta influência e implicações quanto o capitalismo e o sistema de castas. No sistema de castas da heterossexualidade, as mulheres são coagidas a servir aos homens de forma sexual, material e emocional. O seu trabalho é explorado através da sua posição subordinada e justificado pelo amor romântico ou por prerrogativas sociais. O sistema é reforçado pelo que Adrienne Rich chama “invisibilidade lésbica”, violência masculina, pressões familiares, restrições econômicas, o desejo de se adequar e de evitar exclusão e discriminação. Sheila Jeffreys sugeriu que o termo “heterossexual” seja utilizado para denominar práticas sexuais que surgem do poder masculino e da submissão feminina e erotizam diferenças de poder, e que o termo “homossexual” seja utilizado para definir o desejo que erotiza a igualdade.
A criação de uma sexualidade da igualdade em oposição à sexualidade da supremacia masculina, que erotiza a dominância e a subordinação, é crucial dentro do feminismo lésbico. A sexualidade na supremacia masculina é construída por via da opressão de mulheres e possui a função essencial mantê-la. A sexualidade é socialmente construída para homens a partir de sua posição de dominação, e para mulheres a partir de sua posição de subordinação. Dessa forma, a desigualdade erotizada das mulheres é o que constitui a excitação do sexo na supremacia masculina. Consequentemente, a sexualidade masculina comumente assume a forma de agressão, dominação, objetificação, a separação do ato sexual e emoção e o foco do sexo inteiramente direcionado ao intercurso e à penetração do pênis no corpo da mulher. A sexualidade feminina assume a forma de prazer na sua posição subordinada, e a erotização da dominação do homem. Esse sistema não se demonstra eficiente. Por este motivo, uma legião de sexólogos e colunistas de dicas sexuais buscam incentivar, treinar e chantagear mulheres para que tenham orgasmos, ou ao menos entusiasmo sexual, no intercurso com homens. Feministas lésbicas identificaram o fracasso das mulheres em obter esse prazer (menos de 30% das mulheres heterossexuais relatam ter orgasmos freqüentes durante o coito) como resistência política, o que pode ser interpretado por “autoridades do sexo” como uma “ameaça à civilização”.
A construção da sexualidade ao redor da erotização da subordinação das mulheres e da dominação dos homens é problemática por outras razões, visto que ela sustenta a violência sexual masculina em suas diversas formas e cria a prerrogativa sexual dos homens de utilizar as mulheres, que se dissociam para sobreviver, na indústria do sexo, da prostituição e da pornografia. Por isso, feministas lésbicas e radicais compreendem que a sexualidade deve mudar. A sexualidade que torna excitante a opressão das mulheres é radicalmente contrária a qualquer movimento de mulheres em busca de libertação. Somente uma sexualidade igualitária é condizente com a ética feminista e a liberdade das mulheres.Isabelle Moreira

Feminilidade, Heterossexualidade e a Síndrome de Estocolmo

13-jan-15

Este texto propõe que a criação de vínculos das mulheres com homens, bem como a “feminilidade” e a heterossexualidade, são reações paradoxais às violências dos homens contra elas. Como já foi argumentado anteriormente em análises feministas, compreendemos que as mulheres sofrem coletivamente da Síndrome de Estocolmo – a criação de vínculos de um refém com seus captores – como resultado do seu medo constante de serem assediadas verbalmente, sexualmente e fisicamente, bem como restringidas economicamente pelos homens. Da mesma forma que captores que precisam matar ou ao menos ferir alguns reféns a fim de obter o que querem, os homens aterrorizam as mulheres para alcançarem o seu objetivo – a obtenção dos seus serviços sexuais, emocionais, domésticos e reprodutivos contínuos. Como reféns que se esforçam para acalmar seus captores a fim que de não sofram maiores violências e não sejam mortos, as mulheres se esforçam para agradar os homens, e dessa reação surge a “feminilidade”: a sua aparente subserviência, docilidade e auto-sacrifício. Dessa maneira, compreende-se que a feminilidade é um mecanismo adaptativo e um guia para as mulheres de como sobreviver aos abusos e ameaças dos homens, buscando conquistá-los. A teoria da Síndrome de Estocolmo Social aponta que esta se manifesta em todas as relações opressor-oprimido.

Embora essa análise seja emocionalmente perturbadora, ela pode proporcionar um melhor entendimento do mundo ao expor a relação entre fenômenos aparentemente díspares. Por exemplo, a teoria da Síndrome de Estocolmo pode explicar por que tantas mulheres rejeitam o próprio feminismo, que expõe os pontos de vista das mulheres e busca a libertação feminina; por que mulheres se esforçam tanto para se ligar aos homens quando seria muito mais fácil obter o que precisam de vínculos com outras mulheres; por que as mulheres amam os homens em face de sua violência contra nós.

A Síndrome de Estocolmo

Primeiramente, é importante ressaltar que, para que a Síndrome de Estocolmo seja desenvolvida, a vítima deve ter sua sobrevivência como seu objetivo principal.

Observando que a síndrome se desenvolve em um contexto de limitação da liberdade e desesperança, Soskis and Ochberg (1982) enfatizam que o objetivo do desenvolvimento da síndrome é criar esperança em uma situação onde, de outra forma, esta seria inexistente. Visto que o captor é a fonte dessa esperança, o refém sente-se grato a ele. Um consenso entre os especialistas é o de que o terror incutido no refém pelo captor cria sentimentos de absoluta dependência e desamparo nas vítimas.

A natureza aparentemente difundida desse fenômeno sugere que a criação de vínculo com o abusador (Síndrome de Estocolmo) é instintiva e desempenha uma função de sobrevivência para vítimas de abuso crônico.

A Síndrome de Estocolmo se desenvolve sob as seguintes condições:

  1. A percepção de ameaça à sobrevivência da vítima, e a convicção de que o captor pode levar a ameaça a termo.
  2. A percepção da impossibilidade de escapar.
  3. A percepção por parte da vítima de alguma pequena gentileza do captor em um contexto de terror.
  4. Isolamento de perspectivas que não as do captor.

Graham (1994) propôs estas quatro condições (percepção de ameaça à sobrevivência, gentileza, impossibilidade de escapar e isolamento) como precursoras da Síndrome de Estocolmo; um conjunto psicodinâmico para vítimas da síndrome; e sessenta e seis aspectos potenciais da Síndrome de Estocolmo, nove dos quais são vistos como indicadores-chave.

Vale notar que três dos quatro precursores da síndrome (a percepção de ameaça à sobrevivência, impossibilidade de escapar e gentileza) dizem respeito às percepções da vítima, e não às condições objetivas do ambiente em que ela se encontra.

Os seguintes indicadores-chave e distorções cognitivas se apresentam na Síndrome de Estocolmo como um contínuo em intensidades variáveis:

  • A vítima apresenta sintomas traumáticos ou Síndrome do Stress Pós-Traumático.
  • A vítima cria um vínculo com o captor.
  • A vítima sente uma gratidão intensa por pequenas gentilezas demonstradas pelo captor.
  • A vítima nega a violência e/ou as ameaças de violência do captor quando ocorrem, ou racionaliza a violência. A vítima nega sua raiva do captor a si própria, ao captor e a terceiros.
  • A vítima demonstra hipersensibilidade às necessidades do captor e procura mantê-lo feliz (a fim de aumentar as chances do captor deixá-la viver). Para tal, a vítima tenta “entrar na mente” do captor.
  • A vítima vê o mundo a partir da perspectiva do captor e vivencia sua identidade através dos olhos do captor.
  • A vítima enxerga as autoridades (polícia tentando resgatá-la, por exemplo) como os “malvados”, e o captor como o “bonzinho”. Ela enxerga o captor como estando a protegê-la.
  • A vítima tem dificuldades psicológicas em “deixar” o captor até mesmo depois de ser libertada.
  • A vítima teme que o captor volte para “pegá-la” mesmo depois que ele tenha morrido ou esteja preso. Ela evita ter pensamentos desleais em relação ao captor temendo retaliação.

As distorções cognitivas desempenham três funções principais. Elas ajudam a evitar que a vítima seja dominada pelo terror, o que a tornaria incapaz de fazer o que é preciso para aumentar suas chances de sobreviver. A atribuição errônea de que a excitação e hipervigilância da vítima são devidas a amor e não terror cria um vínculo entre ela e seu abusador, bem como esperança para a vítima. Quando a vítima define a relação como uma de carinho, é fácil para o abusador fazer o mesmo. Obviamente, essas distorções cognitivas estão a serviço da sobrevivência: elas reduzem o terror, criam a esperança de escapar por via da conquista do abusador, e facilitam a criação de um vínculo entre o abusador e a vítima e, portanto, aumentam as chances de sobrevivência da vítima.

Devemos ressaltar que as pessoas que desenvolvem a síndrome não o fazem porque possuem um desvio de personalidade ou uma personalidade fraca, ou então porque foram abusadas anteriormente, ou porque foram socializadas dessa forma. A síndrome é uma reação universal a uma ameaça à sobrevivência sem perspectiva de libertação. Ademais, as vítimas com a síndrome não permanecem com o abusador porque criaram um vínculo com ele – pelo contrário, elas criam vínculo com o abusador porque não vêem nenhuma forma de escapar. Esse vínculo é particularmente provável de ser desenvolvido se a pessoa que proporciona o alívio emocional é o abusador, visto que “gentilezas” do abusador criam a esperança de que o abuso terminará.

Uma pessoa cuja sobrevivência está ameaçada percebe uma gentileza de forma diferente de uma pessoa cuja sobrevivência não está sob ameaça. Por exemplo, uma pequena gentileza – que não seria sequer percebida em condições de segurança – parece imensa sob condições de ameaça e/ou debilitação.

Com a percepção de gentileza e esperança, as vítimas negam quaisquer sentimentos de perigo, terror e raiva que o abusador cria nelas. Tal negação permite que a vítima crie um vínculo com o lado “positivo” do abusador.

As vítimas inconscientemente procuram ver o mundo da mesma forma que o abusador, pois apenas assim elas podem antecipar o que devem fazer para deixar o abusador feliz e para que ele seja “gentil” com elas.

As distorções cognitivas proporcionam para as vítimas uma interpretação acerca de seu próprio comportamento. O conteúdo das distorções traz um significado para as vítimas sobre seu comportamento, e as ajuda a acreditar que estão no controle.

Vários mecanismos também dificultam a separação psicológica do abusador após um período de cativeiro prolongado. Viver sem o abusador e, portanto, sem aquela consciência de si própria, impõe à vítima uma ameaça à sua sobrevivência psíquica. A perda de seu único “amigo” e da sua identidade como vista através dos olhos do abusador requer que a vítima se aventure pelo temível desconhecido, o que é difícil até mesmo para pessoas em ambientes normais. Isso é bem mais difícil para alguém cuja sobrevivência depende dos frágeis sentimentos de antecipação e “controle” produzidos por distorções cognitivas e os caprichos de um terrorista.

Os sentimentos da vítima de que o abusador pode retornar para “pegá-la” em algum momento, e de que dessa vez o abusador pode não ser tão bom (não deixá-la viver), também fazem com que a vítima se mantenha leal ao abusador por muito tempo depois que o cativeiro tenha terminado.

Visto que manter uma distorção cognitiva requer muito desgaste psicológico, o grande número de distorções utilizadas a fim de reduzir o terror não deve ser desconsiderado: esse número sugere que a redução do terror é muito importante para a sobrevivência e para lidar com abusos contínuos. Várias distorções também ajudam a vítima a acreditar que possui algum controle sobre o abuso.

A vítima com frequência racionaliza o abuso ao se culpar pelo ocorrido, acreditando que pode controlá-lo e também quando é abusada. Mas por que ela se culparia por seu abuso? Há pelo menos duas razões: (1) A fim de garantir a sobrevivência, a vítima adota a perspectiva do abusador, e esse acredita ter uma justificativa para abusá-la; (2) Se a vítima se culpa pelo ocorrido, ela então acredita que é capaz de cessar o abuso. Outra conseqüência dessa distorção é a de que a vítima gasta uma energia imensa para mudar ou “melhorar-se” a fim de que o abuso termine.

A Síndrome de Estocolmo Generalizada

A Síndrome de Estocolmo Generalizada resulta da ameaça, por parte de um ou mais indivíduos, à sobrevivência física ou psíquica da vítima, seguida da demonstração de gentilezas por outros indivíduos que são vistos como similares em alguns aspectos aos indivíduos ameaçadores.

Baseando-se na lei da generalização do estímulo, identificamos três situações nas quais a Síndrome de Estocolmo Generalizada pode se desenvolver: (1) Ameaças de violência contra a vítima são feitas por uma pessoa, e então gentilezas são demonstradas à vítima por outra pessoa que se assemelha de alguma forma à pessoa violenta. A vítima desenvolverá a Síndrome de Estocolmo Generalizada em relação à pessoa que demonstrou gentilezas. (2) Ameaças de violência contra um grupo de pessoas são feitas por outro grupo de pessoas, e então gentilezas são demonstradas a um dos membros do grupo vitimado por um ou mais indivíduos do grupo violento. Como resultado, esse membro do grupo vitimizado desenvolverá a Síndrome de Estocolmo Generalizada em relação a um ou mais indivíduos gentis do grupo violento. (3) Ameaças de violência contra um grupo de pessoas são feitas por outro grupo de pessoas, e quase todos os membros do grupo violento também demonstram algum tipo de gentileza a praticamente todos ou todos os membros do grupo vitimizado. Como resultado, espera-se que membros do grupo vitimizado desenvolvam a Síndrome de Estocolmo Generalizada em relação a todos os membros do grupo violento.

Enquanto que a Situação 1 pode ocorrer com qualquer um (qualquer pessoa pode ser seqüestrada na rua, por exemplo), as Situações 2 e 3 podem apenas ocorrer com membros de um grupo oprimido. A Síndrome de Estocolmo será mais intensa quando as Situações 1, 2 e 3 acontecerem simultaneamente.

Todas as relações de opressão e de poder desiguais precisam, no final das contas, basear-se na ameaça ou realidade de violência para se manter, e, acima de tudo, da sua naturalização e negação da potencialidade ameaçadora.

A história e realidade das mulheres ao redor do mundo não deixam dúvidas de que os homens são capazes de matar mulheres, de usar violência para controlá-las socialmente, e que os homens utilizarão os motivos mais banais para racionalizar suas violências.

Violências e Ameaças de Violência às Mulheres

Assédios

O termo “assédio sexual” é utilizado para referir a comportamentos masculinos que ocorrem em locais diferentes, mas que possuem funções semelhantes.

O assédio sexual no ambiente de trabalho pode ser definido como um comportamento masculino não-solicitado e não-recíproco que reforça o papel sexual de uma mulher sobre sua função como trabalhadora. Os comportamentos de assédio incluem: olhar insistentemente, fazer comentários a respeito ou tocar o corpo de uma mulher; solicitar o consentimento para comportamento sexual; propostas não-recíprocas reincidentes para encontros; exigência de intercurso sexual; e estupro (note que o assediador age a partir da suposição de que o corpo de uma mulher pertence a ele, não a ela). O que torna essa forma de assédio especialmente perversa é o fato de que é sustentada por um abuso de poder ou pela ameaça do mesmo, caso a mulher se recuse. Podemos identificar algumas “punições” utilizadas pelos homens que ajudam a garantir a complacência da mulher: difamação verbal da mulher; a não-cooperação da parte de colegas homens; avaliações de desempenho negativas; recusa de hora-extra; mudança de cargo prejudical; transferências ou troca de turnos, horas ou local de trabalho prejudiciais; recusa de treinamento; padrões de performance impraticáveis ou demissão.

Pesquisando em diversas fontes, Russell (1984) identificou as funções do assédio sexual, que incluem:

  • A manutenção da prerrogativa masculina tradicional da iniciativa sexual.
  • A expressão da hostilidade masculina em relação às mulheres.
  • A compensação de homens pela impotência em suas próprias vidas através de controle sobre uma mulher.
  • Afirmação do papel sexual da mulher sobre suas outras funções, e, através disso, a manutenção das mulheres em posição subordinada.
  • A limitação do acesso das mulheres a cargos específicos, especialmente aqueles que não são “tradicionalmente” femininos.

Outra função do assédio é sexualizar a interação, comunicando às mulheres que somos, principalmente e antes de tudo, objetos para a satisfação sexual dos homens.

As funções acima mencionadas também se aplicam a locais que não os do ambiente de trabalho. O assediador na rua, por exemplo, comunica à mulher que as ruas pertencem a ele, não a ela; que ela não é livre para ir aonde bem entender e quando quiser; que se ela agir como se fosse livre, ele irá provar que a rua é sua ao abusar dela sexualmente. E, mesmo que o assédio não seja acompanhado de agressão física, “cantadas” são definidas como “agressões menores” (Bernard and Schlaffer 1983) e “pequenos estupros” (Medea and Thompson 1974).

Se uma mulher se dispusesse a tomar nota de todas as violências verbais direcionadas a ela durante sua vida – na forma de propagandas degradantes; piadas e insinuações depreciativas; exposição a conteúdo pornográfico; cantadas; comentários sexuais de homens conhecidos e colegas de trabalho; ligações telefônicas obscenas, etc. – ela ficaria surpresa com a quantidade de violência masculina “normal” que absorveu até mesmo sem sequer ser tocada fisicamente.

O Contínuo de Violências

O conceito de um contínuo de violências ritualizadas revela que a violência é uma realidade na vida de cada mulher. No entanto, as formas de violência mais freqüentes não são conceitualizadas como violentas, ou mesmo abusivas ou não-usuais pela maioria das mulheres. Infelizmente, elas são vistas como comportamentos masculinos normais, o que sugere que as mulheres conviveram por tanto tempo com a violência masculina que ela se tornou “imperceptível”. Todas as relações entre homens e mulheres são abusivas, algumas mais e outras menos. O conceito do contínuo insere essas formas de violência cotidianas em um contexto.

Conclusões acerca do contínuo de violência também corroboram a análise de MacKinnon das razões pelas quais estupradores raramente são condenados pela justiça. MacKinnon aponta que, uma vez que o estupro é definido como o uso de uma força maior do que aquela observada no comportamento sexual “normal” do homem, e porque a intensidade dessa força comumente utilizada é considerável e não leva em conta o ponto no qual as mulheres começam a se sentir violadas, o modo como o estupro é definido o torna praticamente “inexistente”. É também importante notar que apenas 1% dos estupradores são presos, e apenas 1% dos que são presos são condenados. Aqueles condenados não permanecem muito tempo na prisão até serem soltos. Devemos igualmente destacar que todos os homens se beneficiam das conseqüências das violências e das ameaças de violência de outros homens.

Podemos também chegar a uma conclusão importante acerca da violência masculina “normalizada” através do seguinte caso: cartas recebidas por Ellen Goodman, em resposta aos esforços do presidente Clinton para cessar a discriminação contra gays no exército, sugerem que homens sentem-se aterrorizados pelos tipos de violência aos quais eles submetem mulheres no dia-a-dia. Essa variedade de homofobia – medo de homossexuais – é, na verdade, medo de se tornar objeto de atenção sexual indesejada. Aparentemente, a maioria dos homens que escreveram para Goodman achava assustador até mesmo imaginar serem tratados da mesma forma que os homens rotineiramente tratam as mulheres.

A Impossibilidade de Escapar

Utilizando seu poder para criar normas e instituições sociais, os homens tornam a libertação das mulheres muito difícil. A seguir, alguns exemplos de como isso ocorre:

  • Deus é retratado como sendo um homem, onipotente e superior, provendo legitimização “divina” às relações hierárquicas.
  • Nossa história é masculina, pois as vidas das mulheres foram apagadas de todas as representações oficiais, ou então reescritas a partir da perspectiva dos homens.
  • A baixa renda das mulheres em relação à dos homens pressiona as mulheres a casar ou permanecer casadas, tendo como objetivo sua sobrevivência econômica.
  • As mulheres são incentivadas a amar e cuidar de maridos, pais, avôs e a desejar e cuidar de filhos e netos homens.
  • O padrão de uma mulher atraente é definido como ser pequena e magra (ou seja, fraca), e vestir-se de forma que não possa se proteger (por exemplo, usar salto alto).
  • Mulheres são encorajadas pela mídia e “especialistas” a servir sexualmente aos homens, de forma que a satisfação dos desejos sexuais dos mesmos é apresentada como uma conquista e um “empoderamento”, que provê uma falsa ilusão de poder.
  • Homens recebem muito mais incentivo para fortalecer seus corpos através do esporte.
  • Lesbianismo é visto como uma perversão; a decisão de não manter relações sexuais com homens e/ou afastar-se deles em face de suas violências não é considerada uma opção legítima para as mulheres.
  • Uma criança sem um pai é vista como ilegítima, um bastardo. A opinião pública é a de que uma mulher solteira não deve ter filhos, que crianças precisam de um pai.
  • As idéias e sentimentos dos homens são ouvidos e respeitados. As idéias das mulheres são vistas como fúteis ou ignoradas.
  • Homens invadem o espaço físico das mulheres, tocando seus corpos até mesmo quando não são convidados ou permitidos.

Esses exemplos revelam a extensão da impossibilidade de cada mulher de escapar da dominação masculina.

Até mesmo mulheres que sentem que estão em casamentos e namoros “igualitários” não escapam da dominação masculina. De fato, os homens retêm o controle até quando “permitem” que suas companheiras tenham mais liberdade (para trabalhar fora, por exemplo), ou quando as “ajudam” nas tarefas domésticas. Eles decidem quanta liberdade as mulheres podem ter e o quanto eles estão dispostos a dar.

Note-se que em troca de segurança física de terceiros e “liberdades”, a mulher deve se submeter sexualmente ao seu “protetor”, e, muitas vezes, ter e cuidar de seus filhos. O fato é que as mulheres pagam, e pagam caro, pelas pequenas “gentilezas” que recebem dos homens, inclusive a gentileza de protegê-las da violência de outros homens. Também se pode argumentar que o comportamento protetor dos homens em relação às mulheres é, na verdade, a proteção daquilo que entendem como sua propriedade.

“Gentilezas”

Paradoxalmente, em contraponto às violências citadas anteriormente, os homens também demonstram algumas gentilezas às mulheres, criando a esperança de que talvez eles se importem realmente com elas, e parem de abusá-las. Isso possibilita que a Síndrome de Estocolmo Generalizada se desenvolva nas mulheres.

Sendo assim, embora aparentemente irônico, os homens que insistem em abrir a porta para uma mulher são frequentemente os mesmos que acreditam que uma mulher não deveria ser considerada para um cargo “importante”, ou que o seu salário inferior pode ser justificado por sua “falta de perseverança”. Analogamente, é muito provável que o homem que se casa com uma mulher e a “protege” da violência de terceiros seja o mesmo que a espanca e/ou coage a submeter-se sexualmente a ele.

Porém, dentre as gentilezas demonstradas, talvez a mais valorizada pelas mulheres seja o afeto e o amor de um homem. Frye (1983) oferece uma perspectiva interessante acerca do amor dos homens: “Dizer que um homem é heterossexual implica somente que ele mantém relações sexuais [fode] exclusivamente com [ou submete sexualmente] o sexo oposto, ou seja, mulheres. Tudo ou quase tudo que é próprio do amor, a maioria dos homens hétero reservam exclusivamente para outros homens. As pessoas que eles admiram; respeitam; adoram e veneram; honram; quem eles imitam, idolatram e com quem criam vínculos mais profundos; a quem estão dispostos a ensinar e com quem estão dispostos a aprender; aqueles cujo respeito, admiração, reconhecimento, honra, reverência e amor eles desejam: estes são, em sua maioria esmagadora, outros homens. Em suas relações com mulheres, o que é visto como respeito é gentileza, generosidade ou paternalismo; o que é visto como honra é a colocação da mulher em uma redoma. Das mulheres eles querem devoção, servitude e sexo. A cultura heterossexual masculina é homoafetiva; ela cultiva o amor pelos homens.”

Como observado, sexo na cultura supremacista masculina se configura como um ato de hostilidade e dominação, e não amor. Se o “ser fodido” comunicasse algo positivo para e sobre o “fodido”, os homens provavelmente fariam desse ato uma exclusividade sua. Visto que a sexualidade é socialmente construída para homens a partir de sua posição de dominação, a sexualidade masculina assume comumente a forma da degradação, humilhação, controle e/ou inflição de sofrimento nas mulheres a fim de que os homens gozem, ou até mesmo para ter uma experiência erótica e sexual. De fato, propomos que o ápice da representação da subordinação da mulher e dominação do homem, e também um dos momentos nos quais o vínculo da mulher com seus abusadores se torna mais evidente, ocorre durante o ato sexual heterossexual.

Se prover serviços sexuais e reprodutivos aos homens aparentemente os “acalma”, as mulheres continuarão a provê-los na esperança [inconsciente] de que possibilitem a criação de um vínculo com eles, que poderia servir para evitar [ainda mais] violências.

Isolamento

Uma mulher exposta às idéias, opiniões, atitudes, sentimentos e necessidades dos homens (e filhos), ao ponto da exclusão às das mulheres, é uma mulher ideologicamente isolada. De fato, o sistema de idéias supremacista masculino é amplamente difundido através das várias religiões do mundo, da psicanálise, da pornografia, sexologia, ciência, medicina e ciências sociais. Vale notar que um grupo constituído somente de mulheres pode se reunir, mas seus membros ainda permanecem ideologicamente isoladas se elas se comunicarem umas com as outras expressando as perspectivas dos homens, e não suas próprias.

Similarmente, uma mulher que tenha pouco ou nenhum contato com outras mulheres está fisicamente isolada. Hite (1976) oferece uma perspectiva interessante acerca da imposição de proibições de contato físico entre mulheres: “É deprimente e alienante não ser ‘permitido’ tocar ou estar em contato físico a não ser com um parceiro sexual – porque isso pode “levar” à conexão sexual! Especificamente em relação às mulheres, essa proibição de contato físico é opressiva e tem o efeito de separar as mulheres. A dinâmica funciona mais ou menos assim: você pode sentir um impulso repentino de beijar ou abraçar uma amiga – ou sentir desejos súbitos de maior proximidade ou contatos indeterminados – que precisa abafar ou reprimir. Mas quando um impulso natural é freado ou não é reconhecido conscientemente, pode provocar sensações de conflito, culpa ou ansiedade. A repressão pode então levar a sentimentos semiconscientes de rejeição, engendrando sentimentos de desconfiança e desgosto pela pessoa por quem se sentia originalmente atraída. Claro que isso é um fenômeno psicológico, e comumente se dá entre amigos, num nível sutil. O caso é que essa proibição de troca de contato físico (de qualquer tipo) entre mulheres leva ao crescimento do nível de hostilidade e distância entre elas.”

Note-se que, uma vez que os homens ameaçam as mulheres com violências porque são mulheres, isto é, porque possuem corpos femininos, muitas mulheres depreciam seus próprios corpos e de outras mulheres, algumas delas ao ponto de odiá-los. Isso acaba por agravar ainda mais o isolamento entre as mulheres.

Resistência

É interessante notar que sintomas do que pode ser definido como reação pós-traumática têm sido repetidamente observados em mulheres como um grupo: sintomas físicos e psicossomáticos de outra forma inexplicáveis; comportamento dependente; sentimentos de desamparo e impotência; depressão; surtos raivosos ocasionais e aparentemente ilógicos; ambivalência nas relações com homens; e baixa auto-estima. Entendemos esses sinais como manifestações de desespero e protestos que seriam rechaçados caso fossem expressos em palavras.

De fato, a cultura masculina assegura que a expressão da raiva das mulheres não seja levada a sério – de forma que essa raiva não culmine em mudanças sociais – ao definir que a raiva nas mulheres é patológica.

Como feministas, estamos acostumadas a diversas e constantes acusações e ao fenômeno backlash devido a nossos pensamentos, questionamentos e ações. Dworkin (1985) oferece uma observação pungente: “O feminismo é odiado porque mulheres são odiadas. O anti-feminismo é uma expressão direta de misoginia; é a defesa política do ódio às mulheres. Isso se dá porque o feminismo é o movimento de libertação das mulheres.”

O movimento feminista proporciona às mulheres um contexto que legitimiza falar das violências em nossas vidas previamente invisibilizadas – o incesto, estupro, espancamento e assédio que moldam nossos dias. Revelar a natureza pervasiva dessas violências expõe a falsidade dos mitos patriarcais de que tais incidentes são isolados; cometidos apenas por alguns homens doentes; de que são apenas fantasias de mulheres delirantes, histéricas ou loucas; ou então de que são fantasias originárias dos desejos latentes das mulheres.

Como poderia ser esperado, precisamente ao manifestarmos nossa ética feminista, passamos a ouvir sobre a importância da tolerância. É preciso compreender que, quando as pessoas começam a falar sobre a importância da tolerância, altruísmo e auto-sacrifício, isso indica que elas percebem um conflito inerente de interesses entre os envolvidos. Dessa forma, a fim de resolver esse conflito, espera-se que aqueles que não possuem poder institucional sejam altruístas. Nesse sentido, o altruísmo e o auto-sacrifício são considerados “virtudes femininas”. A “feminilidade” é um conceito que faz a submissão feminina à dominação masculina parecer algo natural e normal. Assim sendo, as “virtudes femininas” possuem a função de preservar a relação de dominação e subordinação, facilitando o acesso daqueles que possuem poder institucional aos recursos daqueles que não o possuem. Ao repudiarmos a “feminilidade” ao mesmo tempo que retemos nossa identidade como mulheres, estamos rompendo com as normas culturais de subordinação feminina.

Uma tática patriarcal para silenciar uma mulher que se pronuncia é a de chamá-la de “femista”, lésbica ou feminista. Na concepção patriarcal, essas três alcunhas são “sinônimas” – todas se referem a mulheres que não dedicam suas vidas a apoiar e suprir as vontades dos homens.

Quanto ao termo “lésbica”: por que ele possui tanto poder? As lésbicas não priorizam as vontades dos homens. Às mulheres que não colocam os homens em primeiro lugar não são dadas as recompensas recebidas por mulheres que se “aliam” aos homens, incluindo alguma proteção da violência de todos eles. As mulheres sabem, consciente ou inconscientemente, que os homens utilizarão seu poder para ensinar às mulheres, com força bruta se necessário, a colocar os homens em primeiro lugar.

Conclusão

Nós apresentamos todas essas observações a fim de que as leitoras possam determinar por si próprias se os homens como um grupo demonstram verdadeiro amor às mulheres. Senhores “gentis” de escravos podem ter tornado a escravidão relativamente mais suportável para os escravos, porém isso não fez da instituição da escravidão algo menos hediondo. Também não acreditamos que, sob condições de dominação masculina, o conceito do “consentimento” feminino em relações desiguais seja significativo.

O conceito da Síndrome de Estocolmo Social nos permite romper com prévias conceitualizações acerca do amor das mulheres pelos homens ao explicar por que a maioria das mulheres sacrifica tanto de si própria nos relacionamentos com homens.

Se a necessidade das mulheres de criar vínculos com os homens surge das violências e ameaças de violência masculinas, parece-nos altamente questionável que essa necessidade, “desesperada” e obsessiva como ela se configura nas relações de mulheres com homens, estaria presente dentro de uma cultura igualitária e não-violenta. Em uma cultura assim, as mulheres não buscariam por vínculos a qualquer preço. Propomos, então, que a necessidade que mulheres sentem de criar vínculos com homens é fruto das ameaças de violência e violências dos homens vivenciadas pelas mulheres na sociedade supremacista masculina.

Paradoxalmente, embora as mulheres “amem” os homens em uma tentativa de sobreviver, através de sua dedicação aos homens, elas lhes proporcionam serviços (domésticos, emocionais, reprodutivos e sexuais) que lhes permitem perpetuar nossa opressão. As mulheres em geral se apegam ao sonho de que os homens se importam conosco e irão nos proteger de violências – esquecendo de quem partem – até mesmo enquanto nos oprimem.

Quanto mais vozes femininas se erguerem confirmando as violências dos homens, menos isoladas se sentirão as vítimas, e mais difícil será a minimização do problema pelo patriarcado. Da mesma forma, à medida que as mulheres, ao criarem vínculos entre si, receberem umas das outras o amor, a afirmação e a consideração necessários a qualquer ser humano, elas se tornarão cada vez menos dependentes das pequenas “gentilezas” dos homens para que sintam que possuem valor.

Temos a convicção de que as mulheres cessarão de amar os homens simplesmente para sobreviver; e, ao invés disso, buscarão o crescimento em conjunto através do amor – amor por elas mesmas e por outras mulheres. A proposta feminista lésbica da criação de igualdade no mundo privado do sexo e relacionamentos baseado no entendimento de que o pessoal é político pode ser a base da criação de um mundo público saudável no qual as mulheres podem viver. Acreditamos que esta seja a vanguarda da mudança social radical.

——

Baseado e adaptado a partir de Loving to Survive: Sexual Terror, Men’s Violence, and Women’s Lives – Dee L.R. Graham, por Isabelle Moreira.

Mulher, Povo Colonizado – Parte 1

13-jan-15

Em seu livro revolucionário de 1949, O Segundo Sexo, Simone de Beauvoir pergunta, “por que as mulheres não disputam a soberania dos homens?”. Sua pergunta pressupõe uma teoria filosófica em particular acerca da natureza e interação humana desenvolvida por Hegel. Essa teoria é a de que cada consciência (pessoa) mantém uma hostilidade fundamental

Em seu livro revolucionário de 1949, O Segundo Sexo, Simone de Beauvoir pergunta, “por que as mulheres não disputam a soberania dos homens?”. Sua pergunta pressupõe uma teoria filosófica em particular acerca da natureza e interação humana desenvolvida por Hegel. Essa teoria é a de que cada consciência (pessoa) mantém uma hostilidade fundamental

direcionada a qualquer outra consciência, e que cada sujeito (pessoa) se coloca como Essencial ao se opor a todos os Outros. Ou seja, que as relações humanas são fundamentalmente antagônicas, e que a hostilidade é recíproca. Aquele que não obtém sucesso em se opor a um Outro se vê obrigado a aceitar os valores do outro, e então se torna submisso a ele. Agora, ao perguntar por que as mulheres não contestam a soberania dos homens, Simone de Beauvoir está perguntando por que as mulheres não se opuseram antagonicamente aos homens da mesma forma que os homens se opuseram às mulheres e uns aos outros. Ao fazer essa pergunta, ela sugere que (1) as mulheres nunca se opuseram aos homens e, portanto, são submissas não porque “perderam para os homens”, mas sim por terem aceitado uma posição de subordinação, e (2) que para alcançar o stat

us de sujeito, para resistir à dominação dos homens, entre outras coisas, as mulheres devem se opor aos homens como os homens se opuseram às mulheres e uns aos outros.

Ao discutir a subordinação das mulheres, Simone de Beauvoir argumenta que “o casal é uma unidade fundamental cujas metades se acham presas indissoluvelmente uma à outra”. A característica básica da mulher é ser fundamentalmente o Outro. Portanto, as mulheres “conquistaram” a

penas o que os homens estavam dispostos a conceder, e nada tomaram. Simone de Beauvoir sugere razões para isso: as mulheres carecem de meios concretos ou organização; as mulheres não possuem passado ou história própria; as mulheres têm vivido dispersas entre os homens; e as mulheres solidarizam com os homens de sua classe e raça. Ela aponta, por exemplo, que mulheres brancas se aliam aos homens brancos, não às mulheres negras. Ela acrescenta que renunciar o status de Outro é renunciar os privilégios conferidos através da aliança com uma casta superior. Ela conclui: “Assim, a mulher não se reivindica como sujeito, porque não possui os meios concretos para tanto, porque sente o laço necessário que a prende ao homem sem reclamar a reciprocidade dele, e porque, muitas vezes, se compraz no seu papel de Outro.” Em outras palavras, de acordo com a Simone de Beauvoir, mais uma razão pela qual as mulheres não contestaram a soberania dos homens e afirmaram o direito à sua própria existência é a de que as mulheres não estão completamente insatisfeitas em ser definidas

como Outro. Simone de Beauvoir então discute como tudo isso se deu, porque, como ela afirma: “ninguém nasce mulher: torna-se mulher”. Alguém não nasce uma mulher porque “mulher” é uma categoria construída. E está intimamente ligada à categoria “homem”.

Embora eu não concorde que as mulheres sempre estiveram submetidas aos homens e também que para resistir à soberania dos homens as mulheres devem agir como eles, ainda assim uma relação básica de dominação e subordinação parece existir entre homens e mulheres, e não é claro, com algumas exceções notáveis desde o início do Patriarcado, que mulheres resistiram essa relação. [nota: duas exceções notáveis recentes são as beguinas européias e comunidades femininas chinesas] Em minha o

pinião, a fim de avaliar plenamente essa relação de dominação e subordinação nós precisamos nos ater não apenas à abordagem do sexismo, ou até mesmo da homofobia ou heteross

exismo, mas, principalmente, da relação do heterossexualismo em si. [nota: O que denomino heterossexualismo não é simplesmente uma questão de homens fazendo sexo procriativo com mulheres. Eu estou me referindo a um completo estilo de vida promovido e aplicado por todas as instituições formais e informais da sociedade dos Patriarcas, da religião à pornografia, ao trabalho doméstico não-remunerado à medicina. O heterossexualismo é um estilo de vida que normaliza a dominação de uma pessoa e a subordinação de outra. A relação entre mulheres e homens é considerada, dentro do pensamento anglo-europeu, como sendo a base da civilização. Eu concordo. E ela normaliza aquilo que é “essencial” à civilização anglo-européia a tal ponto que nós deixamos de perceber a dominação e subordinação em qualquer das suas capacidades “

benevolentes” como sendo errada ou nociva: a relação “amorosa” entre homens e mulheres, a relação “pretetora” entre imperialistas e colonizados, a relação de “manutenção da paz” entre a democracia (capitalismo dos EUA) e ameaças à democracia. Eu acredito que, a menos que o heterossexualismo como um modelo de relação seja destruído, sempre permanecerão, na consciência social, conceitos que validam a questão.]

Compreender o sexismo envolve a análise de como o poder institucional está nas mãos dos homens, de como os homens discriminam as mulheres, de como a sociedade classifica os homens como a norma e as mulheres como passivas e inferiores, de como instituições masculinas objetificam as mulheres, de como a sociedade exclui as mulheres da participação como seres humanos plenos, e de como o que tem sido entendido como comportamento masculino normal é também violência contra as mulheres. Em outras

palavras, analisar o sexismo é compreender primariamente como as mulheres são vítimas do comportamento masculino institucionalizado e normalizado.

Compreender o heterossexismo, bem como a homofobia [nota: Celia Kitzinger sugere que paremos de usar “homofobia”. Ela argumenta que o termo não surgiu do movimento de libertação das mulheres, mas sim da disciplina acadêmica da Psicologia. Ela questiona a caracterização do medo heteropatriarcal das lésbicas como algo “irracional”, ela questiona a orientação psicológica (ao invés de política) da “fobia”, e ela observa que, dentro da Psicologia, a única alternativa para a homofobia é o humanismo liberal.], envolve a análise, não apenas da vitimização das mulheres, mas também de como as mulhe

res são definidas em relação aos homens ou então inexistentes, de como lésbicas e homens gays são tratados – verdadeiros bodes expiatórios – como perversos, de como as escolhas de parceiros íntimos tanto para mulheres e homens são restringidas ou negadas por via de tabus a fim de manter uma determinada ordem social. (Por exemplo, se as relações sexuais entre homens fossem abertamente permitidas, então os homens poderiam fazer com os homens o que eles fazem com as mulheres e, então, [alguns] homens se tornariam o que as mulheres são. Isso é proibido. Ademais, se o amor entre as mulheres fosse abertamente expl

orado, as mulheres poderiam simplesmente se afastar dos homens, tornando-se “não-mulheres”. Isso, também, é proibido.) Concentrar-se no heterossexismo desafia a heterossexualidade como instituição, mas isso também pode induzir as lésbicas a encarar como um objetivo político nossa aceitação, assimilação até, na sociedade heterossexual: nós tentamos afirmar para os heterossexuais que somos normais (ou seja, iguais a eles), que eles são injustos ao nos estigmatizar, que é uma mera preferência sexual.

No seu estudo revolucionário sobre a heterossexualidade compulsória, Adrienne Rich nos desafia a encarar a heterossexualidade como uma instituição política que garante o direito dos homens do acesso físico, econômico e emocional às mulheres. Jan Raymond desenvolve uma teoria da hetero-realidade e argumenta: “embora eu concorde que nós vivemos em uma sociedade heterossexista, pen

so que a questão mais ampla é a que nós vivemos em uma sociedade hetero-relacional na qual muito das relações pessoais, sociais, políticas, profissionais e econômicas das mulheres são definidas pela ideologia de que a mulher existe para o homem.” Eu vou um pouco além.

Compreender o heterossexualismo envolve a análise da relação entre homens e mulheres na qual tanto homens quanto mulheres possuem um papel. O heterossexualismo significa homens dominando e tornando as mulheres inaptas a variadas atividades de diversas formas, desde ataques diretos a cuidados paternalistas, e mulheres desvalorizando (por necessidade) a criação de laços entre mulheres bem como encontrando conflitos inerentes entre compromisso e autonomia e, consequentemente, valorizando uma ética da dependência. O heterossexualismo é um estilo de vida (que os praticantes apresentam em gradações variadas) que normaliza a dominação de uma pessoa em uma relação e a subordinação da outra. Como resultado, o heterossexu

alismo debilita a agência feminina.

O que eu chamo de “heterossexualismo” não é simplesmente uma questão de homens fazendo sexo procriativo com mulheres. Ele é um completo estilo de vida que envolve um equilíbrio delicado, embora às vezes rude, entre a predação masculina e proteção masculina de um objeto feminino da atenção masculina. [nota: Penso que o modelo principal de interação pessoal para mulheres e lésbicas tem sido heterossexual. No entanto, para os homens na tradição anglo-européia, também tem havido um modelo de interação masculina homossexual – uma forma de criação de vínculos entre homens, muito embora o sexo entre homens tenha sido abominado. E embora não seja a minha intenção aqui analisar esse modelo, eu sugiro que ele gira em torno de um eixo de dominação e submissão, e que o heterossexualismo é basicamente um modelo homossexual masculino refinado.] O heterossexualismo é uma relação econômica, política e emocional particular entre homens e mulheres: o

s homens devem dominar as mulheres e as mulheres devem se subordinar aos homens de várias formas. [nota: Julien S. Murphy escreve: “A heterossexualidade é mais bem denominada heteroeconomia, pois ela se relaciona com a linguagem do intercâmbio, troca, barganha, leilão, compra e venda… A heterossexualidade é a economia da troca na qual uma estrutura de poder baseada em gênero continuamente se estabelece através da apropriação do partido desvalorizado em um sistema dual de gênero. Tal estabelecimento ocorre através de cada instância de ‘fazer um negócio’ no mercado do sexo.”] Como resultado, os homens presumem acesso às mulheres enquanto que as mulheres permanecem ligadas aos homens e são incapazes de manter uma comunidade de mulheres.

Nos EUA, as mulheres não podem aparecer em público sem que alguns homens se aproximem delas presumindo acesso às mesmas. De fato, muitas mulheres pensarão que algo está errado

se isso não acontecer. Uma mulher é simplesmente alguém a quem tal comportamento é apropriado. Quando uma mulher está acompanhada por um homem, no entanto, ela geralmente não é mais considerada “mercadoria disponível”. Como resultado, homens próximos a mulheres – pais, namorados, maridos, irmãos, acompanhantes, colegas – se tornam protetores (em teoria), inviabilizando aproximações de outros homens.

O valor da proteção especial para com as mulheres é prevalente na nossa

sociedade. Protetores interagem com as mulheres de maneiras que promovem a imagem da mulher como indefesa: homens abrem portas, puxam cadeiras, esperam que as mulheres se vistam de forma que interfiram na sua própria auto-proteção. E as mulheres aceitam isso como comportamento atencioso e elogioso, e vêem a si próprias como pessoas que necessitam de atenção e proteção especiais. [nota: Ao questionar o valor da proteção especial para mulheres, eu não estou dizendo que as mulheres nunca deveriam pedir ajuda. Isso é tolice. Eu estou falando sobre o ideal das mulheres como necessitadas de abrigo/suporte externo contínuo. O conceito de que crianças precisam de proteção especial é prevalente e eu contesto esse conceito quando ele é utilizado para anular sua integridade “para seu próprio bem”. Mas, ao menos, a proteção para crianças envolve em teoria garantir que crianças [meninos] possam crescer e aprender a cuidar de si próprios. Ou seja, crianças [meninos] são protegidas até que tenham crescido e desenvolvido habilidades e proficiências que necessitam a fim de viver nesse mundo. Nenhuma expectativa como essa está incluída no ideal de proteção especial para mulheres: esse ideal não inclui a expectativa de que as mulheres estarão algum dia na posição de cuidar de si próprias (crescer).]

O que uma mulher se depara em um homem é ou um protetor ou

um predador, e os homens estabelecem suas identidades através de um ou outro desses papéis. Isso tem no mínimo cinco conseqüências. Primeiro, não pode haver protetores a menos que exista um perigo. Um homem não pode se identificar no papel de protetor a menos que exista alguém que precise de proteção. Então, é no interesse dos protetores que existam predadores. Segundo, para serem protegidas, as mulheres devem estar em perigo. Ao retratar as mulheres como desamparadas e indefesas, os homens retrata as mulheres como vítimas… e, portanto, como alvos.

Terceiro, uma mulher (ou garota) é vista como objeto da excitação masculina,

e, dessa forma, sua causa. Isso fica claro no caso do estupro: ela deve ter feito algo para tentá-lo – pobre criatura hormonal que ele é. Portanto, se as mulheres são seres que por natureza estão em perigo, obviamente, elas são seres naturalmente sedutores – elas ativamente atraem predadores. Quarto, para serem protegidas, as mulheres devem concordar em agir como os homens ditam às mulheres que devem agir: parecer femininas, provar que não são ameaçadoras, ficar em casa, ficar apenas com o protetor, desvalorizar suas ligações com outros mulheres e por aí vai.

Finalmente, quando as mulheres se desvirtuam do papel feminino se tornando

ativas e “culpadas” [nota: Na sua análise dos contos de fadas, Andrea Dworkin aponta que uma mulher ativa é retratada como má (a madrasta) e uma mulher boa está geralmente dormindo ou morta (Branca de Neve, Bela Adormecida).], é uma mera questão de lógica que os homens as retratem como vis e aumentem a violência física evidente contra elas a fim de reafirmar o status de vítima das mulheres. Por exemplo, à medida que a demanda pelos direitos das mulheres no EUA se tornou publicamente perceptível, a imagem de mulheres sozinhas como “putas” convidando ataque também se tornou prevalente. Uma mulher sozinha pedindo carona é vista não como alguém a ser protegida, mas como alguém que abdicou de seu direito à proteção e, portanto, como alguém que é um alvo para ataque. O grande aumento de pornografia – entretenimento produzido por e para homens sobre mulheres – é a resposta generalizada dos homens à demanda do movimento de libertação das mulheres por integridade, por autonomia e dignidade.

O que as feministas radicais expuseram através de toda a sua pesquisa sobre incesto (estupro da filha) e espancamento de esposas é que os protetores são também predadores. Obviamente, não todos os homens são espancadores de esposas ou namoradas, porém mais da metade daqueles que vivem com mulheres são. E, também, um número significativo de casa de família nos EUA abriga um homem “incestuoso”.

Embora homens possam demonstrar preocupação sobre o abuso de mulheres, eles possuem uma relação com o abuso diferente daquela das mulheres; suas preocupações não são as preocupações das mulheres. Por exemplo, frequentemente homens ficam furiosos com o fato de que uma mulher foi estuprada ou espancada por outro homem. Porém, isso seria ou o homem se posicionando em seu papel de pro

tetor – raramente, se alguma vez, lhe ocorre ensiná-la auto-defesa – ou um homem profundamente afetado por danos causados à sua “propriedade” por outro homem. E, enquanto que alguns homens sintam desprezo por homens que espancam ou estupram, Marilyn Frye sugere que é bem possível que o seu desprezo surja não do fato de que o abuso da mulher está ocorrendo, mas sim do fato de que o abusador ou estuprador precisa recorrer à força para obter aquilo que eles próprios obtém mais sutilmente pela arrogância.

A corrente disposição dos homens no poder de aprovar leis restringindo a pornografia é uma questão de homens tentando restabelecer a imagem assexuada e virginal de (algumas) mulheres que eles podem então proteger em suas casas. E eles estão usando em sua defesa mulheres da direita bem como feministas que parecem estar pedindo proteção, como mulheres direitas, ao invés de exigindo libertação. Os homens usam da violência quando as mulheres não prestam atenção a eles. Então, quando as mulheres pedem prote

ção, os homens podem encontrar motivações ao perseguir os predadores – particularmente aqueles de uma raça ou classe diferente.

Em outras palavras, a lógica da proteção é essencialmente a mesma da predação. Através da predação, os homens fazem coisas com as mulheres e contra as mulheres que as violam e minam sua integridade. No entanto, a proteção objetifica tanto quanto a predação. Para proteger mulheres, os homens fazem coisas com e contra ela; agindo “pelo próprio bem de uma mulher”, eles violam sua integridade e minam sua agência.

A proteção e a predação surgem da mesma ideologia de dominância masculina, no sentido de que é indiferente à sustentação bem-sucedida da dominação masculina qual das duas condições as mulheres aceitam. Portanto, Sonia Johnson afirma: “Nossa convicção de que se cessarmos de estudar e monitor

ar os homens e suas mais recentes loucuras, que se deixarmos de “arranhar” aterrorizadas e chutar, alternado com choramingos e apego exagerado – toda a nossa relação sadomasoquista doentia com os Mestres – eles ficarão furiosos e nos matarão é pura superstição. Com nossos olhares fixos neles, eles nos matam diariamente; com nossos olhares cravados nesses, eles ficam furiosos.”

Algumas das primeiras feministas radicais afirmaram que mulheres são colonizadas. Vale a pena considerar essa afirmação. Aqueles que desejam dominar um grupo e que são bem-sucedidos obtêm controle através da violência. Essa demonstração de força, no entanto, requer esforços e recursos tremendos; então, colonizadores introduzem valores retratando a relação do colonizador dominante com o colonizado subordinado como natural e normal.

Uma das primeiras ações dos colonizadores após a conquista é controlar a linguag

em, trabalho esse frequentemente realizado por missionários cristãos. Sua missão é dar à linguagem uma forma escrita e então erguer escolas onde ela é ensinada aos nativos da terra. Aqui, novos valores são introduzidos: por exemplo, conceitos de “claro”/”iluminado” e “escuro”/”negro” com as conotações de “bom” e “mau”, respectivamente. Palavras para superiores e divindades então passam a carregar uma conotação “clara”, bem como aparecer no gênero masculino. Ademais, valores são incutidos os quais apóiam a apropriação colonial de recursos naturais, e negam os costumes ancestrais e independência econômica do colonizado. À medida que os colonizados são forçados a utilizar a linguagem e esquema conceitual dos colonizadores, eles podem começar a internalizar esses valores. Essa é a “salvação”, e os colonizadores aplicam a doutrina daquilo que chamaram Destino Manifesto ou “fardo do homem branco”.

A teoria do Destino Manifesto implica que os colonizadores estão trazendo civilização (a versão secular da salvação) aos “bárbaros” (“pagãos”). Os colonizadores retratam os colonizados como passivos, como desejando e precisando de proteção (dominação), como sendo cuidados “para seu próprio bem”. Qualquer um que resista à dominação será visto como anormal e atacado como um risco à sociedade (“civilização”) ou chamado de louco e isolado em nome da proteção (dele mesmo ou da sociedade).

Dessa forma, os colonizadores passam da predação – ataque e conquista – à proteção benevolente. Aqueles que foram colonizados são retratados como desamparados, infantis, passivos, e femininos; e os colonizadores se tornam governantes benevolentes, aceitando o fardo da administração “civilizada” de recursos (exploração).

Depois que a ordem social foi estabelecida, caso os colonizados comecem a r

esistir à proteção e benevolência, insistindo que eles preferem fazer tudo por si mesmos, independente das conseqüências imediatas, os colonizadores mais uma vez se tornarão predadores, aumentando a violência para convencer os colonizados de que eles precisam de proteção e que eles não conseguem sobreviver sem os colonizadores. Uma das frases atribuídas a Mahatma Gandhi no filme Gandhi de importância para esse argumento: “A fim de manter a benevolência e nos dominar, vocês devem nos humilhar”. Quando tudo falha, os homens partirão para a guerra para afirmar sua “masculinidade”: seu “direito” de conquistar e proteger mulheres e outros seres “femininos” (ou seja, qualquer um que eles possam dominar).

O objetivo da colonização é a apropriação de recursos estrangeiros. A colonização funciona tornando um povo inapto e economicamente dependente. Em seu livro sobre colonialismo, Como a Europa Subdesenvolveu a África, Walter Rodney argumenta que as sociedades africanas não teriam se tornado capitalistas sem o colonialismo branco. Sua tese é a de que a África estava progredindo economicamente de uma maneira distinta do desenvolvimento pré-capitalista até que os europeus chegaram para colonizar a África a subdesenvolvê-la. Restringindo o desenvolvimento da economia africana, e a reconstruindo para alcançar seus objetivos, os europeus destituíram os africanos de seus terras e recursos. Além disso, os europeus destituíram os africanos de suas habilidades econômicas autônomas, primariamente ao transformar o sistem

a educacional e ensinar os povos africanos a rejeitar o conhecimento de seus ancestrais. Essa desabilitação dos povos conquistados é crucial para a dominação, pois ela significa que os colonizados se tornam dependentes dos colonizadores para a sua sobrevivência. Na verdade, entretanto, são os colonizadores que não conseguem sobreviver – como colonizadores – sem os colonizados.

Bette S. Tallen sugere que, de forma semelhante, as mulheres foram desabilitadas/castradas sob o heterossexualismo, tornando-se economicamente dependentes dos homens, enquanto que os homens se apropriam dos seus recursos. Como Sonia Johnson aponta: “de acordo com estatísticas das Nações Unidas, embora as mulheres executem dois terços do trabalho no mundo, nós ganhamos apenas um décimo da renda mundial e somos donas de apenas um centésimo das propriedades do mundo”. A desabilitação das mulheres varia dependendo de condições históricas e materiais específicas. Por exemplo, na sua análise da Grã-Bretanha pré-industrial do século XVII, Ann Oakley observa que mulheres assumiam muitas profissões quando separadas de seus maridos, ou quando viúvas. A revolução industrial mudou tudo isso e privou muitas mulheres de suas habilidades. Anteriormente a isso, durante os tempos da caça às bruxas, os homens europeus se apropriaram das habilidades de cura, parto, ensino das mulheres, e tentaram destruir as suas habilidades psíquicas. [nota: Atualmente, os homens estão tentando controlar as capacidades reprodutivas das mulheres ao controlar os órgãos reprodutivos femininos e processos femininos.] Como Alice Molloy escreve, “a suposta história da feitiçaria é simplesmente o processo pelo qual as mulheres foram separadas umas das outras e do seu potencial para sintetizar informação”. Em geral, muitas mulheres não mais possuem seus próprios projetos, elas perderam o acesso a suas próprias ferramentas. Como resultado, elas são coagidas a adotar uma ideologia de dependência dos homens.

O heterossexualismo possui certas similaridades com o colonialismo, particularmente na sua manutenção por via da força quando o paternalismo é rejeitado (ou seja, o aumento da predação dos homens quando as mulheres rejeitam sua proteção), e na sua representação da dominação como natural (os homens dominam as mulheres tão “naturalmente” quanto os colonizadores dominam os colonizados, e sem nenhuma noção de se próprios como estando a oprimir aqueles que dominam exceto durante os momentos de agressão evidente) e na desabilitação das mulheres (tornando-as inaptas de diversas formas a variadas atividades). E, da mesma que são os colonizadores que não conseguem sobreviver como colonizadores sem os colonizados, são os homens que não conseguem sobreviver como homens (protetores ou predadores) sem as mulheres.

Complementando a função de protetor/predador dos homens, está o conceito de “mulher”, particularmente como ele opera na sociedade mainstream dos EUA. Consideremos do que esse conceito carece. Ele carece (1) uma noção do poder feminino, (2) qualquer sugestão de que as mulheres como um grupo têm sido alvos da violência dos homens, (3) qualquer sugestão da resistência feminina, tanto coletiva quanto individual, à dominação e controle dos homens, e (4) qualquer noção do vínculo lésbico.

O conceito de “mulher” não inclui nenhuma noção verdadeira de poder feminino. Certamente, ele não inclui nenhuma noção de mulheres como forças conquistadoras e comandantes. De forma mais significativa, ele não inclui nenhuma noção de força e competência. Eu não estou negando que existem muitas mulheres fortes. E, quando as mulheres encorajam umas às outras em desafio à avaliação dominante, imagens significativas aparecem. Mas, com o passar do tempo sob o heterossexualismo, essas imagens tendem a ser modificadas por apelos à feminilidade ou são utilizadas contra as mulheres. Sem uma suficiente deferência aos homens, as mulheres perceberão que os conceitos de “vaca castradora”, “sapatão” ou similares são utilizados para mantê-las na linha.

Homens de um determinado grupo modificam parcialmente a “feminilidade” a fim de enfatizar a competência e a habilidade femininas quando eles realmente precisam de ajuda extra: durante guerras – Rosie the Riveter, por exemplo [nota: Ícone cultural americano da segunda grande guerra. Ela representa as milhares de mulheres que trabalharam em fábricas durante a produção de armamento militar para a Segunda Guerra Mundial.]; em fazendas pequenas; em movimentos revolucionários; em kibbutzim, onde o Estado é instável; em uma comunidade profundamente dividida sob opressão, etc. Porém, uma vez que o seu domínio está estabelecido de forma mais sólida, os homens retomam o estereótipo feminino (ao mesmo tempo que esperam que as mulheres executem a maior parte de seus trabalhos sem receber nenhum benefício – trabalhos domésticos, por exemplo).

No seu artigo sobre mulheres negras nas cidades, Pat Robinson relaciona a perda da auto-consciência e poder de um povo com a perda de suas divindades. Ela afirma, “para que um grupo seja controlado, é preciso que sejam tomados seus deuses, suas próprias reflexões acerca de si mesmos, e sua consciência interior”. Quando encontramos referências a deusas de qualquer cultura na cultura anglo-européia dominante, elas estão sendo raptadas ou estupradas, e/ou são mães. [nota: Existem muitas outras deusas além das deusas da fertilidade e da maternidade. Há deusas da caça, da tecelagem, da sabedoria, das mudanças, do inverno, da floresta, da terra, dos mortos, da justiça, do amor, da comida, do sol, do fogo, da escrita, da aurora, da vingança, da menarca, da lua, do mar, dos vulcões, e das bruxas e da mágica – citando apenas algumas. Ademais, há motivos para acreditar que deusas obesas, como a Vênus de Willendorf, representavam não maternidade, mas sim poder: as camadas de gordura eram camadas de poder.] De forma significativa, a única figura feminina presente no pensamento anglo-europeu é a Virgem Maria, resquício de uma antiga deusa, transformada em uma vítima-modelo de estupro, com a reputação de ter dito a um deus, “faça-se em mim segundo a tua vontade”.

Pat Robinson prossegue observando que, para controlar um povo, enquanto que um grupo deve tomar-lhes suas próprias reflexões acerca de si mesmos, ele deve primeiramente utilizar de força. (Isso, obviamente, é o processo inicial de colonização.) A segunda carência no conceito de “mulher” é uma noção de que a força é utilizada contra as mulheres como um grupo. A literatura feminista tem discutido o massacre das bruxas na Europa. Alguém poderia perguntar como uma destruição em massa poderia ser erradicada da consciência coletiva. Talvez ela tenha sido simplesmente suprimida. Porém, quando uma ordem social requer a exterminação de um determinado grupo, e essa exterminação é virtualmente bem-sucedida, a memória subseqüente desse processo pode ser erradicada ao ser renomeada. O massacre das bruxas na Europa por um período de mais de trezentos e cinqüenta anos sofreu essa renomeação. A caricatura das bruxas nos “ataca” anualmente na forma de um evento da mídia de massa nos EUA: o Halloween.

O uso da força ou violência contra as mulheres como um grupo não esteve limitada à Europa. Mary Daly, entre outras, procurou trazer à consciência feminista dos EUA o fato de que tal força foi e continua a ser usada contra as mulheres em todas as partes do mundo. E embora a prática dos assassinatos das viúvas indianas tenha sido reconhecida como um problema, isso ocorreu apenas porque os homens no poder recentemente o denominaram um problema. Da mesma forma, embora na China os pais tenham considerado que a atadura dos pés não é economicamente útil e, portanto, “imoral”, nossa memória e consciência do que levou a essa prática e por que ela foi perpetuada por tanto tempo está desaparecendo. Também, o infanticídio feminino assumiu sua posição como uma expressão de misoginia.

Uma vez que é inexistente a noção de que a violência tenha sido alguma vez direcionada às mulheres como um grupo, é difícil ter uma perspectiva da magnitude da força utilizada contra as mulheres atualmente. Enquanto que mulheres nos EUA podem ficar horrorizadas com o espectro da mutilação genital africana e as mortes das viúvas indianas, estudantes africanas (particularmente nigerianas) e indianas nas turmas para as quais leciono ficam não menos horrorizadas com a incidência de estupro e a quantidade de pornografia que constituem uma parte diária das vidas as mulheres nos EUA. Com exceção das feministas radicais, ninguém nos EUA percebe a incidência fenomenal de incesto (estupro da filha), espancamento da esposa, estupro, prostituição forçada e a ideologia da pornografia – retratada não apenas nas revistas masculinas, mas na televisão, outdoors, em supermercados, em escolas, e em geral em todo setor público e privado que uma mulher freqüenta – como uma forma de ataque orquestrado contra as mulheres. Não existe uma noção geral de que, como Sonia Johnson aponta, os homens tenham declarado guerra contra as mulheres; pelo contrário, esse ataque – já que os homens prestam atenção às mulheres – é nomeado “atração”, até mesmo “admiração”.

Em terceiro lugar, o conceito de “mulher” não inclui uma noção de resistência feminina – coletiva ou individual – à dominação masculina. Embora existam evidências de que amazonas tenham vivido na África do Norte, na China, na Anatólia (Turquia) e entre o Mar Negro e o Mar Cáspio [nota: Em 1979, o Chicago Sun-times, por exemplo, relatou a descoberta dos restos mortais de uma tribo de amazonas que viveu há 2500 anos na República da Moldávia. Arqueólogos soviéticos encontraram uma “mulher guerreira, seu cavalo de guerra, uma lança, brincos de ouro e outros adornos” em um terreno de enterro próximo à vila de Balabany.], as amazonas são tratadas repetidamente como uma piada ou algo do passado. Porém, como Helen Diner escreve: “Nas celebrações em honra dos mortos, Demóstenes, Lísias, Himérios, Isócrates e Aristides glorificam a vitória sobre as Amazonas como sendo mais importante do que aquela sobre os Persas ou qualquer outro feito na história… As guerras entre os Gregos e Persas foram guerras entre duas sociedades dominadas pelos homens. Na guerra contra as Amazonas, a questão era qual das duas formas de vida iria moldar a civilização européia à sua imagem.” De forma significativa, até mesmo feministas e feministas lésbicas evitam a idéia das amazonas, aparentemente por receio de parecerem alheias à realidade (ao consenso). Com algumas exceções notáveis, nós não estamos respondendo ao chamado de Maxine Feldman, “Mulheres amazonas, ergam-se.” Há pouca celebração das amazonas (embora nós estejamos começando a ouvir novamente sobre deusas e bruxas). Nós não reconhecemos as amazonas nem mesmo como defensoras simbólicas das mulheres – e isso em um tempo em que a violência dos homens contra as mulheres é evidente. Ao invés disso, até mesmo feministas radicais fazem pressão por maior proteção da polícia e do Estado. As amazonas – bem como as guerreiras femininas como aquelas nas sociedades dahomey ou nootka – simplesmente não se enquadram dentro do conceito de “mulher” da sociedade mainstream dos EUA.

Uma vez que não há nenhuma memória mitológica, muito menos histórica, da resistência feminina à dominação dos homens, atos isolados e individuais de resistência feminina são também tornados imperceptíveis como resistência, particularmente, como eu argumento abaixo, através do conceito de “feminilidade”. Uma “mulher” é alguém cuja identidade se dá através da sua aliança com um homem a tal ponto que qualquer mulher que resiste à violência masculina, aos avanços dos homens e ao acesso exigido pelos mesmos não é uma mulher de verdade.

O valor da “mulher”, portanto, exclui uma noção da presença, habilidade e poder femininos, de uma consciência de que violências têm sido e são perpetradas contra as mulheres como um grupo, e uma noção da resistência feminina à dominação masculina. Ele também exclui uma noção do vínculo lésbico. Adrienne Rich assumiu a tarefa de abordar (1) a ideologia “através da qual a experiência lésbica é entendida em uma gradação de desviante a abominável, ou simplesmente tornada invisível”; (2) “como e por que a escolha das mulheres por mulheres como companheiras amorosas, parceiras, colegas, amantes, comunidade, tem sido esmagada, invalidada, forçada ao acobertamento e a ser mascarada”; e (3) “a invisibilização em potencial ou total em uma gama de textos, incluindo aqueles da cultura feminista.” Como escreve Harriet Ellenberger: “Um tabu central no Patriarcado é o tabu contra mulheres unindo-se a mulheres – e, no entanto, essa união, aliança, ligação tornadas tabu têm ocorrido e continuam a ocorrer bem debaixo de seus narizes, e homens e a maioria das mulheres não pensam que elas são reais.”

O que o conceito de “mulher” inclui é igualmente significativo. Segundo a denominação masculinista das mulheres, uma “mulher” (1) é alguém que se identifica com homens, cuja identidade surge através de sua relação com o homem, (2) é alguém que se faz atraente aos homens, (3) é um objeto a ser conquistado pelos homens e (4) é uma reprodutora (de meninos).

A identidade de uma mulher é incorporada na sua relação com o homem: ela é antes de tudo e principalmente a mãe, esposa, amante, ou filha de algum homem e não de uma mulher. Como as Radicalesbians argumentaram em 1970: “Nós somos autênticas, legítimas, verdadeiras contanto que sejamos a propriedade de algum homem cujo nome carregamos. Ser uma mulher que não pertence a nenhum homem é ser invisível, patética, não-autêntica, não-verdadeira.” Uma mulher que não pertence a nenhum homem, ou não existe ou está tentando ser um homem. Ademais, uma “mulher” é responsável pela prestação de serviços sexuais aos homens. Se ela é boa ou má, qual o seu status ético, está baseado em sua disponibilidade sexual, preço e fidelidade aos homens. Em última análise, uma “mulher” é uma virgem ou uma puta – ou seja, ligada a um homem através do sexo.

Em segundo lugar, uma “mulher” é alguém que é atraente para os homens. Se ela não tenta se fazer atraente para os homens, considera-se que ela tem um problema sério. Na sociedade mainstream dos EUA, ser atraente significa que ela é caucasiana, de classe média-alta, praticamente anoréxica (isso é, doente), e jovem o bastante para não possuir rugas na sua face, embora ocasionalmente ela possa ser negra e “exótica”. Aquelas mulheres que não se enquadram nessas categorias, embora não sejam completamente descartas como mulheres, são, não obstante, forçadas a se sentir como substitutos ruins de uma mulher. [nota: Em outras partes do mundo, padrões diferentes podem se aplicar. Em alguns lugares, ser católica é essencial para a identidade da mulher, ou ser gorda, ou ser negra, não pálida. O modelo de “mulher” em termos da manifestação física tende a aderir aos valores dos homens no poder em um determinado local.] Além disso, uma “mulher” é alguém que deve ser protegida do que é mau (ou seja, “negro”) a menos que ela própria seja negra (ou seja, má) – nesse caso, outras mulheres devem ser protegidas dela. Quanto mais branca ela é, mais pura. Quanto mais negra ela é, mais perigosamente sexual. Novamente, ela é uma virgem ou uma puta – ou seja, branca ou negra.

Em terceiro lugar, uma “mulher” é alguém que deve ser conquistada por um homem. A ideologia da pornografia, de soft porn a snuff retrata uma mulher como um objeto (um receptor de uma ação – nesse caso, alguém a ser atacado e vencido), alguém que existe para ser dominada. Ela é caracterizada pelo seu desejo sexual, e ela é dominada através da violação – violão esta que ela deverá vir a desejar. A ideologia do romantismo (retratada popularmente nos romances de arlequim) é a mesma: uma mulher é um objeto (receptor de uma ação – nesse caso, alguém a ser protegido e seduzido), alguém que existe para ser conquistado. Ela é caracterizada por sua falta de desejo sexual – ela deve rejeitar as iniciativas sexuais (do homem) a fim de demonstrar o seu pudor; e, dessa forma, os homens sabem que quando ela diz “não”, na verdade ela quer dizer “sim”. Portanto ela, também, é dominada através da violação – violação da sua integridade –, violação esta que ela repentinamente começa a desejar. Tanto a pornografia quanto o romantismo nos dizem que uma mulher deve ser conquistada e dominada pela força da vontade do homem.

Finalmente, uma “mulher” é uma reprodutora. Uma mulher se realiza através da reprodução, sua possibilidade ética básica é a doação e o cuidado altruísta, e qualquer coisa que interfira com esse processo é suspeita. Além disso, nas ocasiões em que um povo está ameaçado porque os homens travam guerras, os homens ressaltam a reprodução excluindo todo o resto, e a supervisionam cuidadosamente. Nas sociedades anglo-européias, eurasiáticas e todas nas sociedades mainstream estadunidenses (central, do sul e norte), essa função não pode ser controlada por ela. Seu corpo não é seu para decidir sobre ele. A questão do aborto, por exemplo, como é abordada nos EUA, não é uma questão da mulher. Pois a questão diz respeito simplesmente a quais homens irão controlar os abortos das mulheres – o Estado ou homens individuais. E médicos exercendo sua preocupação paternalista pela ordem social esterilizam mulheres que consideram mães inadequadas, como mulheres negras pobres e porto-riquenhas. Uma “mulher” é uma reprodutora, e reprodutoras precisam de protetores que tomam as decisões sobre a reprodução, incluindo reconstrução genética. Ademais, obviamente, quando uma mulher procria com sucesso, o que ela procria é masculino – ou seja, alguém que perpetua a linhagem do seu marido.

Uma “mulher”, portanto, é um objeto sexual essencialmente submisso a e dependente dos homens, alguém cuja função é perpetuar a raça (enquanto protetores e predadores põem em prática seu projeto de destruí-la). Não, ninguém nasce uma “mulher”.

[nota: Não é acidental que justamente à medida que a exigência feminista por direitos novamente obteve reconhecimento do público, aqueles no poder desviaram a atenção ética para a biologia – dessa vez, a sociobiologia. Aqui, entre descrições alegadas “objetivas” do comportamento animal, E. O. Wilson afirma que é um “fenômeno quase universal que machos são dominantes sobre fêmeas entre os animais.” Em parte alguma Wilson defende essa afirmação; ao invés disso, ela aparece adquirir corpo à medida que ele simplesmente descreve os fatos. Por exemplo, ele utiliza a palavra “harém” para descrever uma comunidade de babuínos hamadryas na qual as fêmeas são aterrorizadas à submissão e lealdade por um macho ameaçador. Entretanto, ele também utiliza esse termo para descrever comunidades centradas em fêmeas tais como as ovelhas montanhesas. O rebanho de ovelhas montanhesas é centrado nas fêmeas, fêmeas “herdam” os espaços de outras fêmeas, e as fêmeas permitem que apenas alguns machos tenham contato com elas – e isso apenas durante a temporada de acasalamento. Porém, pelo uso de Wilson da palavra “harém”, a pessoa que está lendo fica com a impressão de que os machos dominam as fêmeas nessa comunidade.

De forma significativa, Wilson considera a sociedade dos babuínos hamadryas como um modelo de desenvolvimento supremo (de heterossexualismo) em vertebrados superiores. Ele descreve fêmeas ameaçadas e atacadas como “cônjuges” que foram “recrutadas”; e se elas escapam, de acordo com ele, elas “se desviaram”. Em outra parte do livro, Wilson denomina os estágios iniciais desse comportamento ameaçador do macho como sendo “proteção”.

Talvez, a linha de raciocínio mais reveladora de Wilson surja quando ele alterna a frase “ação receptora da fêmea” com a frase “comportamento submisso da fêmea.” Através dessa equivalência, ele implica que, simplesmente ao praticar heterossexo, as fêmeas são dominadas pelos machos. Wilson descreve as fêmeas que não praticam heterossexo como sendo “tias solteironas”, ou como sendo “anti-sociais” se elas tentam escapar (como o fizeram as babuínas-anubis fêmeas que, em um experimento, cientistas puseram em uma comunidade de hamadryas). Uma vez que fêmeas fazendo sexo com machos é “natural”, presume-se logicamente que a dominação do macho é “natural”. Em suma, sob o paradigma conceitual vigente (patriarcal), a penetração do macho equivale à dominação do macho.]

Eu desejo uma revolução moral.

[Traduzido de Lesbian Ethics – Sarah Lucia Hoagland]

TRAZENDO A POLÍTICA DE VOLTA AO LESBIANISMO

13-jan-15

Por: Janice G. Raymond
Tradução de Jéssica Akemi

Sinopse: Esse artigo contrasta o lesbianismo como um movimento político ao lesbianismo
como um estilo de vida. Ele aborda a corrente que enfatiza os círculos lésbicos sobre ‘’sexo
como salvação’’, e que enfatiza re-sexualizar mulheres e despolitizar o lesbianismo. O
liberalismo do estilo de vida lésbico compõe os modos de sexualidade do poder masculino, tal
como s & m [N.T. sadomasoquismo], butch-femme, e bondage [N. T. servidão] e dominação,
sensual para as mulheres. Em nome da tolerância, diferença, e da comunidade lésbica, muitas
lésbicas são dissuadidas de fazerem julgamentos e se oporem a tais atos. Finalmente, o artigo
descreve os valores de uma lésbica feminista que tem princípios, política e paixão. Ele propõe
um contexto de que a sexualidade lésbica pode parecer enraizada na imaginação lésbica – não
nas fantasias lésbicas.
Movimento Político vs. Estilo de Vida Lésbico. Nós costumamos falar muito sobre o
lesbianismo como um movimento político.- voltando aos velhos tempos quando o lesbianismo e
o feminismo caminhavam juntos, e ouvíamos a frase, feminismo lésbico. Hoje em dia ouvimos
mais sobre sadomasoquismo lésbico, lésbicas tendo filhos, e tudo que lésbicas precisam saber
sobre sexo – o que elegantemente passou a ser chamado de ‘’política do desejo’’. Nesse artigo,
eu quero falar sobre o lesbianismo como um movimento político, mas antes de fazer isso é
necessário discursar sobre o lesbianismo como um estilo de vida – que vem a ser para muitas
uma preferência sexual sem a política feminista.
Para uma coisa, esse estilo de vida lésbico está preocupado com o sexo. Não a sexualidade
lésbica como uma afirmação política, ou seja, como uma mudança da realidade heterossexual,
mas sexo lésbico como foder – como fazer isso, quando fazer isso, o que fazer para que
funcione – resumidamente, como liberar a libido lésbica. As lésbicas por estilo de vida e os
hetero-conversadores concordam em uma coisa – que para as mulheres o sexo é a salvação –
algo que nos levará para a terra prometida, o após-vida, a graça maravilhosa. Por exemplo,
Marabel Morgan, no Uma Mulher Absoluta, ensina mulheres direitas cristãs como performar as
fantasias completas de seus maridos com todos os trajes e posturas sexuais que seriam rivais do
armazém lésbico libertário. Para as Marabel Morgans desse mundo, dendo do casamento, vale
tudo. Uma esposa deve agir como uma amante. Samois, um grupo americano de
sadomasoquismo lésbico, apoia chicotes e correntes, ‘’dor é prazer, escravização consentida,
liberdade-através-do-bondage, realidade-como-jogo, e qualidade-através-da-dramatização’’
(Meredith, 1982, p.97). Fora do casamento, na verdade, fora da heterossexualidade, vale tudo.
Libertação lésbica se tornou libertarianismo lésbico.
Comparando Marabel Morgan a Samois, estamos falando sobre a diferença entre uma cantiga de
ninar e metal pesado? Ou estamos falando sobre similaridades entre adesivos que dizem
‘’mergulhadores vão mais fundo’’, ‘’voadores vão mais alto’’, ‘’conservadores fazem isso com
consciencia’’, ‘’lésbicas fazem isso com desejo?’’. Parece haver poucas diferenças entre a visão
do mundo conservador que coloca as mulheres neste mundo da sexualidade dos homens e o
estilo de vida lésbico libertário que está cada vez mais preocupado em foder como o apogeu da
existência lésbica. Por toda conversa sobre sexo perpetuada, o discurso lésbico libertário é mudo
sobre a conexão com o resto da vida de uma mulher e, portanto, é mudo sobre o sexo também.
Tradicionalmente, as diferenças entre a sexualidade feminina têm sido usadas para mostrar
como ela complementa a sexualidade masculina, e isso legitima a heterossexualidade como a
condição natural e normativa de existência sexual para as mulheres; essa igualdade com a
sexualidade masculina tem sido usada para legitimar as formas que a sexualidade masculina tem
tomado e para proclamar essas formas como transcendentes do gênero. ‘’Para dizer isso de outra forma, a sexualidade feminina tem sido remoldada no modelo da sexualidade masculina, então
essas mulheres estão agora seguras de serem iguais ou até melhores que os homens em termos
de capacidade sexual’’ (Jackson, 1984, p.81).
A ênfase no estilo de vida lésbico recente e teorias libertárias de sexualidade tende a confimar a
igualdade da sexualidade feminina e masculina – evidenciado pelo suposto ‘’fato’’ de que as
mulheres agem, ou querem agir, ou deviam ser livres para agir, dos mesmos modos que os
homens têm sido aptos a agirem sexualmente. As lésbicas por estilo de vida argumentam que a
sexualidade fêmea-fêmea deve ser ‘’liberada’’ para tomar formas do modelo de sexualidade do
poder masculino, ou seja, as formas que dotaram os homens com o poder da sexualidade
desinibida em uma sociedade patriarcal. As várias formas que o sexo do poder masculino tem
tomado – s& m, pornografia, dramatização de butch-femme, pederastia, etc – vão supostamente
libertar o então chamado ‘’poder reprimido’’ da sexualidade feminina.
O que as libertárias e as lésbicas por estilo de vida podem protestar é que a sexualidade
masculina não possui canto em suas formas. Muitas podem manter que essas formas de
sexualidade existiram reprimidas no ser das mulheres, apenas esperando para serem chamadas a
diante para um contexto social diferente onde as mulheres são encorajadas a expressarem a si
mesmas com o alcance sexual que os homens têm desfrutado. Muitos anos atrás, nos Estados
Unidos, um grupo chamado FACT (Brigada Feminista Anti-Censura) – composto de
acadêmicas, advogadas, artistas, literatas, e muitos outros grandes nomes feministas – unindo
forças com a indústria pornográfica para combater contra a legislação civil dos direitos
feministas que faz a pornografia legalmente contestável. O FACT defende a pornografia citando
especificamente a necessidade que as lésbicas têm disso, e chamando isso ‘’’material agradável
despertador da sexualidade’’ que as mulheres devem ter a liberdade para escolher. ‘’O alcance
da imaginação e expressão feminista no domínio da sexualidade mal começou a ter voz. As
mulheres precisam de espaço reconhecido socialmente para apropriarem a si mesmas a validez
do que tradicionalmente tem sido a linguagem masculina’’, ou seja, a pornografia (FACT, 1985,
p.31).
O que está errado não é a afirmação de que as mulheres necessitam de maior alcance sexual,
mas o confinamento às formas que a sexualidade masculina tomou. As libertárias sexuais e
lésbicas por estilo de vida, por toda a ênfase delas na fantasia sexual, perdem a imaginação
sexual real. Há um monte de conversas sensuais na literatura libertária sobre a necessidade das
mulheres se libertarem das correntes do conceito de erotismo‘’bonzinho’’, da feminidade
posando como feminismo, e do sexo sentimental, espiritualizado e suave. Ainda que em
nenhum lugar vejamos as formas que essa sexualidade feminina vital, vigorosa e robusca pode
tomar articulada como nada diferente das formas do modelo de sexualidade do poder masculino.
O Modelo de Sexualidade do Poder Masculino, os modos e manifestações da sexualidade que
as libertárias e lésbicas por estilo de vida sustentam como de alcance libertador desde o inócuo à
injúria. As probabilidades de formas que têm dado posição de igualdade, e representadas como
sexo rebelde para as mulheres, merecem por estes motivos análise separada. Por exemplo, Ellen
Willis declara que, ‘’É precisamente o sexo como atividade agressiva e grosseira uma expressão
da violência e da emoção ruim, um exercício de poder erótico, e especificamente uma
experiência genital que tem sido um tabu para as mulheres’’ (Willis, 1983, p.85). Lado a lado,
nós vemos Willis equiparando ‘’sexo como agressivo’’ e como ‘’emoção violenta’’, com sexo
como o ‘’exercício do poder erótico’’’ e ‘’experiência genital’’. Todos são representados como
meros tabus. Nenhum declive falso aqui; apenas conversa falsa para propósitos falsos.
Judith Walkowitz denominou a perspectiva libertária sobre sexualidade uma ‘’posição
avançada” (Diário, 1981, p.72). É difícil ver o que é avançado ou progressivo sobre a posição
que situa ‘’desejo’’, e o dinamismo sexual, vitalidade e vigor dessas mulheres presas em formas
antigas de objetificação sexual, subordinação e violência, agora iniciadas por mulheres e feitas com o consentimento delas. As libertárias oferecem uma sexualidade supostamente desnunada
do tabu feminino, mas apenas capaz de se vestir com trajes masculinos. Isso é uma sexualidade
construída por machos rebocada.
Mas aparece mais nesse show de reboque do que nos atores e atividades do poder sexual
masculino. Despolitizar também é um reboque, disfarçado como construção sexual da
feminilidade. Quando a construção da sexualidade entrou no estágio central do discurso
feminista, a política da sexualidade e dominação sexual foi forçada a sair – e também foi a
política do lesbianismo. Por exemplo, as editoras de Desejo: A Política da Sexualidade
argumentam que lésbicas têm sido asexuadas – por um consenso sexual entre feministas
lésbicas e heterossexuais que é ‘’teoricamente aceitado outras moderarem as propensões
saudáveis e sexuais…’’, mais ou menos no mesmo espírito que São Paulo aceitou a
inevitabilidade do casamento para aquelas fracos de carne e alma’’ (Snitow, Stansell, &
Thompson, 1983, p.27). A ‘’posição avançada’’ não fala mais sobre lesbianismo político e
heterossexualidade compulsória. Isso tem sido relegado para uma pequena parte do discurso
feminista. E são aquelas feministas extremistas, antissexo, reprimidas, puritanas e radicais que
insistem em dar a isso até mais do que esse papel!
Há o assunto arrogante e paternalista nos argumentos libertários que aquelas que fazem
problemático o conceito do prazer sexual são elas mesmas privadas dos prazeres mais vitais e
vigorosos. Fracas sexuais! Problematizar o conceito de prazer sexual significa conversar sobre o
poder masculino. E a ‘’posição avançada’’ dificilmente fala mais sobre o poder masculino – isso
é simplista e sombrio. E como o F.A.C.T. brevemente expressou isso, apenas retratam homens
como viciosos ‘’cães de ataque’’ e as mulheres como vítimas (F.A.C.T., 1985, p.39). Ao invés
disso, a posição libertária fala muito sobre condicionamento social para a sexualidade ou o
papel da socialização na realização da sexualidade. De modo que quando homens agem de
certas maneiras, eles são meros produtos da socialização deles, como são as mulheres. Essas
teorias perdem um conceito de poder que destaca que a sexualidade masculina é ligada com o
poder – que há vantagens positivas na posição, ego e autoridade para os homens nas maneiras
que eles exercem a sexualidade deles. As mulheres não podem suportar acriticamente essa
análise para revelar a alegria do sexo.
A Estrutura de Representação, o cenário das formas sexuais que imitam o modo de
sexualidade do poder masculino é apenas um dos focos. Outro, como Susanne Kappeler apontou
com respeito à pornografia, é a estrutura de representação que deve ser levada em consideração.
Isso significa que alguém está fazendo essas representações, e alguém está olhando para elas,
‘’através de uma ordem complexa de significados e convenções’’ (Kappeler, 1986, p.3). As
libertárias e lésbicas por estilo de vida nos dizem que as atrizes sexuais que atuam em certos
papeis, tais como butch/femme e dominadora/serva, são mulheres que podem tanto ser
dominadoras quanto dominadas no ato sexual. Em outras palavras, quando lésbicas, por
exemplo, tomam papeis como butch/femme ou dominadora/serva, porque são mulheres – duas
lésbicas – engajadas em tais ‘’jogos’’ sexuais, nenhuma é objetificada, machucada ou violada. O
libertarianismo e o lesbianismo por estilo de vida reivindicam nivelar a desigualdade cultural de
macho dominador e fêmea dominada. Vamos olhar mais de perto esta reivindicação.
Muitas libertárias e lésbicas por estilo de vida, quando engajadas em vários atos sexuais,
reivindicam que elas e seus atos estão resolutamente isolados de qualquer coisa que esses atos
possam representar ‘’lá fora’’. A privacidade do quadro e o que acontece lá é separada, elas
dizem, da realidade, em um ‘’quarto de alguém’’ – a esfera libertária e lésbica por estilo de vida
da fantasia.No sadomasoquismo, por exemplo, os chicotes, correntes, suásticas, a parafernália
militar, as algemas, as coleiras, os dominadores, as servas, não possuem dimensão no mundo
real. Os papeis de dominador e serva, por exemplo, são tratados em um mundo separado, no
santuário da atividade sexual, onde o jogo é jogado de acordo com outras leis, válidas no mundo da fantasia. A artista insulta o estético, frequentemente reivindicando que essa é uma zona livre
da realidade. A libertária na mesma moda insular tenta abrigar a esfera sexual fazendo suas
atividades aqui independentes da realidade, independentes da crítica. As atrizes sexuais e suas
atividades existem em uma atmosfera rarefeita. Isso é como brincar na caixa de areia, ou mais
precisamente, na caixinha de areia do gato.
As libertárias e lésbicas por estilo de vida teriam isso que até as mulheres ‘’tratarem’’ toda a
questão da sexualidade, nenhuma libertação verdadeira advirá. O que esse foco tem alcançado é
a re-sexualização das mulheres, dessa vez em nome da libertação das mulheres. A sexualização
das mulheres, é claro, é um tema antigo que é comum tanto para os ‘’novos’’ reformadores
sexuais e para sexologistas, como é o tema que as mulheres precisam libertar sua sexualidade
para se libertarem. Havelock Ellis disse isso, também disse Kinsey, e mais recentemente
Masters e Johnson. Mas dessa vez os ‘’novos’’ reformadores do sexo são mulheres, e o tema é
que o sexual feminino é enormemente poderoso, mais do que tem sido dado crédito na fraca
literatura feminista que precede essa particular ‘’revolução sexual’’ libertária’’.
Sexo como uma Fonte Poderosa. O dogmatismo escondido aqui é que o sexo é a fonte do
poder. Sexo é central – não a criativade, não o pensamento, não qualquer outra coisa que não o
sexo. Seguindo um tipo de linha freudiana, as libertárias exercem uma influência de reconservação
no feminismo e lesbianismo essencializando um vagamente definido ‘’poder de
desejo’’.
A sexualidade parece estar na base de tudo na literatura libertária e lésbica por estilo de vida.
Aqui, a primacia do sexo é reafirmada, dessa vez não necessariamente como conduzida pela
biologia, mas como uma força de propulsão social – uma força que não tem apenas influência,
mas poder determinista. A sexualidade adquire o tom de uma nova teoria do direito natural no
discurso libertário, revertendo a teoria da sexualidade de ‘’anatomia é destino’’ em uma teoria
de determinismo social. Sexo como condução biológica primária reaparece no sexo como
motor social primário, se conduzindo à realização utilizando todos os modos sexuais do poder
masculino de objetificação, subordinação e opressão. Como qualquer motor, o sexo requer a
assistência dos ajustes e técnica. O modelo mecânico mais uma vez prevalece.
Podemos nós tão prontamente acreditar que o sexo é nossa salvação? Nós já não escutamos essa
linha antes – de que o que realmente conta é a qualidade de nossa vida sexual, nossos
orgasmos?
Nossa onda mais recente de feminismo perde muito do seu tempo de-sexualizando as imagens
das mulheres na mídia, no mercado de trabalho, e no cosmos em geral. O que a posição
libertária tem tido sucesso em fazer é re-sexualizar as mulheres, usando a retórica feminista e da
libertação lésbica para afirmar que a sexualidade é um impulso radical. Mas a sexualidade é
mais radical que qualquer outra coisa. Há certas formas disso que podem ser radicais e há certas
formas disso que não. É irônico que as libertárias querem reafirmar as formas de sexualidade do
poder masculino para empoderar mulheres.
Esse não é sempre o caso, contudo. Houve um tempo quando o movimento chamado feminismo
lésbico teve paixão, princípios e política. Sem romantizar esse período como a era de ouro do
feminismo lésbico, eu gostaria de recordar para nós o que o movimento foi e o que representava.
O Movimento Feminista Lésbico. Esse movimento foi a mudança mais forte da heterorealidade
que o feminismo encarnou. Isso mudou a visão de mundo que as mulheres existem
para os homens e primariamente em relação a eles. Isso mudou a história das mulheres como
primariamente revelada na família – uma história que frequentemente, no melhor dos casos, renderia as mulheres apenas a relações com homens e eventos definidos pelos homens. Isso
mudou a aparente verdade que ‘’Tu, como uma mulher, deve se unir com um homem’’, sempre
buscando nossas metades perdidas na complementaridade das relações heterossexuais. Isso
também mudou a definição do feminismo como igualdade das mulheres com os homens. Em
vez disso, isso fez uma visão real de igualdade das mulheres com nós Mesmas. Definiu a
igualdade como sendo igual para aquelas mulheres que têm sido pelas mulheres, vivido pela
liberdade das mulheres e que morreram por isso; aquelas que lutaram por mulheres e
sobreviveram pela força das mulheres; aquelas que amaram as mulheres e perceberam que sem
a consciência e convicção de que as mulheres são primárias na vida de cada uma, nada mais está
em perspectiva.
Esse movimento trabalhou a favor de todas as mulheres. Ele não tinha medo de definir estupro
como sexo – não apenas violência, mas sexo. Ele criticou a prostituição e pornografia como
sexualidade prejudicial para as mulheres e não tiveram medo de falar contra os revolucionários
sexuais homens que queriam libertar todas as mulheres que tinham acesso para essa liberdade
falsa. Ele estabeleceu centros para mulheres agredidas e levou a campanha feminista contra
violência à mulher.
Mas então algo aconteceu. As mulheres – frequentemente lésbicas – começaram a definir as
coisas de forma diferente. A pornografia passou a ser chamada de erótica e listada no serviço de
discurso e auto-expressão lésbica. A violência contra a mulher passou a ser chamada de
sadomasoquismo lésbico e foi listada a serviço do sexo lésbico, ou seja, foder. A prostituição
passou a ser chamada de trabalho necessário para as mulheres e foi listada a serviço da realidade
econômica feminina. O que mudou foi que no lugar de homens, as mulheres – incluindo as
mulheres que se identificavam lésbicas – estavam endossando essas atividades para outras
mulheres. E outras mulheres, outras lésbicas, estavam relutantes para criticar em nome de
alguma unidade pseudo-feminista e lésbica.
Certamente, muitas lésbicas resistiram a essas degradações na vida das mulheres. Certamente,
muitas lésbicas continuam na frente do movimento anti-pornografia. Muitas lésbicas estão
lutando mundialmente contra a prostituição internacional e escravidão sexual. E muitas lésbicas
falaram contra o sadomasoquismo lésbico. Mas ao passo que antigamente podíamos contar com
um movimento político de feminismo lésbico para lutar contra essas atividades anti-feministas,
a política do feminismo lésbico diminuiu.
O feminismo lésbico foi um movimento baseado no poder de um ‘’nós’’, não na fantasia de uma
mulher individual ou auto-expressão. Foi um movimento que teve uma política – que percebeu
que a prostituição, pornografia e violência sexual não podia ser redefinida como terapêutica,
econômica ou sensual para se ajustar ao capricho individual de uma mulher em nome da livre
escolha. Foi um movimento que reconheceu as complexidades da escolha, e como foi dito, as
escolhas das mulheres são politicamente construídas.
Uma Questão de Escolha? Agora eu quero contar a vocês uma história – sobre escolha, porque
toda vez que feministas radicais assinalam a construção política de escolha das mulheres, nós
somos acusadas de sermos condescendentes às mulheres e de fazermos as mulheres de vítimas.
Então, minha história.
Era uma vez, no começo dessa onda de feminismo, havia um consenso feminista que as
escolhas das mulheres eram construídas, sobrecarregadas, emolduradas, comprometidas,
forçadas, coagidas, conformadas, etc. pelo patriarcado. Ninguém propôs que isso significada
que as escolhas das mulheres eram determinadas, ou que as mulheres eram vítimas passivas ou
desamparadas do patriarcado. Isso foi porque muitas mulheres acreditavam no poder do
feminismo de mudar a vida das mulheres e obviamente as mulheres não podiam mudar se eram determinadas socialmente em seus papeis ou massa maleável nas mãos do patriarcado. Nós até
conversamos sobre maternidade compulsória e sim, heterossexualidade compulsória! Nós
conversamos sobre os modos nos quais as mulheres e garotas jovens eram levadas à
prostituição, acomodando a elas mesmas ao espancamento masculino, e eram canalizadas para
pagamentos baixos e empregos sem saída. E as mais moderadas de nós falaram sobre a
socialização de papeis de sexo. As mais radicais escreveram manifestos detalhando a construção
patriarcal da opressão das mulheres. Mas a maioria de nós concordou, chamando do que fosse,
que as mulheres não eram livres apenas por serem ‘’você e eu’’.
O tempo passou e junto veio uma visão mais ‘’matizada’’ de feminismo. Ele nos dizia para
observar nossa linguagem de mulheres como vítimas. Mais mulheres foram para as escolas de
graduação e profissionalização, ficaram ‘’mais espertas’’, foram recebidas nos bares, foram para
a academia, e se tornaram especialistas em todos os tipos de ramos. Elas partilharam do poder
que os deuses masculinos criaram e ‘’viram que era bom’’. Elas perceberam a infinidade de
opções disponíveis a elas, e então elas projetaram para todas as mulheres, e voilá, o evangelho
da escolha autêntica. Elas começaram a dizer coisas como ‘’… grande cuidado deve ser tomado
para não retratar as mulheres como incapazes de tomarem decisões responsáveis ” (Andrews,
1987, p.46).
Algumas mulheres pensaram que essas palavras lhe eram familiares às que elas escutaram antes,
mas o discurso analista feminista não parecia particularmente interessado em voltar ao que as
feministas ‘’da velha guarda’’ rotularam como discurso liberal patriarcal. Elas diziam que isso
era cansativo e fora de moda, e, além disso, as mulheres já ouviram demais sobre isso, e era
depressivo. “Não sejamos simplistas em culpar homens, elas disseram, porque essa análise
‘‘oferece tão poucos pontos influentes para ação, tão poucos pontos de entradas imaginativos
para visar a mudança” (Snitow et al., 1983, p.30). Ao invés disso, elas começarem a conversar
sobre os ‘’Reprodutores Felizes’’ e as ‘’Prostitutas Felizes’’ e as ‘’mulheres que amavam isso’’
e aquelas que amariam se pudessem ter ‘’a liberdade e espaço reconhecido socialmente para
apropriar a elas mesmas a robustez do que tradicionalmente tem sido linguagem masculina”
(leia-se pornografia).
Retórica de Linguagem: Barriga de Aluguel e Pornografia. Isso era familiar também, mas
então algo estranho aconteceu. Essas mulheres que notaram a linha de continuidade entre os
homens liberais patriarcais e o feminismo F.A.C.T., por exemplo, começaram a perceber que ao
invés das mulheres imitarem o discurso masculino, os homens começaram a imitar as mulheres.
Nos Estados Unidos, veio junto um fenômeno chamado maternidade substituta. Uma decisão da
corte de Nova Jersey acolheu o direito dos homens de comprarem mulheres – reprodutoras
pagas – para ter seus bebês para eles (Corte Superior de Nova Jersey, 1987). Mas uma dessas
então chamados substitutas decidiu lutar por ela mesma e sua criança, reconhecendo que a
barriga de aluguel explora as mulheres. Isso ficou popularmente conhecido como o caso de
Mary Beth Whitehead versus Bill Stern. Gary Skoloff, o advogado de Bill Stern no caso de
barriga de aluguel de Nova Jersey, resumiu seu argumento no tribunal dizendo: ‘’Se você
previne as mulheres de se tornarem mães substitutas e nega a elas a liberdade de decidir, você
está dizendo que elas não têm a habilidade de fazer suas próprias decisões. Isso tem sido
injustamente paternal e isso é um insulto à população feminina dessa nação’’. Algumas
mulheres sentiram que ‘’A imitação é a adulação mais sincera’’. Elas começaram a testemunhar
a favor de coisas como pornografia e barriga de aluguel, para que pudessem imitar todos os
homens que as imitaram. Ficou difícil dizer quem imitava quem.
E então os legisladores americanos começaram a submeter defendendo barriga de alguel, com
regulamentação adequada, é claro, que principalmente protegiam o doador de esperma e as
agências de coletagem, porque o feminismo estava nos melhores interesses dos homens, e
finalmente os homens perceberam isso. Isso foi como as feministas humanistas sempre disseram, que o feminismo é bom para os homens também. Antes dessa decisão ser revertida
por um tribunal maior, o juiz, Harvey Sorkow, proclamou que Bill Stern foi sobrecarregado com
o ‘’desejo intenso’’ de procriar e até disse que isso era ‘’dentro da alma’’. Ele disse que o
argumento feminista que um ‘’grupo de pessoas da mais alta elite econômica usou o grupo de
economia mais baixa de mulheres para ‘fazer o bebê deles’ e foi ‘’insensível e ofensivo’’ para
os Bill Sterns desse mundo. Um homem de sentimento, ele disse que Mary Beth Whitehead foi
uma ‘’mulher sem empatia’’. Ele estava muito preocupado com Sr. Stern experimentar a
‘’realização’’ dele como pai, e entao deu a ele a Bebê Sara que Sr. Stern chamou de Bebê
Melissa.
Pouco tempo antes disso, o General Attorney convenceu uma Comissão sobre Pornografia que
escutava o testemunho de mulheres que estiveram na pornografia. Howard Kurtz do Posto de
Washington, outro homem de sentimento, questionou a veracidade dessas mulheres
caricaturando seus sentimentos ‘’um desfile de vítimas auto-descritas que diziam suas histórias
tristes por trás de uma tela opaca. Muitos especialistas dos dois lados da questão disseram tais
contos anedóticos sobre a aflição não provar nada sobre o efeito dos materiais explícitos de
sexualidade” (Kurtz, 1985, A4, enfâse meu). Para não ficar atrás, Carol Vance escarneceu sobre
o testemunho das mesmas mulheres citando com aprovação um repórter homem que puxou ela
durante as audiências e disse’’testemunho falso’’ (Coveney & Kaye, 1987, p.12).
Para encurtar uma longa história, os homens tomaram essa linguagem de descrença pelas
feministas que estão agora nos dizendo que vítimas da pornografia escolheram as camas em que
deitaram. Mary Beth Whitehead escolheu assinar seu contrato. Todos os homens e mulheres de
sentimento entendem isso. É o nosso direito de escolha, afinal, que está em jogo. A pornografia
e barriga de aluguel protegem esse direito de escolha. Esse tipo de liberdade de escolha, esse
tipo de liberdade é o liberalismo. E infelizmente, o lesbianismo por estilo de vida também é
liberalismo.
Liberalismo do Lesbianismo por Estilo de Vida. O liberalismo do lesbianismo por estilo de
vida significa que nós – ou seja, as lésbicas – não podemos mais dizer nós. Ao invés disso, as
mulheres dizem: ‘’na minha opinião’’, ou ‘’para mim’’, ou ‘’como eu vejo isso’’ ou ‘’Eu tenho
direito ao que me excita’’. Então o que nos restou? Certamente não foi o lesbianismo político
que não pode sequer enquadrar uma sentença na primeira pessoa do plural nesse ponto da
história lésbica. Não, ao invés – uma visão lésbica extremamente egocêntrica. E nós fomos
deixadas com a tirania da tolerância que passa por diferença.
Como se cada desejo individual se tornasse uma diferença pessoal ou cultural que outras
mulheres não devem apenas tolerar, mas também promover. Então o desejo de uma mulher,
racionalizado como um desejo de libertar sua sexualidade engajando-se em s & m, por exemplo,
deve ser tolerado por outras mulheres e/ou lésbicas em nome de promover as diferenças lésbicas
e fomentar a unidade lésbica abrindo espaço para todas as diferenças, em nome de alguma
comunidade feminista e/ou lésbica definidada, julgamentos de valor não podem ser feitos
porque isso é ser divisiva. Que tipo de unidade pode ser construída com a falta de vontade para
julgamentos?
Por exemplo, muitas mulheres vagamente ‘’sentem’’ que o então chamado sadomasoquismo
lésbico é errado, mas se seguram para não traduzirem seus sentimentos em palavras e ações.
Outras mulheres dizem a elas que ninguém tem o direito de julgar o comportamento das outras
ou forçar às outras seus próprios valores. Isso é o que eu chamo de tirania da tolerância –
‘’fazendo o que é seu’’. A tirania da tolerância dissuade mulheres de pensamentos cabeça-dura,
de se responsabilizarem por discordarem das outras, e de agirem. Isso nos coloca em uma
posição extremamente passiva. O que é definido como liberdade de valores, ou seja, não fazer
julgamentos, pode parecer sensibilidade e respeito às outras mulheres, mas na realidade isso faz as mulheres passivas e não-críticas, porque isso para o julgamento e a ação. E a vida ativa social
e política decorrem de valores, escolhas, e atividades que são definidas com clareza e exercidas
com comprometimento.
Mary Daly delineou muitos elementos do feminismo radical (Daly, 1984, pp.397-398; Daly,
1987, p.75). De maneira similar eu ressaltarei os muitos valores comumente mantidos pelo
feminismo Lésbico que nos permite dizer nós novamente. Se nós somos lésbicas feministas, nós
temos conhecimento claro e presente que os garotos, e algumas garotas, não gostarão de nós e
que nós podemos ter problemas pelo caminho.
Colocando o ‘nós’ de volta no Feminismo Lésbico. Se nós somos feministas lésbicas nós
somos radicalmente diferentes do que a sociedade heterossexual quer que sejamos. E não é uma
diferença falsa, é uma diferença real. Por exemplo, a sexualidade lésbica é diferente, enraizada
na imaginação lésbica. Não é a mesma antiga sexualidade que as mulheres devem apresentar em
uma hetero-realidade. Não é pornografia, não é butch e femme, e não é bondage e dominação.
Isso é por uma coisa, uma sexualidade com a imaginação enraizada na realidade. Como Andrea
Dworkin escreveu, ‘’A imaginação não é um sinônimo de fantasia sexual… ’’. A fantasia pode
apenas evocar um apanhado roteirizado de truques que são uma repetição infinita das práticas
heterossexuais conformistas. ‘’A imaginação encontra nosos significados, novas formas; valores
e atos. A pessoa com imaginação é empurrada para frente por isso em um mundo de
posssibilidade e risco, um mundo distinto de significado e escolha” (Dworkin, 1987, p.48); não
para o ferro velho heterossexual do libertarianismo lésbico e atividades por estilo de vida que se
reciclaram para as mulheres como bens fantásticos. O lesbianismo por estilo de vida põe a
fantasia no lugar da imaginação. Você já percebeu como todo mundo fala sobre suas fantasias e
não sobre imaginação?
Se nós somos lésbicas feministas, nós sentimos e agimos a favor das mulheres como mulheres.
O feminismo lésbico não é um movimento de uma questão. Ele faz conexões entre todas as
questões que afetam as mulheres – não apenas o que afeta este grupo, classe ou nacionalidade
particular, e não quer apenas afetar as lésbicas. Nós sentimos e agimos por todas as mulheres
porque nós somos mulheres, e mesmo se fóssemos as últimas a professar isso, nós ainda
estaríamos aqui pelas mulheres.
Se nós somos lésbicas feministas, nós continuamos. Mesmo quando isso não é popular. Mesmo
quando isso não é recompensado. Não apenas ontem. Não apenas hoje. Não apenas algumas
horas na semana. O feminismo lésbico é um modo de vida, um modo de viver por nosso Eu
mais profundo e pelas outras mulheres.
E aquelas que pensam que a objetificação, subordinação e violação de mulheres é aceitável,
apenas contanto que você chame isso de erótica lésbica ou sadomasoquismo lésbico – elas não
são lésbicas feministas. E aquelas que pensam que é aceitável na privacidade de seus próprios
quartos, onde elas aproveitam isso – especialmente sexualmente – elas também não são lésbicas
feminsitas. Como Mary Daly disse, elas são lésbicas ‘’da cintura para baixo’’. E àquelas que
dizem, como nos atrevemos a definir o significado do feminismo, eu digo – se não definimos o
significado do feminismo, o que o feminismo significa?
Por anos nós lutamos contra a representação de lésbicas na pornografia heterossexual. Nós
dissemos, ‘não há nós nessas posturas de dramatização butch e femme. Não é assim que
fazemos amor. Não há nós tratando umas as outras como sádicas ou masoquistas. Não há nós
presas nessas correntes, com esses chicotes, e nessas fantasias de homens do que as mulheres
fazem com outras mulheres. Esse é um sonho de homens do que uma lésbica é do que as
lésbicas fazem’’, nós dissemos. E nós não apenas dissemos isso. Nós lutamos isso. Então agora
o que acontece. Nós temos pornografia lésbica aparecendo em páginas americanas de pornô de
mulheres, como ‘’Má Atitude’’ e ‘’Às Nossas Costas’’. E nós temos a F.A.C.T. E toda essa ‘’literatura feminista e lésbica’’ que nos diz que a pornografia heterossexual, que a
heteropornografia, é certa. Temos um círculo completo – infelizmente – de volta ao mesmo
ponto negativo de início.
Visões Futuras e Contexto para a Sexualidade Lésbica. Então, eu quero terminar falando
sobre uma visão e contexto para a sexualidade lésbica. Para aquelas que querem orientações de
como fazer isso, esse fim será um desapontamento. Eu quero sugerir que a sexualidade pode
parecer enraizada na imaginação lésbica, e não nas fantasias heterossexuais de pornografia
lésbica. Essa é uma visão, um contexto, uma nota final que é na verdade um começo.
Essa visão de sexualidade inclui a ‘’habilidade de tocar e ser tocada’’. Mas mais, um toque que
faz contato, como James Baldwin expressou isso. Andrea Dworkin, com base nessas palavras de
Baldwin, escreve sobre a sexualdiade como ato, o ponto de conexão, onde o toque faz contato se
o autoconhecimento está presente. É também o ato, o ponto de conexão, onde a ncapacidade do
toque fazer contato é revelada e onde os resultados podem ser devastadores. Na sexualidade, a
intimidade é sempre possível, tanto quanto nós dissemos que sexo é sexo – ou seja, simples
prazer. Na sexualidade, uma gama de emoções sobre a vida é expressa, mesmo que a relação
seja casual ou impessoal – sentimentos de traição, raiva, isolamento, e amargura assim como
esperança, alegria, ternura, amor e comunhão (Dworkin, 1987, pp.47-61). Todos, embora não
todos juntos, residem nessa paixão que chamamos sexualidade. A sexualidade é onde essas
emoções se tornam acessíveis ou anestesiadas. Toda a vida humana não fica parada no sexo.
Libertárias e lésbicas por estilo de vida simplificam a complexidade de toda essa vida humana
que está presente no ato sexual. Abandonando que a totalidade – essa história, esses
sentimentos, esses pensamentos – permite o incêndio, mas não a paixão. ‘’Todo toque, mas sem
contato’’ (Baldwin, 1962, p.82).
A paixão, é claro, permite o amor. É possível, mas não inevitável. A paixão é uma passagem
entre duas pessoas. O amor é uma extensão dessa passagem. A paixão pode se tornar amor, mas
não sem se abrir a isso. O sexo como paixão, e talvez como amor, não apenas um incêndio, é
uma experiência radical de ser e se tornar, de escavar possibilidades dentro do verdadeiro eu, e
dentro das outras talvez, que têm sido desconhecidas.
Eu comecei essa conversa indicando que, embora as lésbicas por estilo de vida falem
constantemente sobre sexo, elas são mudas sobre a conexão disso com toda a vida humana, e,
portanto, elas são mudas sobre o próprio sexo. A presença de toda uma vida humana no ato da
sexualidade nega qualquer visão reducionista do sexo como bom ou mau, puro prazer ou pura
perversão. Dworkin nos lembra que quando o sexo está ficando igual, quando o sexo é odiado,
quando o sexo é utilidade, quando o sexo é indiferente, então o sexo é a destruição do ser
humano, de outra pessoa talvez, mas indubitavelmente de si mesma. O sexo é toda a vida
humana enraizada na paixão, na carne. Essa toda vida humana está em jogo sempre.

Celibato Apaixonado por Sally Cline e A Nova Mulher e a Moral Sexual de Alexandra Kollontai – Trechos

13-jan-15

“Muitas de nós perdemos largas porções de nosas vidas ligadas a alguém, acreditando em outros para nossa validação, nosso valor próprio, nossa estabilidade emocional. Que um alguém, aqueles significantes outros, são muitas vezes parceiros sexuais. É difícil pra mulheres jogarem fora a noção de que nós somos completadas por estarmos atachadas a outro ser humano. . . Para muitas mulheres que escolhem celibato, é em um senso crítico sobre estar só. Sobre estar apta a fazer decisões para uma mesma sem referenciar a alguém mais; para viajar luzes sem ônus sexuais; aprender auto suficiencia e factua o que pode muitas vezes parecer assustador solidão por acreditar em si mesma para achar o caminho que se precisa.”

“Celibato Passional é uma forma de sexualidade feminina. É a escolha de estar sem um parceiro sexual por razões positivas de caráter pessoal, politico, ou de crescimento espiritual, liberdade e independência. Celibato Passional é uma singularidade que permite mulheres a definir a elas mesmas autonomamente, enquanto que continuando a reter uma rede de conexões, particularmente em termos de outra pessoa e seus ou suas necessidades. É uma forma de prática sexual sem as lutas de poder de um relacionamento sexualmente ativo, que não é nem mantido por nem suporta o mito genital.”“Nós parecemos viver em uma sociedade sexual, mas não genuinamente sexual, porque uma verdadeira sociedade sexual oferecendo escolhas livres tanto para homens quanto para mulheres seria injuriante para a elite em poder. O que a gente vive é em uma sociedade genital-fixada que comunica mensagens para mulheres que muda de acordo com seu tempo para servir à ordem social. Essas são o que chamo ‘mensagens genitais’ . Homens prescrevem o que é feminino, o que é sexy, os ditames para o comportamento sexual de mulheres. Em diferentes momentos mulheres são ditas para serem mães quentes, chicas liberadas, ou putas frígidas. Em nenhum momento pode uma mulher livremente escolher estar em regime celibatário como uma forma de comportamento sexual, porque em momento algum pôde uma mulher livremente estar permitida a escolher seu próprio modo de atividade sexual. Homens sempre sublinharam o que era apropriado, decidiram o que era desejável.”


“Através do celibato uma mulher aprende a controlar sua própria vida, a tomar riscos, a crescer, fazer decisões, a viver por sua própria conta, a valorizar outras mulheres, a ver homens como possíveis amigos e potenciais iguais e não apenas como meramente amantes ou inimigos.”

“No fim do período vitoriano quase uma entre três mulheres adultas eram solteiras e uma em cada quatro eram não desejosas de se casar.”traduzido de:
http://www.pinn.net/~sunshine/book-sum/celibacy.html

“É preciso que se abram para a mulher as múltiplas portas da vida. É preciso endurecer seu coração e foijar sua vontade. Já é hora de ensinar à mulher a não considerar o amor como a única base de sua vida e sim como uma etapa, como um meio de revelar seu verdadeiro eu. É necessário que a mulher aprenda a sair dos conflitos do amor, não com as asas quebradas e sim como saem os homens, com a alma fortalecida. É necessário que a mulher aceite o lema de Goethe: “Saber desprezar o passado no momento em que se quer e receber a vida como se acabasse de nascer”. Afortunadamente, já se distinguem os novos tipos femininos, as mulheres celibatárias para as quais os tesouros que a vida pode oferecer não se limitam ao amor”. (Alexandra Kollontai, A Nova Mulher e a Moral Sexual)

Andrea Dworkin:

“Um amor romântico, tanto na pornografia quanto na vida real, é a mítica celebração da negação feminina. Para uma mulher, o amor é definido como sua boa vontade para se submeter a sua própria aniquilação. A prova de amor é que ela está disposta a ser destruída por aquele que ela ama, pelo seu bem. Para as mulheres, o amor é sempre auto-sacrifício, sacrifício de sua identidade, desejo e integridade de seu corpo; para que satisfaça e se redima diante da masculinidade de seu amado”.

Como começa o feminismo ‘sexpositive’ para Catherine Mackinnon

13-jan-15

“Começa com a idéia de que as pessoas, mesmo as pessoas que como um grupo são pobres e impotentes, fazem o que elas fazem voluntariamente, assim mulheres que posam para a Playboy estão lá por vontade própria. Esquecem as realidades da situação sexual/econômica das mulheres. Quando mulheres expressam nosso livre arbítrio, nós abrimos nossas pernas para uma câmera.Implícito aqui, também, está a idéia de que um corpo físico natural existe, anterior à sua construção social através da observação, o qual pode ser capturado e fotografado, mesmo ou especialmente, quando “em poses atraentes” – essa é uma citação da Filosofia Playboy. Então nos dizem que criticar isto é criticar “idéias”, não o que está sendo feito tanto para mulheres na revista ou para mulheres na sociedade como um todo. Qualquer crítica do que é feito é então taxada de crítica moral, o qual, como liberais sabem, pode envolver quaisquer opiniões ou idéias, e não fatos sobre a vida. Esta edificação defensiva inteira, por ilógico que pareça, depende completamente e coerentemente nas cinco dimensões cardinais do liberalismo: individualismo, naturalismo, voluntarismo, idealismo, e moralismo. Ou seja: membros de grupos que não têm escolha a não ser viverem a vida como membros de grupos são tomados como se fossem indivíduos únicos; as características sociais são então reduzidas a características naturais; preclusão de escolhas se torna livre arbítrio; realidade material é transformada em “idéias sobre” a realidade; e posições concretas de poder e impotência são transformadas em julgamentos relativos de valor, aos quais pessoas razoáveis podem formar preferências diferentes mas igualmente válidas.

O que eu acabei de descrever é a defesa ideológica da Pornografia. Dadas as conseqüências para as mulheres desta estrutura teórica formal, conseqüências que vivemos diariamente como desigualdade social (sem mencionar sua postura inerente de culpe-a-vítima), eu não acho que possa ser dito que o Feminismo Liberal é feminista. O que ele é, é liberalismo aplicado às mulheres.”

– Catherine McKinnon, Feminism Unmodified: Discourses on Life & Law ( Ed. Catherine MacKinnon., Cambridge: Harvard University Press, 1987, p. 136)

Sobre a importância, para todas as mulheres, da experiência do amor lésbico

13-jan-15

“Todas as relações heterosexuais são corrompidas pelo desequilíbrio de poder entre o homem e a mulher. Para manter a superioridade os machos precisam alimentar a ansiedade emocional e a submissão econômica da mulher. Para sobreviver numa ordem social de supremacia masculina, a mulher se enfraquece de modo a construir o ego masculino. A mulher não pode se desenvolver plenamente num contexto heterosexual devido ao efeito sufocante dessa cultura e aos papéis prejudiciais que ela é forçada a desempenhar. É mais provável que as relações entre mulheres estejam livres das forças destrutivas que tornam tais defesas necessárias. As normas institucionais e as limitações de uma cultura orientada para o poder, claro, também influenciaram as mulheres; entretanto, os níveis dominação-subordinação que as mulheres às vezes trazem para as relações lésbicas não podem obscurescer a igualdade essencial das pessoas envolvidas. Além disso, muitas das reações cultivadas nas mulheres são extremamente propícias a uma interação não-exploradora. Sensibilidade aos sentimentos e inclinações dos outros, cuidado, delicadeza, estão entre as qualidades que são mais cultivadas nas mulheres do que nos homens… [1] Como os homens ocupam uma posição social superior e são ensinados a disputar o poder de modo a manter essa posição, dificilmente aceitam os outros como iguais, especialmente as mulheres. Os contatos humanos têm de ser dispostos hierarquicamente, e as mulheres têm que estar no nível mais baixo.

Quando uma mulher recusa-se a aceitar essa posição precisa ser ‘posta em seu devido lugar’ e a tensão é inevitável. Contrariamente a isso, as mulheres estão aptas a começar numa base de igualdade e dedicar suas energias à criatividade e ao desenvolvimento em vez de lutar para manter a identidade contra a destrutividade do tradicional papel feminino.”
– Janis Kelly em Sisters in Love: An exploitation of the need for homossexual experience (Irmãs Apaixonadas: Uma exploração da necessidade da experiência homossexual) – retirado do capítulo sobre lesbianidade do Relatorio Hite sobre a Sexualidade Feminina.

***
[1] Claro que a autora aqui se valeu de uma enorme romantização das relações lésbicas e uma crítica é necessário fazer. Sim, a socialização das mulheres é voltada para as ‘éticas do cuidado’. Porém ao reconhecer que isso seja pontos favoráveis para a escolha ativa por relações com outras mulheres e desprogramação da heterossexualidade compulsória, devemos criticar a tendência a uma essencialização do ser mulher e um culto dessa identidade das mulheres com a feminilidade, constructo patriarcal. Também preciso enfatizar que isso não é um consenso no feminismo lésbico, tendo sido criticada a idéia de lesbianidade como solução ou fetiche político e o apagamento da genuidade do desejo (embora a discussão sobre desejo e sua construção social também sejam assunto do feminismo radical, e como esse conceito é colocado em suspensão crítica).
| | Comments Off